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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Carta de Freud para a mãe de um homossexual

Carta de Freud para a mãe de um homossexual

Certa vez, a mãe de um jovem homossexual escreveu uma carta a Freud com a intenção de que seu filho fosse “curado” pelo psicanalista. Eis a resposta que – apesar de ter mais de 80 anos – parece ainda igualmente válida para os nossos dias:
19 de abril de 1935
“Minha querida Senhora,
Lendo a sua carta, deduzo que seu filho é homossexual. Chamou fortemente a minha atenção o fato de a senhora não mencionar este termo na informação que acerca dele me enviou. Poderia lhe perguntar por que razão? Não tenho dúvidas que a homossexualidade não representa uma vantagem, no entanto, também não existem motivos para se envergonhar dela, já que isso não supõe vício nem degradação alguma.
Não pode ser qualificada como uma doença e nós a consideramos como uma variante da função sexual, produto de certa interrupção no desenvolvimento sexual. Muitos homens de grande respeito da Antiguidade e Atualidade foram homossexuais, e dentre eles, alguns dos personagens de maior destaque na história como Platão, Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci, etc. É uma grande injustiça e também uma crueldade, perseguir a homossexualidade como se esta fosse um delito. Caso não acredite na minha palavra, sugiro-lhe a leitura dos livros de Havelock Ellis.
Ao me perguntar se eu posso lhe oferecer a minha ajuda, imagino que isso seja uma tentativa de indagar acerca da minha posição em relação à abolição da homossexualidade, visando substituí-la por uma heterossexualidade normal. A minha resposta é que, em termos gerais, nada parecido podemos prometer. Em certos casos conseguimos desenvolver rudimentos das tendências heterossexuais presentes em todo homossexual, embora na maioria dos casos não seja possível. A questão fundamenta-se principalmente, na qualidade e idade do sujeito, sem possibilidade de determinar o resultado do tratamento.
A análise pode fazer outra coisa pelo seu filho. Se ele estiver experimentando descontentamento por causa de milhares de conflitos e inibição em relação à sua vida social a análise poderá lhe proporcionar tranqüilidade, paz psíquica e plena eficiência, independentemente de continuar sendo homossexual ou de mudar sua condição.”
Sigmund Freud
A_Letter_from_Freud_to_a_mother_of_a_homosexual_-_1935_-_1

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Depressão: um enfrentamento insuportável com a verdade - Maria Rita Kehl


