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terça-feira, 17 de maio de 2016

Peça dirigida por Jô Soares fala da relação entre Salvador Dalí e Freud

FABIANA SERAGUSA


E
Jô Soares mergulhou no relacionamento improvável entre Freud (1856-1939) e Salvador Dalí (1904-1989) para dar forma à peça "Histeria", que estreia no dia 30/4 no Tuca e marca seu retorno à direção teatral após quase três anos —o último trabalho foi "Três Dias de Chuva".
Ele diz que pouca gente sabe da forte conexão entre essas duas personalidades —foi uma descoberta para ele próprio durante as pesquisas, afirma. "Achei que era uma fantasia da cabeça do autor, mas é tudo baseado em fatos."
Escrita pelo britânico Terry Johnson, a comédia parte de um encontro real entre o pai da psicanálise e o pintor surrealista, ocorrido em 1938, para criar uma trama delirante que mistura vários estilos.
Priscila Prade/Divulgação
Antonio Petrin (esq.) e Cassio Scapin são Freud e Dalí na nova comédia dirigida por Jô Soares
Antonio Petrin (esq.) e Cassio Scapin são Freud e Dalí na nova comédia dirigida por Jô Soares

"Vai da farsa mais louca ao drama mais profundo e volta à farsa enlouquecida", diz Jô. E completa: "Isso exige muita agilidade dos atores; não só mental, mas também física".
Antonio Petrin interpreta Freud, que acaba de escapar da Europa nazista e se instala em Londres, à beira da morte.
Quando recebe a visita de Dalí, vivido por Cassio Scapin, suas certezas começam a ser questionadas —e outras duas figuras colaboram para isso: um médico judeu (Milton Levy) e uma menina misteriosa (Erica Montanheiro) que contrapõe realidade e inconsciente.
"Cada personagem se encaixa com cada ator, inclusive do ponto de vista visual", diz o humorista, que atualmente realiza a última temporada de seu "Programa do Jô" na TV Globo.
A tradução de "Histeria", que chegou a ser dirigida por John Malkovich em 2004, também é assinada pelo apresentador, que já planeja montar um Shakespeare no segundo semestre: "Tróilo e Créssida."
E sobre atuar? "Sempre que monto um espetáculo, fico atraído como ator", afirma. "Já fiz sete solos e gostaria de completar oito, porque os programas estão pendurados na parede aos pares e falta um buraco para completar; isso é o que mais me motiva a fazer mais um."
Tuca. R. Mte. Alegre, 1.024, Perdizes, tel. 3670-8455. 672 lugares. Estreia: 30/4. Até 31/7. Sex.e sáb.: 21h. Dom.: 19h. Ingr.: R$ 50 a R$ 80. Ingr. p/ 4003-1212 ou ingressorapido.com.br. 

terça-feira, 8 de março de 2016

Colorir, um prazer terapêutico


Colorir, o simples ato de pintar uma superfície em branco, tem algo mais do que um propósito de criação. É um exercício de libertação, de conexão com o nosso eu interior…
É possível que você associe o ato de colorir com a infância. O cheiro dos lápis e esses desenhos prontos para ganhar vida nos trazem recordações de um passado muito marcante para todos nós.
Nos últimos anos, essa arte passou a ser algo mais do que uma tarefa destinada exclusivamente às crianças. Ela nos permite um momento de descontração, desaceleração do pensamento e criatividade.
Colorir é um exercício terapêutico e de reabilitação para diversos tipos de doenças.
Além disso, colorir ganhou um destaque tão grande que foram publicados muitos “livros para colorir” direcionados ao público adulto.
Qual é a sua finalidade? É chamada de arte anti-estresse, mas na verdade vai muito além disso.
Colorir esse tipo de desenho guia nossa mente por mundos de fantasia e mágica, ondenos desconectamos dos problemas do dia a dia e nos divertimos pintando uma série de desenhos complexos.
Jovens autores, como Johana Basford, representam essa tendência com muito sucesso.
“O jardim secreto” e “A floresta encantada” são dois exemplos de best-sellers que cativaram milhões de adultos por sua arte libertadora e terapêutica.
Colorir faz bem para a mente

Colorir, uma terapia com muitos benefícios clínicos

Embora seja verdade que o recente sucesso desses livros atinja um público que quer apenas apreciar a simples arte do desenho e pintura, colorir é um exercício de grande importância no campo da reabilitação cognitiva.
– Pessoas com vários tipos de demência e doenças neurológicas podem se beneficiar desse exercício que melhora a coordenação motora e a orientação espacial.
– É um exercício simples que traz tranquilidade interior e desenvolve os processos cognitivos básicos como a concentração, a criatividade e a motivação.
– Estabelece uma conexão interior e a mente se acalma e se harmoniza através das cores, aliviando a ansiedade e o estresse.
–  As crianças com diversos tipos de necessidades e deficiências podem se beneficiar, por exemplo, colorindo as mandalas.
Colorir é um ato solitário e silencioso onde uma poesia interna é expressada através de múltiplas emoções, e de repente tudo se harmoniza. Todos nós podemos nos beneficiar com esse exercício.

Colorir, um ato simples de liberação no dia a dia

Por que não? Os seguidores dessa arte asseguram que é uma tarefa relaxante e prazerosa.
O simples ato de abrir as páginas em branco nos transporta para os complexos e prazerosos mundos da fantasia.
Colorir faz bem para a mente
Algumas pessoas escolhem a caneta, outras o lápis de cor ou giz de cera. Brincar com as cores tem um efeito curativo. Seja como for, a opinião é sempre unânime: estamos diante de uma forma de arte que gerencia o estresse, oferecendo todas estas dimensões:
– Colorir coloca em funcionamento os dois hemisférios cerebrais, combina a imaginação com lógica, com criatividade e a concentração com liberdade interior.
– Não são somente as pessoas que levam uma vida estressante que compram esses livros. A maioria os escolhe por sua beleza estética e porque a pintura evoca o lado criativo e artístico que todos nós temos.
– Cada pessoa tem as suas preocupações e se concentra nesses desenhos por curiosidade ou porque gosta de desenhar. De qualquer forma, a opinião em relação aos benefícios relaxantes é unânime.
Colorir cura muitos outros aspectos. Através de um passeio pelas cores, desbloqueamos as emoções internas. Quando escolhemos determinados tons, de alguma forma, mostramos como está o nosso humor e estado emocional.
Às vezes, quando outros tipos de terapia falham, os exercícios para colorir permitem que a pessoa desfrute de um breve momento de independência e solidão. Essa conexão com o nosso interior pode ser muito catártica.
É por isso que a maioria dos livros vendidos atualmente sempre incluem representações fascinantes com formas circulares.
Quando desenhamos ou pintamos exercitamos a mente. Em primeiro lugar, buscamos informações, internalizamos o desenho e escolhemos as cores de acordo com o nosso gosto pessoal e personalidade.
Enquanto desenhamos meditamos, organizamos as ideias e liberamos as tensões… Pode haver algo melhor? Experimente!

terça-feira, 7 de abril de 2015

Glaucia Nagem




Glaucia Nagem é psicanalista e artista visual. Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano em São Paulo onde participa da transmissão e pesquisa a relação entre Psicanálise e Arte. Na Arte formou-se em ateliês como os de Sérgio Fingermann e do Museu Lasar Segall, onde se discute a dimensão da prática e da reflexão no fazer artístico. Trabalha atualmente em espaço próprio – o Ateliê 702 – e como monitora do ateliê de gravura do Museu Lasar Segall, além do consultório particular.
Fotos: Patrizia Corsetto
Exposição Pangeia – Minotipias de Glaucia Nagem – Galeria da Oficina Cultural Oswald de Andrade.
fonte : http://lacaneando.com.br/glaucia-nagem/

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Análise sobre reportagem do serial killer Michael Myers



Análise sobre reportagem sobre o serial killer Michael Myers da série de filmes Halloween que está na Revista Mundo Estranho: Guia curioso dos vilões do cinema e da tv. Editora Abril.