A depressão é uma forma muito particular e avassaladora daquilo que corriqueiramente chamamos a dor de viver. Juntamente com a angústia e a dor propriamente dita, é uma constelação de afetos tão familiar que, como escreve Daniel Delouia, dificilmente conseguimos classificá-la entre os quadros clínicos da psicopatologia. À dor do tempo que corre arrastando consigo tudo o que o homem constrói, ao desamparo diante da voragem da vida que conduz à morte – que para o homem moderno representa o fim de tudo – a depressão contrapõe um outro tempo, já morto: um “tempo que não passa”, na expressão de J. Pontalis.
O psiquismo, acontecimento que acompanha toda a vida humana sem se localizar em nenhum lugar do corpo vivo, é o que se ergue contra um fundo vazio que poderíamos chamar, metaforicamente, de um núcleo de depressão. O núcleo de nada onde o sujeito tenta instalar, fantasmaticamente, o objeto perdido – objeto que, paradoxalmente, nunca existiu.
A rigor, a vida não faz sentido e nossa passagem por aqui não tem nenhuma importância. A rigor, o eu que nos sustenta é uma construção fictícia, depende da memória e também do olhar do outro para se reconhecer como uma unidade estável ao longo do tempo. A rigor, ninguém se importa tanto com nossas eventuais desgraças a ponto de conseguir nos salvar delas. Contra este pano de fundo de nonsense, solidão e desamparo, o psiquismo se constitui em um trabalho permanente de estabelecimento de laços – “destinos pulsionais”, como se diz em psicanálise – que sustentam o sujeito perante o outro e diante de si mesmo.
Freudianamente falando, a subjetividade é um canteiro de ilusões. Amamos: a vida, os outros, e sobretudo a nós mesmos. Estamos condenados a amar, pois com esta multiplicidade de laços libidinais tecemos uma rede de sentido para a existência. As diversas modalidades de ilusões amorosas, edipianas ou não, são responsáveis pela confiança imaginária que depositamos no destino, na importância que temos para os outros, no significado de nossos atos corriqueiros. Não precisamos pensar nisso o tempo todo; é preciso estar inconsciente de uma ilusão para que ela nos sustente.
A depressão é o rompimento desta rede de sentido e amparo: momento em que o psiquismo falha em sua atividade ilusionista e deixa entrever o vazio que nos cerca, ou o vazio que o trabalho psíquico tenta cercar. É o momento de um enfrentamento insuportável com a verdade. Algumas pessoas conseguem evitá-lo a vida toda. Outras passam por ele em circunstâncias traumáticas e saem do outro lado. Mas há os que não conhecem outro modo de existir; são órfãos da proteção imaginária do “amor”, trapezistas que oscilam no ar sem nenhuma rede protetora embaixo deles. “A depressão é uma imperfeição do amor”, escreve Andrew Solomon, autor de “O demônio do meio-dia”, vasto tratado sobre a depressão publicado nos Estados Unidos e traduzido no Brasil no final de 2002. Faz sentido, se considerarmos o sentido mais amplo da palavra amor.
Durante cinco anos, Solomon dedicou-se a pesquisar a depressão: causas e efeitos, tratamentos, hipóteses bioquímicas, estatísticas. Recolheu histórias de vida de dezenas de pessoas que passaram por crises depressivas – “nunca escrevi sobre um assunto a respeito do qual tantos tivessem tanto a dizer”. A estas, acrescentou sua própria história – o trabalho no livro foi uma forma de reação ao longo período em que ele próprio passou por sérias crises depressivas. Um período em que, nas palavras do autor, “cada segundo de vida me feria”.
A julgar pelos números recolhidos por Solomon em relatórios da divisão de saúde mental da Organização Mundial de Saúde – o DSM-IV – esta ferida acomete a um número cada vez maior de pessoas no mundo, e particularmente nos Estados Unidos. 3% da população norte americana sofre de depressão crônica – cerca de 19 milhões de pessoas, das quais 2 milhões são crianças. A depressão é a principal causa de incapacitação em pessoas acima de cinco anos de idade. 15% das pessoas deprimidas cometerão suicídio. Os suicídios entre jovens e crianças de 10 a 14 anos aumentaram 120% entre 1980 e 1990. No ano de 1995, mais jovens norte-americanos morreram por suicídio do que de da soma de câncer, Aids, pneumonia, derrame, doenças congênitas e doenças cardíacas.
Esta forma de mal estar tende a aumentar, na proporção direta da oferta de tratamentos medicamentosos: há vinte anos, 1,5% da população dos Estados Unidos sofria de depressões que exigiam tratamento. Hoje este número subiu para 5%. Sincero adepto dos tratamentos farmacológicos, que segundo ele salvaram sua vida, Andrew Solomon acaba por se perguntar se a doença cresce com o desenvolvimento da medicina ou se a indústria farmacêutica produz as doenças para os remédios que desenvolve, do mesmo modo que outros ramos industriais criam mercados para seus produtos.
Insight sem inconsciente?
A contribuição das terapias medicamentosas no tratamento das doenças mentais é inegável, e o analista, assim como outros “terapeutas da fala” no dizer de Solomon, não pode dispensá-la. “O Prozac não deveria tornar o insight dispensável,”, diz Robert Klitzman, da Universidade de Colúmbia, citado pelo autor. “Deveria torná-lo possível”.
Mas qual o insight possível, capaz de produzir efeitos sobre a subjetividade, em uma cultura onde as práticas de linguagem se impõem fortemente de modo a apagar o sujeito do inconsciente? As histórias de pacientes depressivos enumeradas por Andrew Solomon centram-se ao redor da perspectiva única do vitimismo. As pessoas se deprimem porque não suportam o que foi feito a elas. Acidentes, perdas traumáticas, abandonos, violência, abuso sexual na infância; é de fora para dentro que a vida psíquica se impõe àqueles que sofrem de mal estar.
É óbvio que a rede de proteção do psiquismo pode ser rompida pelas irrupções traumáticas do real; mas as “desgraças da vida” recaem sempre sobre um sujeito, incidem sobre uma posição desejante e são rearticuladas pelas formações do inconsciente, que são formações da linguagem. Do ponto de vista do vitimismo, a cura da depressão consiste na eliminação de todo traço de “má notícia” que advenha do inconsciente. A psiquiatria e a indústria farmacêutica aliam-se a este ponto de vista. “Assistimos a um conluio curioso entre a descrição psiquiátrica e a própria queixa do deprimido”, escreve Delouia. “A ignorância a respeito do psíquico “une o fenômeno depressivo com a parafernália nosográfica da psiquiatria”.
O autor não deixa de ser crítico em relação a esta perspectiva. “Nós patologizamos o curável. Quando existir uma droga contra a violência, ela será encarada como uma doença”. Também é crítico em relação ao ideal de remoção química de toda a dor de existir. No entanto, a ingenuidade a respeito da realidade psíquica prevalece até mesmo em relação à sua própria crise depressiva. Filho de uma mulher ativa e absorvente, que mais tarde ele próprio pode perceber como depressiva, Andrew Solomon participou, junto com o pai e o irmão, do suicídio assistido da mãe, vítima de câncer no ovário aos 58 anos. Depois dessa morte, dramática e intensamente estetizada, a fantasia de suicídio ocorre aos outros membros da família. No ano seguinte, Solomon inicia uma análise com uma mulher que lhe lembra a mãe, e propõe a ela um pacto incondicional: não abandonarão o tratamento até o “fim”, sob nenhuma condição. Mas alguns anos depois,a analista anuncia ao dedicado analisando que vai deixar o trabalho. Aposentadoria por tempo de serviço…
No tempo de análise que lhe resta, Andrew Solomon não entende por que vai entrando em depressão cada vez mais grave, até que a própria analista concorda em que ele busque auxílio psiquiátrico. A análise “termina” pouco depois, e ele atravessa um ciclo de depressões gravíssimas. A inabilidade da analista de Solomon quanto ao manejo da transferência diante de um quadro de luto melancólico salta aos olhos do leitor familiarizado com a psicanálise. Não é sem razão que ele escreve, anos mais tarde, que a psicanálise seja “hábil para explicar, mas não eficiente para mudar” os quadros depressivos.
A julgar pelo relato de Solomon, seu tratamento psicanalítico foi baseado na reconstituição da vida infantil, em busca de um causalidade psíquica que, de fato, pode ter valor explicativo mas não produz nenhuma intervenção sobre o psiquismo vivo e ativo no sujeito adulto. Pierre Fédida, em seu livro sobre a depressão, adverte sobre os riscos de se buscar a evocação de um “acontecimento real que se supõe empiricamente traumático: a vivência infantil – essencialmente inatual na fala associativa – recebe assim uma positividade patogênica, na forma de uma atualidade passada”. O “infantil” que interessa à psicanálise não é o do passado, rememorado pelo eu, mas o que se manifesta ao vivo na transferência, nas demandas dirigidas ao analista. Como a analista de Solomon não se deu conta da relação entre a proposta de uma análise incondicional feita por ele, o amor pela mãe e o pacto de morte que o uniu a ela? Como não se deu conta da relação entre a crise depressiva de seu analisante e o anúncio burocrático de sua “aposentadoria”?
O livro de Solomon não oferece nenhuma contribuição decisiva para o conhecimento da depressão, mas lança uma luz importante sobre as relações entre a emergência epidêmica dessa forma de mal estar e os modos de subjetivação predominantes na cultura norte-americana. Em uma sociedade onde as formações discursivas apagam o sujeito do inconsciente, em que a felicidade e o sucesso são imperativos superegóicos, a depressão emerge – como a histeria na sociedade vitoriana – como sintoma do mal estar produzido e oculto pelos laços sociais. O vazio depressivo, que em muitas circunstâncias pode ser compensado pelo trabalho psíquico, é agravado em função do empobrecimento da subjetividade, característico das sociedades consumistas e altamente competitivas. A “vida sem sentido” de que se queixam os depressivos só pode ser compensada pela riqueza do trabalho subjetivo, ao preço de que o sujeito suporte, amparado simbolicamente pelo analista, seu mal estar. A eliminação farmacológica de todas as formas de mal estar produz também, paradoxalmente, o apagamento dos recursos de que dispomos para dar sentido à vida.