Para essa análise é necessário ter assistido "Halloween -  O Início" (2007).
Assisti há algum tempo, e não re-vi para escrever.

Erros:

-Origem.
Michael não assassinou só a irmã mais velha , mas também o namorado dela e o padrasto. O crime não chocou seus pais, chocou sua mãe, não se fala do pai de Michael. Quando Michael escapa ele não volta pra terminar o que começou e matar sua outra irmã. Mesmo porque no dia em que cometeu os primeiros assassinatos ela foi a única que estava em casa que ele poupou. E quando a reencontra ele mostra uma foto familiar que guardou. Ela assustada o agride (acho que dá um tiro nele) e então, a partir daí ele quer matá-la.

-Motivação.
Como assim não sabe porque Michael virou assassino? Ele se encaixa em todos requisitos de situações infantis, que assim como outros seriais killers também passaram. Michael foi maltratado pelo padrasto, pela irmã mais velha e pelo namorado dela, era xingado por eles e sofria drástico bullying na escola, também presenciou fortes cenas sexuais como da irmã com o namorado, incluindo o fato de que sua mãe era dançarina de casa noturna. Creio serem motivações que o levaram a isso, pois todos esses foram os que Michael assassinou, incluindo colega da escola que o maltratava. E essa frase errônea: "talvez seu plano fosse exterminar a família toda", na noite após os assassinatos ele leva a irmã caçula para fora e espera sua mãe, então não era esse o plano. Então, matar Laurie nem sempre foi seu foco principal.

Concluindo, Michael passou por coisas difíceis e se vingou daqueles que o maltratavam, inclusive uma enfermeira do manicômio que também o maltratou e quando Laurie o agride passa a querer matá-la. Não esquecendo de sua reclusão solitária em um manicômio onde passou 15 anos de sua vida e provavelmente pode ter enlouquecido. Na minha visão, Michael nasceu com uma pré-disposição e o ambiente reforçou. O que o tornou posteriormente em um serial killer.

Filme inteiro aqui: http://www.youtube.com/watch?v=EfW54V_2avQ

Por Andréia Miglioranza Marin

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sábado, 20 de agosto de 2011

Molière e o doente imaginário


O dramaturgo francês considerou a questão da verdade e da mentira, no teatro e na vida real, ao criar seu mais famoso personagem, hipocondríaco e narcisista
por Sebastien Dieguez
cena de o doente imaginário de molière, óleo sobre tela, charles robert leslie, 1622-1673, coleção particular
Argan suplica ao médico que o cure; ao lado dele, a criada Toinette, no quadrode Charles Robert Leslie (1794-1859)
Séculos passam e tanto alguns sintomas quanto o comportamento de certos pacientes não mudam ao longo do tempo. É o caso de Argan, protagonista da última peça de Molière, O doente imaginário, de 1673. O texto satiriza impiedosamente a medicina e faz uma análise psicológica da hipocondria. Como sugere o título, o personagem acredita estar doente – mas nada indica que realmente esteja. Ele é manipulado por seus onipresentes médicos e por sua segunda esposa, interessada na herança. Nesse contexto já propício à comédia, Argan tenta casar Angélica, uma de suas filhas, com um médico inepto, pensando no próprio benefício: “Sendo eu enfermo como sou, quero ter um genro e aliados médicos para contar com o apoio de bons socorros contra minha doença e ter na minha família a fonte dos medicamentos, consultas e receituários”. Para livrar a moça dessa situação, a criada Toinette e Beraldo, irmão de Argan, esforçam-se para fazer o pai da jovem reconhecer sua pseudodoença. Ao final, Argan passa a ser considerado médico. Médico imaginário, evidentemente.