Artigo de Maria Rita Kelh



segunda-feira, 7 de setembro de 2015

MAIS LOUCOS E PERVERSOS DO QUE NOS IMAGINAMOS


POR: CLARIANA ZANUTTO  /  28/02/2014
FOTOS RODRIGO BRAGA/3FILMGROUP
Foi com seu mestre, o psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981), que Contardo Calligaris aprendeu que 
o transtorno mais grave que uma pessoa pode ter é ser, digamos, “normal”. Consequentemente, aprendeu também o pupilo que, para ser saudável, o ser humano necessita ter, ao menos, uma neurosezinha aqui e outra ali. Assuntos como esses fascinam tanto Contardo que, aos 65 anos, o psicanalista italiano, nascido em Milão, mas radicado no Brasil desde os anos 1980, assume continuamente o seu maior gosto: trabalhar. Não é fora do comum, portanto, encontrá-lo em seu consultório durante 12 horas diárias e saber que, no tempo restante, além de poucas horas dedicadas ao sono, ele ainda faz exercícios, lê três livros por semana, produz uma coluna semanal para a Folha de S.Paulo e ainda preserva suas idas a cinema, teatro e restaurante. Quer mais? De um ano para cá, ele vem se dividindo entre os roteiros e as gravações da série Psi, que estreia dia 23 deste mês no canal HBO Brasil – e simultaneamente em mais 22 países da América Latina –, e é baseada em seus livros O conto do amor e A mulher de vermelho e branco. Em foco estão as aventuras de Carlo Antonini (vivido por Emílio de Mello), psicólogo, psiquiatra e psicanalista que tem a vida fora do consultório destrinchada junto com a história de outras personagens que exemplificam diferentes perfis psicológicos.

Membro da Escola Freudiana de Paris há quase quatro décadas, Contardo Calligaris não se importa em chocar seus colegas freudianos e lacanianos ao revelar que gostaria de fazer um ano de pscioterapia junguiana, assim como também não tem problema algum em encarar a sociedade ao expressar que a infância é uma idade totalmente idealizada e que as crianças são seres extremamente cruéis. Completa a descrição dizer que ele é encrenqueiro, intervencionista, gosta de se meter em brigas – claro que não como há 30 anos – e de resolver problemas sobre os quais não foi pedida sua opinião. Enfim, o psicanalista está bem longe de ser a pessoa normal que tanto abomina. Sorte a nossa! Afinal, Lacan não estava errado em dizer que a vida é realmente mais interessante quando há uma neurosezinha aqui e outra acolá.

Por muito tempo você teve oportunidades, mas optou por não adaptar os livros 
O conto do amor e A mulher de vermelho e branco para o cinema ou TV. O que, dessa vez, fez com que você mudasse de ideia? 
É uma pergunta interessante. Primeiro, porque, claro, é uma mudança de ofício, mas, enquanto romancista, eu sou um contador de histórias. Não sou fascinado por nenhum experimentalismo. Então, um seriado é uma maneira de contar uma boa história e, sobretudo, construída ao redor de personagens que têm de ser sólidos, porque eles têm de durar de alguma forma, pelo menos o personagem principal. Isso, no fundo, não é muito afastado do trabalho do narrador e do romancista. Tem uma grande diferença que é de ser um trabalho coletivo; então, é preciso, realmente, se acostumar a isso, porque o romancista é Deus e todo mundo. Não tem problema, mas o escritor de cinema, sobretudo do Brasil, é inserido em um processo muito mais complexo. Agora, ainda por cima do ponto de vista da televisão brasileira, foi uma coisa relativamente nova. Aliás, na verdade, absolutamente nova como tipo de seriado brasileiro. Acho que nunca foi feito algo parecido. Não tem! Então, nasceu essa ideia, e procurei alguém que escrevesse comigo, porque é uma tarefa hercúlea. O roteiro de uma série de 13 episódios tem 800 páginas, não menos do que isso, em várias versões e andando em companhia. Mas, rapidamente, me encontrei com Thiago Dottori, que é o roteirista com quem, aliás, eu continuo trabalhando a segunda temporada.

O que as pessoas que já conhecem o personagem Carlo Antonini vão encontrar de diferente em Psi? 
Várias coisas. Primeiro, os amores e os amigos são completamente diferentes, porque ele não mora mais em Nova York, voltou para São Paulo. Mas, no fundo, espero que eles encontrem certa permanência que é ele: essa figura um pouco bizarra, um cara que é psiquiatra, psicólogo, psicanalista – geralmente existem casos famosos, mas são poucos. Na maioria das vezes, alguém é ou psiquiatra e psicanalista, ou psicólogo e psicanalista, mas as três coisas são mais raras juntas. E um cara que tem um espírito, pelo menos aventureiro, tanto na sua prática quanto com poucas obediências de qualquer tipo, inclusive, de alguma forma, morais. Não por isso ele seria um devasso – não é nada disso, ao contrário. Mas digo “morais” no sentido em que acha que as escolhas morais são questões próprias, singulares de cada um. E um fascínio com essa profissão. Fascínio no bom sentido, não no sentido de ficar boquiaberto – é um pouco burro –, mas um interesse muito grande pela diferença extrema que, na verdade, é sempre muito menos extrema do que parece. É muito mais próxima, muito mais parecida com a gente. E essa relação com a diversidade da vida acontece na clínica, mas acontece também na sua vida cotidiana, na sua vida amorosa, por exemplo. É um cara que se aventura, faz escolhas amorosas que podem parecer um pouco bizarras.

E você também acompanhou as gravações? 
Totalmente. Mas, em certos momentos, foi complicado... Na segunda temporada, acho que vou ter que levar isso mais a sério porque, fisicamente, a massa de trabalho foi superior, muito superior, ao que eu vagamente imaginava, como número de horas. As noturnas acabam às 4h30, 5h da manhã. Mas, tudo bem, digamos que, às 2h, eu desistisse, mas às 7h30 estava no consultório.

Não podia abandonar nem o consultório e nem as gravações... 
Claro, mas, na segunda temporada, certamente vou, durante a produção propriamente dita, suspender os atendimentos. Não tenha dúvida! Porque, se não, caso eu não suspenda, não tem como. Tem isso. E tem antes e tem depois. Porque você não para de escrever ao longo, sempre tem o “vamos mudar essa cena, vamos fazer aquilo, se muda aquilo tem que mudar o outro e companhia”. Participei muito ativamente de todo o processo de edição. E aí você realmente aprende! E olha que tenho um passado ligado ao cinema, digo, eu fui tudo, até figurante. Fui figurante muito cedo, de Barbarella [filme dirigido por Roger Vadim, em 1968] e de alguns outros horrores cujo título nem me lembro. Já fui gladiador romano, já fui várias coisas quando morava em Roma.

Essa curiosidade do Carlo por situações diferentes, de sair atrás de um problema e tentar resolvê-lo, também existe em você? Sim. Ou, então, quando não tem um problema, criá-lo (risos). Que também é outra maneira de ter que sair atrás de um problema. Sim, sou intervencionista, sou encrenqueiro, sou do tipo que, se tem uma briga, me meto. Sou briguento. Paguei a metade da minha faculdade com uma bolsa pelo boxe. Fui campeão suíço universitário. Só para dizer que sou encrenqueiro.

Nada como uma boa confusão então... 
Gosto de uma pequena confusão, sim. Muito menos agora do que há uns 25, 30 ou 40 anos. Mas ainda entro em alguma confusão. Compro briga, sim. Peito!

E você, assim como ele, também tem repulsa pelo que é normal? 
Também. Aprendi isso com o meu mestre, [Jacques] Lacan. Eu segui, durante muitos anos, as apresentações de pacientes que ele fazia a cada sexta-feira, ao meio-dia, no [Centre Hospitalier] Sainte-Anne, em Paris. Uma apresentação de paciente, você sabe o que é? Um paciente que foi internado, o residente que se ocupa desse paciente tem questões, então, ele é apresentado. Lacan apresentava-o para um público limitado, de pessoas convidadas, autorizadas, digamos que eram umas 70 pessoas, mais ou menos. Fiz isso no Hospital Raul Soares, na Clínica Pinel, em Porto Alegre, em Rosário. Existe cada vez menos, e é uma pena, porque é um instrumento pedagógico incrível. E também porque não existem mais hospitais psiquiátricos no sentido tradicional. Cada vez menos existem. Então, uma vez, Lacan disse sobre um paciente: “Qual é o problema dele?”. O residente falou: “Não consigo diagnosticá-lo”. E Lacan disse: “Ele é absolutamente normal”. Todo mundo deu uma risadinha, e Lacan acrescentou, o que deixou uma espécie de frio entre nós: “De todos os diagnósticos, a normalidade é o diagnóstico mais grave, porque ela é sem esperança”.