Por que o personagem acredita estar enfermo? Ele tem consciência de seu comportamento estranho ou só finge estar debilitado? Talvez sofra de um transtorno mais profundo, que o induza ao erro sobre seu estado de saúde. Para entender a natureza da doença imaginária de Argan, é preciso voltarmos para a história da hipocondria. Se a definição do problema parece clara – uma preocupação excessiva com o próprio bem estar físico –, seus contornos permanecem misteriosos. Em 1834, o psiquiatra Éric Leuret escreveu que tanto os médicos quanto seus pacientes “contribuíam para tornar obscuro aquilo que eles se dedicavam a esclarecer”, e a classificação atual em termos de “perturbação somatoforme” só reforça essa observação.


ENTRE PSICOSE E NEUROSE

Para Hipócrates, a hipocondria estava vinculada a sintomas ambíguos da digestão, dores difusas dos órgãos internos e dificuldades respiratórias. A ligação com o conceito de melancolia também faz parte da história da hipocondria e é apresentada pela primeira vez em Anatomia da melancolia (1621), de Robert Burton. No século 17, desenvolveu-se igualmente a noção de que a hipocondria é uma perturbação do sistema nervoso associada à histeria, outra patologia que tanto intrigava médicos e só foi desvendada anos mais tarde, por Sigmund Freud. A hipocondria, porém, nunca deixou de oscilar entre perturbação das vísceras, disfunção cerebral, pura simulação, problemas emocionais, hipersensibilidade (ou, inversamente, perda das sensações), ansiedade, obsessão, narcisismo, depressão, degeneração hereditária. Chega-se quase à conclusão de que a principal característica da hipocondria é justamente ser inesgotável. Pacientes e médicos enfrentam o mesmo problema: é impossível encontrar o que está por trás da queixa.
Ilustração de viagens e aventuras do barão de münchhausen, litografia colorida, gottfried franz, c.1880, coleção particular
O barão fictício criado pelo escritoralemão Rudolf Erich Raspe (1736-1794) dizia ter vivido aventuras inacreditáveis; atualmente, o nome Münchhausen designa uma síndromepsiquiátrica. (1846-1905).
O historiador da psiquiatria George Berrios não hesita em incluir duas obras de ficção como momentos decisivos do pensamento médico, as quais deixaram uma marca na evolução do conceito de hipocondria. A primeira é uma das Novelas exemplares, de Cervantes, o Licenciado vidriero, (1613), que evoca uma forma de delírio particular no qual a pessoa acreditava ser feita de vidro – e tão frágil quanto esse material. A segunda é justamente O doente imaginário, de Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière. As obras parecem refletir a distinção entre a psicose, com delírios e alucinações, e a neurose, com perturbação da personalidade sem ruptura completa com a realidade e associada a conflitos emocionais.


Assim, a hipocondria pode assumir tanto uma forma delirante como uma manifestação ansiosa, mais benigna. Aparentemente, nos dois casos, em algum ponto entre o corpo e o cérebro instala-se um ruído de comunicação até agora mal identificado. Será o corpo que engana o cérebro, ou será o cérebro que fabrica alucinações corporais? A questão permanece aberta e a única certeza que se tem, até hoje, é que a hipocondria continua sendo um incômodo para os profissionais da saúde. Esses doentes são o desespero dos médicos: eles os induzem ao erro, ou os põem na defensiva. E em qualquer das hipóteses a relação de confiança necessária ao ato terapêutico fica comprometida.


O que se pode dizer em relação a Argan é que ele acredita ser doente, quando todos sabem que é saudável e que teme ser abandonado pelos médicos. A peça começa com uma cena na qual o protagonista calcula o que lhe custaram seus últimos tratamentos e faz a lista de seus inúmeros sintomas. Evidentemente, ele se compraz com o estatuto de doente e parece ter prazer com suas constantes queixas, nutridas de forma obsessiva. O recorrente elemento escatológico, no Doente imaginário – lavagens intestinais e a necessidade de Argan de evacuar continuamente –, prefigura o estágio anal do desenvolvimento psicossexual tão bem descrito pela psicanálise, caracterizado pelo prazer narcísico vinculado ao controle das funções corporais e ao gozo da repetição.