Então, a “normalidade” é um transtorno como outro qualquer...

Certamente. Não... Na verdade, é mais grave.

E o que é ser “normal”?
Pois é... Será que as pessoas querem ser normais? Normais ou não julgadas? Eu acho que o neurótico médio – que somos todos nós – sonha, idealiza o louco. Ele acha que o louco é “o cara”. E sonha em ser perverso. Ou seja, em ser alguém que realmente não teria todos os impedimentos que a neurose nos coloca, ou seja, os registros de culpa, as inibições. O que é uma pessoa normal? Uma pessoa realmente normal é uma que tem um registro de experiência miserável, extremamente pobre. Pode ser que seja relativamente pouco sofrido, mas é também dramaticamente desinteressante. Às vezes, quem pode ser normal são pessoas que têm ou tiveram uma insuficiência cultural-afetiva muito grande. Então, não conseguem... Não é elaborar a experiência no sentido de falar as suas experiências, mas sabe aquela coisa que você atravessa a vida, vê as coisas e isso não lhe evoca nada? Tudo acontece como está acontecendo e isso não me evoca nenhuma lembrança. Normal é quem não tem nada disso. É quem tem uma experiência miserável, no sentido de pobre. Um registro de experiência extremamente pobre.

Não tem interesse também? 
É a mesma coisa. Interesse muito limitado. Por exemplo, o sexo parece ser fisiológico. Ausência de fantasias sexuais. O sexo é: “23h30 a gente apaga a luz, está na cama, transa”. Está previsto.

E essa normalidade é atribuída ao quê?
De certo ponto de vista, aquilo pode ser considerado um tipo de saúde mental. Porque você, sem dúvida, tem um nível de tormento individual, de angústia, muito menor do que o neurótico médio. Mas, geralmente, aquele tipo de normalidade é construída de maneira extremamente sólida e eficiente em cima de um vulcão adormecido. 

Pensando dessa maneira, uma neurose é sempre interessante. 
Somos todos neuróticos, em tese. Graças a Deus, realmente normais são muito poucos. Somos todos neuróticos. Mais loucos do que nos imaginamos – loucos, digo psicóticos –, e em certo número, somos todos, enquanto neuróticos, capazes de ser perversos de vez em quando. O problema mais interessante não é o de viver tranquilo, é o de ter uma vida interessante. Isso que é importante. Inclusive, a que uma psicanálise se propõe? Se propõe a tornar a vida de alguém mais interessante. Não garanto que os meus pacientes venham, sei lá, a sofrer menos ou a ter uma vida mais tranquila. Aliás, o que eu espero é que tenham uma vida mais interessante.

Existe algo como uma cura ou alta, do ponto de vista da psicanálise, para os pacientes?
Existe, mas é uma transformação. Porque na medicina, em tese, curar significa trazer você ou levar você a uma espécie de volta à situação anterior. Quer dizer, você está com gripe, você quer ficar como antes da gripe. No campo “psi”, isso não existe. Você tem uma depressão, você não vai poder voltar ao que era antes da depressão. Pode se tornar outra coisa, que não é nem a depressão que você tem agora, nem o que você era antes. O processo é transformador. Então, “curar” é sempre um pouco problemático. E, além do mais, a apreciação é subjetiva, porque, afinal, é o paciente quem vai dizer que está melhor ou que está suficientemente bem para poder, por exemplo, parar um tratamento. A apreciação é dele. Posso verificar que você não tem mais febre, que você não tem mais um tumor. Tudo bem: não tem mais, não está lá. É muito diferente.
Quem faz análise geralmente fala que todo mundo tem que fazer. E quem não faz, fala que não é assim. Como é, na verdade? 
Acho que não é verdade que todo mundo tem que fazer. Acho que é um equilíbrio complicado, uma alquimia complexa. Não sei nem se a gente pode dizer que todo mundo pode fazer. “Poder”, do ponto de vista de ter, sei lá, isso a grande maioria pode, tem a possibilidade de fazer uma análise, mas é preciso uma predisposição subjetiva. É um equilíbrio curioso, porque é tempo, é uma complexidade na vida. Não é necessariamente penoso. Pode ser extremamente interessante; e deveria ser. Teve uma época em que estava na moda pensar que uma análise deveria ser necessariamente um processo penoso e angustiante. Que, aliás, se você não se angustiasse, isso demonstraria que você não estava tocando nas questões importantes. Pode ser um processo divertido – divertido, além de interessante, no sentido de que um paciente e um analista podem tranquilamente rir em uma série de circunstâncias. E não é raro que seja um processo em que o cara espera o dia da sua sessão ansiosamente.

Você faz análise?
Neste momento, não. Minha última análise foi nos Estados Unidos. Faz bastante tempo que não me reanaliso. Deveria acontecer daqui a pouco, aliás.

Como funciona com você?São situações assim, na verdade, na minha idade – não sei se tem muito a ver com idade, mas, enfim – 
houve pessoas com as quais eu fiquei a fim de fazer uma fatia de análise. Porque eu queria ver, queria ouvir uma coisa diferente do que já tinha ouvido. Pessoas que justamente não eram da minha formação. Hoje, provavelmente – coisa que vai chocar a maioria dos meus colegas –, acho que eu faria um ano de psicoterapia junguiana, me interessaria.
Eles ficariam chocados de que forma?
Ah, porque a maioria dos meus colegas freudianos – lacanianos nem se fala – não iria entender; é como se eu dissesse que vou me confessar com alguém de outra denominação. Tipo: “Vou parar de ir à missa. Agora vou à mesquita no domingo”. Ou, então, começo a frequentar a sinagoga no sábado. Em regra, é bem assim.

Você acredita ser mais flexível do que eles?
Não, não. Não é que acredito, eu sei que sou muito mais flexível. Mas eles não chamam isso de flexível, porque parece uma coisa positiva. Acho que eles consideram que tem uma dívida específica com a disciplina. Acho que eu tenho uma dívida com a psicanálise. Com o desejo, sem dúvida, de Freud muito mais do que com a doutrina de Freud. Me interessa tudo o que saiu do desejo de Freud, inclusive Jung, por exemplo. E mesmo coisas que não saíram do desejo de Freud, porque tem um monte de psicoterapeutas. Fiz psicoterapias rogerianas (método de Carl Ransom Rogers, 1902-1987) e companhia, que não são propriamente pós-freudianas, e achei superinteressante.


Uma, das muitas questões discutidas na série, é que ninguém gosta de ser mudado... 
Isso. A gente passa a vida inteira circundado por pessoas que têm o projeto de nos moldar. Na hora, pode até parecer normal, mas é um saco, né?!  E isso continua. Mas na infância e na adolescência é muito mais, inclusive depois, até no trabalho. Você se lembra daquele filme bonito, Mestre dos mares? É uma história de Russell Crowe, que é comandante, e tem esses dois meninos de 13 ou 14 anos que, na verdade, são oficiais a bordo do navio. É um deles que comanda as baterias de bombardeio do navio. Eles são oficiais da Marinha! Um deles perde um braço e fica lá sem braço. Sobrevive. O espectador médio hoje vê aquilo e não entende. Não processa como sendo normal. Você entrava na escola militar de guerra aos 12, 13 anos, fazia os seus cursos, passava, saía. Valeu. Um aprendiz saía de casa aos 7 anos, na França da Idade Média. Se eu era marceneiro, o meu filho se destinava à marcenaria – naquela época, o que se previa era a reprodução; então, aos 7 anos, o meu filho ia aprender a ser marceneiro. Mas não podia aprender comigo, porque eram inteligentes, eles entendiam que não era com os pais que se aprende. Então, eu tinha que mandá-lo para outro marceneiro dentro da confraria, mas não era na mesma cidade. Era 600 km, 700 km... Eu ia rever meu filho dez anos depois, formado. E ninguém morria. Você vai dizer isso para uma mãe hoje?
Você diz em relação à superproteção extrema, não? 
Nós somos totalmente infantólatras e a infantolatria é um dos grandes traços da contemporaneidade. E dizer que as crianças são capazes de grandes crueldades, isso é uma coisa que hoje é quase um escândalo. A criança pode ser extremamente agressiva. Não tenho uma simpatia, a priori, por crianças. Acho que crianças são seres cruéis, extremamente cruéis, capazes das maiores maldades. Freud dizer em 1905 que as crianças tinham uma sexualidade era um negócio! Como? As pessoas não viam as criancinhas se masturbando em casa?

A grande maioria não quer enxergar isso... 
Não quer, absolutamente. A infância continua sendo uma idade totalmente idealizada. Aliás,  continuamos, cada vez mais, tentando criar uma idade durante a qual as crianças, esses seres, não vão ter preocupações de nenhum tipo. Bom, claro que isso funciona como pode, mas a nossa idealização da criança é muito grande, muito forte.

E quem resolve não seguir por esse caminho recebe muitas críticas... 
Sim, claro. Imediatamente. Mas a gente não pode se queixar tanto assim, no fundo, porque, sobretudo a partir dos anos 1970, progressivamente, a sociedade ocidental criou uma espécie de ideologia positiva da diferença. Tanto que a diferença parece ser ou é apresentada como um valor em si. Por exemplo: é bom que o ambiente de trabalho seja repleto de diferenças étnicas e o caramba, pessoas de todos os tipos, porque essa inclusão vai – e agora tem toda uma justificação positiva – ter um efeito positivo na decision making. Porque, claro, vão participar pessoas que pensam, sentem e veem o mundo de maneiras tão diferentes. Isso é realmente muito novo. Se falasse isso em qualquer empresa nos anos 1950 ou 1960, iam achar que você estava louco. Então, certamente a margem de convivência das diferenças aumentou muito. Hoje não é, pelo menos nas grandes cidades do Ocidente, impossível ser homossexual, não é impossível conviver com um casal homossexual. Até os anos 1980, era tipo aquela política Clinton: “Don’t ask, don’t tell”. Mas você não imaginava chegar ao seu escritório e colocar a fotografia de um namorado ou namorada do mesmo sexo em cima da mesa em um porta-retratos. Não, você não ia fazer isso não.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