Não é por acaso que esse estágio foi associado à neurose obsessiva. Ele indica ainda a proximidade da hipocondria com o sentimento paranoico de ser infectado, envenenado e estar internamente sujo. O nome do médico, Purgon, evoca de modo nada sutil, mas eficaz, a natureza de sua verdadeira função. Além do efeito cômico – nunca fora de moda – ligado às funções corporais, a escatologia remete ao problema do hipocondríaco com o próprio corpo e sua fantasia de expulsar o mal que o habita, se purificar e se livrar das angústias. O fato de Argan não estar realmente doente (ao menos como imagina) aparece na dicotomia entre suas terríveis angústias e seu comportamento, que não deixa transparecer nenhum sintoma físico. Ele é objeto do sarcasmo de Toinette, sua criada, quando o lembra de pegar a bengala esquecida, já que, como inválido, ele deveria ser incapaz de se deslocar sem apoio. Argan é incapaz de responder à simples pergunta: “Que mal o aflige?”. Aliás, é ele próprio quem pede ao médico que o informe sobre o que está sentindo: “Eu suplico, senhor, que me diga um pouco como estou”.
Com boa saúde
divulgação
Ao simular não só a patologia, mas a própria morte, o protagonista descobre o que as pessoas pensam a seu respeito
A doença imaginária constitui um conjunto complexo, alimentado pela angústia existencial relativa ao envelhecimento, à morte e ao prazer proveniente de uma obsessão narcisista que contribui, voluntariamente ou não, para reforçar a doença. A síndrome de Münchhausen é uma comparação tentadora, mas ela não descreve de maneira exata o caso de Argan, pois o personagem não inflige a si mesmo nenhum sintoma. O paradoxo reside no fato de ser precisamente a ausência de sintomas que constitui a doença de Argan. Toinette, que com sua ironia encarna a voz da razão, é a única a ver com clareza: “Ele anda, dorme, come e bebe exatamente como todas as pessoas sãs, mas isso não o impede de estar extremamente doente”. Na verdade, Argan não está enfermo, mas sofre. “Sim, o senhor está muito mal, pior até do que pensa”, diz ela. Mas ele é incapaz de pensar sobre essa questão, uma vez que é precisamente do pensamento que ele está doente.


Segundo o pesquisador Patrick Dandrey, especialista em literatura do século 18 e em história da melancolia, ao utilizar uma categoria médica, a hipocondria, Molière a “esvazia” de seu conteúdo psicológico, passional e teórico. Ao fazer isso, ele só deixa o invólucro, a casca de uma patologia antiga, e a explora para inventar uma nova. Ironia do destino, mais tarde a medicina se apoderaria da invenção de Molière. Efetivamente, Dandrey conseguiu ter acesso ao primeiro documento médico a utilizar O doente imaginário como fonte de inspiração. Trata-se de uma descrição, de 1736, do médico Boissier de Sauvages, que sugere um novo tipo de loucura delirante, classificada como melancolia. Entre o delírio místico e a “loucura mansa”, ele introduziu a melancholia argantis, ou doença imaginária. Como escreve Dandrey, “100 anos depois de morto Molière foi reconhecido pelo pensamento médico mais autorizado por sua contribuição, com O doente imaginário, ao conhecimento dos delírios de natureza melancólica”.


Boissier de Sauvages descreve da seguinte forma a doença de Argan: “Os doentes imaginários, tão bem representados por Molière, são aqueles que, comportando-se extremamente bem, imaginam estar a ponto de morrer, devido a ligeiros incômodos por eles sentidos, o que os torna tristes, melancólicos, de mau humor para com os médicos, e os obriga a viver na solidão, que os impede de fazer outra coisa a não ser gemer e deplorar a própria infelicidade, de manhã até a noite; ou então eles obedecem a um regime de vida extravagante, que altera sua saúde e os expõe a uma infinidade de doenças mais perigosas do que as que tentam curar”.