PRECISAMOS FALAR SOBRE DEPRESSÃO - E SOBRE JOVENS SUICIDAS




Depressão não é tristeza. É uma doença que precisa de tratamento. Cerca de 18% das pessoas vão apresentar depressão em algum período da vida. Quando o quadro se instala, se não for tratado convenientemente, costuma levar vários meses para desaparecer. - Drauzio Varella

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Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 350 milhões de pessoas sofrem depressão ou problemas mentais. O número é assustador. Apesar disso, o assunto é pouco debatido. Preferimos fingir que depressão não existe, que é culpa da falta de ocupação ou até mesmo desculpa para os problemas das pessoas. "Ninguém tem depressão quando está ocupado demais trabalhando", é o comentário mais popular sobre o tema.
Aproximadamente uma em cada cinco pessoas são atingidas pela depressão em algum momento da vida. Isso significa que o problema não está ao lado, ele está dentro das nossas casas, do nosso ambiente familiar. É preciso olhar com delicadeza para perceber os seus sintomas. Ansiedade, angústia e desânimo são apenas alguns deles. E, infelizmente, depressão mata.
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Grupos em redes sociais reúnem jovens que fazem da automutilação uma prática corriqueira. Não que todos apresentem quadro de depressão, mas não podemos negligenciar a seriedade do problema. São sintomas evidentes de que algo está errado. Não é brincadeira ou "vontade de aparecer". Você se cortaria só para chamar a atenção de alguém?
O tratamento da doença demanda cuidado especial e existem no mercado mais de 30 antidepressivos disponíveis. Não é o bastante. Não quando o problema tem raízes sociais (ou gatilhos). Diálogo, amor, carinho e compreensão podem funcionar como ótimas alternativas aos medicamentos tarja preta. Mas, para isso, precisamos falar sobre depressão. Precisamos falar sobre jovens suicidas.
Enquanto permanecer no inconsciente coletivo a ideia de que depressão é só um fantasma, um mito, uma invenção moderna, fruto da psicanálise, as pessoas continuarão sofrendo. Em silêncio. Muitos tentam suicídio. Alguns, infelizmente, conseguem.


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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O que é Análise? FAZER ANÁLISE É FALAR NA PRIMEIRA PESSOA



PUBLICADO EM SOCIEDADE POR 

A análise nos ensina, basicamente, a sermos protagonistas da própria história. A nos responsabilizar pelas nossas mazelas e encantos, paixões e tormentos; sem chicotes, sem asperezas insuportáveis: a análise nos ensina a tomar as rédeas, escutar o próprio desejo, pra depois dizer do próprio desejo, amar e viver, fora da plateia marcada pela impessoalidade e passividade.

Ontem fui pega desprevenida. E o mais incrível: por mim mesma. O inconsciente, este grande matuto que desbanca o eu no quesito "dono da própria casa", teve lá o seu tempinho semanal para aparecer, e em um dado momento, suspirei. Não de alívio, mas porque doía existir: "ser protagonista não é nada fácil".
Sobre isso, duas cenas me marcam. Uma é do filme "the holiday" (vulgo "o amor não tira férias", mas o tradutor sim. há.) Iris Simpkins, uma moça bonita que não sabe que é bonita, presa numa relação tóxica com um barba-azul (quem nunca?), em uma conversa com o personagem Arthur Abbott, escuta dele a seguinte frase: “Eu vejo que você é uma mulher protagonista, mas por algum motivo está agindo como a melhor amiga. Você deve ser a protagonista da sua própria vida!”. Bum. Hoje ficamos por aqui. A outra cena, que não é bem uma cena, mas um poema, é do Mia Couto: "Porque andei sempre sobre os meus pés, e doeu-me às vezes viver". Arthur Abbott sabe. Mia Couto sabe. Uma porção de gente talvez saiba. Eu descobri há pouco. Sempre é tempo!
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Impossível desvencilhar a descoberta do processo analítico. Passei o resto do dia pensando nos efeitos de uma análise.
A análise nos ensina, basicamente, a sermos protagonistas da própria história. A nos responsabilizar pelas nossas mazelas e encantos, paixões e tormentos; sem chicotes, sem asperezas insuportáveis: a análise nos ensina a tomar as rédeas, escutar o próprio desejo, pra depois dizer do próprio desejo, amar e viver, fora da plateia marcada pela impessoalidade e passividade. É como se fosse uma auto escola, na medida em que nos ensina a conduzir, a nos conduzir, a andar sobre os nossos pés, mesmo que doa, a gastar a sola dos nossos sapatos e não apenas assistir à vida em uma televisão que sequer é nossa.
Não à toa que a plateia conta com o chamado "animador", que sinaliza quando devemos aplaudir, rir ou permanecer sentados, quietos. O/a protagonista é aquele/aquela que não obedece o "animador", ri, chora, senta ou levanta quando bem entender e incomoda, às vezes. É claro que tudo isso dentro de um respeito mínimo pelas regras sociais. Mas não é disso que estamos falando. Estamos falando de um "sentar e levantar quando bem entender" subjetivo, íntimo. E sentar e levantar quando bem se entende dói. O desejo cansa, li certa vez. E como. Porque é difícil viver com intensidade, ou em sintonia com a própria verdade. A maioria das pessoas só quer a mansidão, molhar os pés na superfície. É de se esperar, uma vez que é difícil, tem muita fala pra decorar, os textos são enormes e a gente nunca consegue burlar um ensaio. A vida é o próprio ensaio.
Começa-se uma análise pelos mais diversos motivos. Para se descobrir, para nascer... talvez pela primeira vez. Para dar voz ao inconsciente: este que não conhecemos, este que é "estranho, porém familiar", escreveu Freud. Este que nos assusta, assombra. Mas, o que assombra mesmo é deixá-lo nas sombras, à mercê de qualquer embarcação, com qualquer comandante ou animador de plateia.
Certa vez escrevi uma poesia sobre a escolha da análise, aqui vai uma parte dela:
"Eu decidi velejar.
dói.
mas esse barco quem toca sou eu.
quase sempre estou só, mas nesse barco quem manda sou eu."
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No fim, estaremos gratos - próximos do que chamam de "felizes", talvez? - por poder assinar a própria biografia. Assinatura esta que se faz fazendo, gerundiando, com a tinta da caneta do próprio desespero, que se transforma em sofrimento, que se transforma em dificuldade, que se transforma em questão, que se transforma em "isto é meu". Que se transforma. Sempre. Sigamos, em busca do/da nossa protagonista perdida nos bastidores. Para que esse viver seja marcado, de alguma forma. Para que não seja em vão esse instante que é a vida.