No entanto, o doente imaginário gozava de boa saúde. Esses doentes de fato existem. O médico especifica: “Essa doença difere da hipocondria porque que aqueles por ela atingidos não sofrem de nenhum problema real, enquanto que os hipocondríacos estão sujeitos a sintomas enganosos”. Não se deve, portanto, confundir doença imaginária com hipocondria. Os que sofrem da primeira não sabem de que padecem, mas convivem com o sofrimento. Já o doente imaginário está “desesperadamente são e gozando de boa saúde”, segundo as palavras de P. Dandrey.
bianca aun/divulgação
O espetáculo Um Molière imaginário, encenado pelo Grupo Galpão em 1997, é uma adaptação do texto original de 1673
MEDO DA SOLIDÃO

Além do prazer narcísico de acreditar estar doente, um segundo sintoma aparece de forma clara: Argan procura desesperadamente a atenção de quem o cerca. Toda a peça gira em torno dele, que entra imediatamente em pânico ao ficar sozinho. Nesse ponto, seu caso lembra o da síndrome de Münchhausen, cujos pacientes simulam doenças ou tomam medicamentos a fim de provocar falsos sintomas e despertar a preocupação daqueles que cuidam dele.


Além disso, sua atitude parece obedecer a motivos inconscientes, que resistem às múltiplas tentativas de racionalização daqueles que querem seu bem. “Senhor, ponha a mão na consciência: o senhor está doente?”, pergunta-lhe Toinette, que não obtém outra resposta a não ser a cólera do patrão. Seu irmão Beraldo não consegue resultado melhor, apesar das súplicas – “Não dê asas à imaginação” – e de uma habilidosa argumentação: “Um grande indício de que você está bem e tem um corpo perfeitamente composto é que, com todos os tratamentos, ainda não conseguiu estragar sua saúde; nem mesmo com todos os remédios que já o fizeram tomar você morreu”.


Essas intervenções sugerem uma faceta fundamental do comportamento de Argan: ele não pode ser acusado de pura e simples encenação. Sua sinceridade e ingenuidade se revelam quando ele acredita piamente que Louison, sua filha mais nova, está morta, quando é mais que evidente que ela está só fingindo. A presença de uma criança na peça, coisa completamente singular na obra de Molière, fornece uma pista para ajudar a compreender o comportamento de Argan. Sua credulidade diante da brincadeira da menina mostra que é ele a criança da peça. Sua imaturidade, dependência, obsessão pelos médicos e a facilidade com a qual é manipulado indicam obscurecimento das capacidades cognitivas, algo que não se espera de um adulto. “Doutor Purgon me disse que passeasse pelo quarto toda manhã, 12 idas e 12 vindas; mas eu me esqueci de perguntar se é no comprimento ou na largura do aposento”, indaga-se ele, com a maior seriedade do mundo. Esse comportamento revela uma profunda angústia de ser abandonado, fantasia arcaica da criança de tenra idade. O que pode ser mais patético do que ouvir um velhote dizendo: “Doutor Purgon diz que eu sucumbiria se ele deixasse de cuidar de mim por meros três dias”? Expressa-se aí o medo de envelhecer e morrer sozinho.


Essas poucas observações levam à conclusão de que a doença imaginária – se for disso realmente que Argan é vítima – não existe como entidade clínica isolada. O comportamento dos médicos e da família é ao mesmo tempo causa e consequência dela. A seu modo, cada personagem da peça alimenta a patologia e é vítima dela. Os médicos, evidentemente, se aproveitam de sua ingenuidade e o confortam em suas angústias, mas seu ganho se baseia nos olhares que recebe. Beline, a esposa que só quer o dinheiro do marido, tenta confortá-lo em seus caprichos. Ela o embrulha, literalmente, cercando-o de travesseiros e afundando a touca em sua cabeça.
o hipocondríaco, litografia, willian sharp, c.1930, biblioteca nacional de medicina, bethesda
O primeiro hipocondríaco da literatura, criado por Miguel de Cervantes no século XVII, acredita ser frágil e só sobreviver graças aosmedicamentos
Quando os raciocínios impecáveis de Beraldo e as lavagens de Purgon fracassam, destaca-se o humor rascante da criada Toinette, travestida de médico e diagnosticando obstinadamente uma doença de pulmão (da qual o próprio Molière sofria), que realmente atinge o personagem. Ela engana o patrão pelo bem dele mesmo e o encoraja a descobrir a verdade sobre os sentimentos dos que o cercam, fazendo uso de um subterfúgio: o doente imaginário se passará por morto. Esse procedimento revelará o cinismo e as manipulações de sua mulher, mas também o amor sincero que a filha sente por ele. A cura dessa doença tão particular não passa, portanto, nem pela razão nem pelas entranhas, mas pelo imaginário, que na verdade é o único problema de Argan. E é a comédia, e só ela, na qual a fantasia entra em cena, que pode restabelecer essa verdade.


De certa forma, o doente imaginário é o triunfo da imaginação sobre o cotidiano, a derrota da hipocrisia e do erro pela criatividade. Nessa obra, Molière aborda ainda o desenvolvimento da ciência moderna e o reconhecimento da importância do efeito placebo. O imaginário dos pacientes, ao longo da história, tem tido muitas vezes mais poder do que os dogmas dos médicos. Não só a última obra do autor trata da emergência de uma medicina baseada em comprovações – e não na autoridade ou na tradição – como põe em destaque os fatores relacionais no desenvolvimento dos sintomas subjetivos e nos aspectos psicossomáticos, desconhecidos pelos médicos daquela época.


PODER DA COMÉDIA

Sabe-se hoje em dia, por exemplo, que sintomas como a dor ou a rigidez apresentada por pacientes com Parkinson podem piorar simplesmente se as expectativas do paciente forem negativas, ou se eles tomarem uma substância inerte pensando que vai agravar seu estado. Um estudo recente mostra que mentir sobre seu estado de saúde, dizendo ser ele pior do que realmente é pode levar algumas pessoas a acreditar que estão doentes. Assim, fazer com que uma doença se instale efetivamente é um passo fácil de ser dado, em razão das defesas imunitárias e do passado médico de cada um.


Molière morreu pouco após ter desempenhado o papel de Argan. Teria ele concebido sua última peça com um objetivo terapêutico, da mesma forma que o personagem “se torna” médico para se livrar de suas angústias? É possível cogitar que ele quisesse explorar os limites da própria finitude. Ou seria uma última gargalhada na cara do destino para zombar da doença que o espreitava? Não se sabe ao certo, mas o ator La Grange, contemporâneo do dramaturgo, escreveu em suas memórias, a respeito da última representação de Molière: “Ele teve dificuldade para desempenhar o papel e o público soube facilmente que seu estado não era em nada diferente daquele do personagem que ele se esforçava para interpretar”.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Arte, sintomas e psicanálise

in Mente e Cérebro 07 de julho de 2011
Mostra reúne em São Paulo anotações e uma centena de obras inquietantes da artista plástica Louise Bourgeois

Maman, 1999, escultura inspirada na figura materna

Restos de um corpo adulto devorado jazem sobre uma superfície que é, ao mesmo tempo, cama e mesa de jantar. Na instalação A destruição do pai, de 1974, a artista plástica franco-americana Louise Bourgeois recorre à ambiguidade que remete ao domínio da figura paterna e aos apetites – do estômago e do sexo. “Um dia as crianças se irritaram com a onipotência, avançaram sobre ele, esquartejaram-no e o comeram; assim foi liquidado, da mesma forma que vinha liquidando seus filhos”, escreveu a artista em suas anotações. Mais de 100 obras suas – esculturas, instalações e desenhos – estão expostas na mostra Louise Bourgeois – O retorno do desejo proibido, em cartaz em São Paulo.

No site não havia informações sobre o local e as datas, então lá vai:
Louise Bourgeois: O Retorno do Desejo Proibido
De 08 de julho a 28 de agosto, terça a domingo das 11h às 20h
Entrada franca
Instituto Tomie Ohtake
Av. Faria Lima, 201 – Pinheiros
Fone.: (11) 2245 - 1900 begin_of_the_skype_highlighting            (11) 2245 - 1900      end_of_the_skype_highlighting
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