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sábado, 1 de agosto de 2015

O psicanalista Pedro de Santi escreve sobre ELENA

Ontem (09.05), o psicanalista Pedro de Santi participou de um debate (promovido pelo jornal Folha de São Paulo) com Petra Costa e Carolina Ziskind, a diretora e roteirista de ELENA, respectivamente. O evento foi no Espaço Itaú de Cinema e aconteceu depois de uma sessão gratuita do filme, que estreou hoje.
Pedro de Santi, que é mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo, doutor em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professor da especialização em Teoria Psicanalítica da COGEAE/PUC-SP, além de  autor dos livros “Desejo e adição nas relações de consumo” (Zagodoni, 2011)e “A construção do eu na Modernidade” (Holos, 2005), entre outros, escreveu um texto sobre ELENA no blog Nota Alta e reproduzimos abaixo.
“O documentário é produzido e narrado em primeira pessoa, em tom poético e coloquial. Trata-se de um documentário bastante premiado, que tem feito o circuito de festivais e entra em circuito comercial em maio.
A primeira dificuldade de falar sobre ele é o grau de exposição em primeira pessoa daquela que é a um só tempo diretora, co-roteirista e personagem: Petra. Falar sobre este filme é falar sobre as pessoas que nele aparecem. Sabemos que toda forma de expressão traz a marca do sujeito que a produziu, mas, em geral, há certa elaboração e simbolização de modo que aquilo que é pessoal se disfarce relativamente e o produto artístico transcenda o artista e alcance as demais pessoas. Diz uma lenda que Salvador Dali, quando jovem, apresentou-se a Sigmund Freud. Há alguns esboços de retrato impressionantes feitos por Dali. O surrealismo adorava a psicanálise, por considerar que ela atribuíra legitimidade à loucura. Depois da partida do jovem pintor, Freud teria dito que admirou a técnica do pintor, mas não o considerara um artista, uma vez que o surrealismo não seria uma elaboração do inconsciente, mas a expressão direta dele.
Tirando o exagero daquela avaliação, tive uma impressão semelhante ao presenciar (ou testemunhar?) a privacidade dos vídeos familiares presentes no filme. É ao mesmo tempo uma trabalho artístico e a “coisa mesma.” O trabalho se revela nas filmagens, montagens, texturas, construção narrativa; o filme é um muito bom tecnicamente. Mas o limite entre o trabalho artístico e a exposição pessoal desaparece. Tive a experiência de ser e não ser convidado a privar de uma experiência íntima.
Petra assiste aos filmes da irmã, nós assistimos com ela e nos vemos incluídos na experiência. Aparentemente, esta é grande força da narrativa: a capacidade de trazer o espectador para a experiência das personagens e evocar suas próprias perdas, angústias, medo da morte.
O motor do filme é a paixão de Petra por sua irmã, 13 anos mais velha, Elena. Paixão é bem a palavra: na seleção de cenas e locução, transparece a fascinação pela irmã mais velha, espelho e modelo do que Petra deseja e aspira ser. Mas este espelhamento se transforma em temor de destino, uma vez que a irmã se mata aos 20 anos. Esta morte torna-se um enigma e Petra passa a perseguir a compreensão do ocorrido. Toda a história familiar é revista e ressignificada: o farto material filmado é uma fonte essencial desta busca.
O material de vídeo começa a ser produzido quando a família sai da clandestinidade em que viveu nos anos 70, à época da ditatura. É como se a família passasse a existir, então, e quisesse guardar o registro e prova disto. Os vídeos deixam de ser feitos quando Elena se torna adolescente e se distancia relativamente da vida familiar, quando os pais se separam. A ausência do pai é gritante. Algo que passara a existir quando a família saiu da clandestina desaparece, então.
Ao filmar este documentário, Petra trás de volta certo plano de existência da família.
Conforme o tempo passa, a irmã mais nova vai se tornando parecida fisicamente com a mais velha e uma fantasia passa a perpassar a mente de todos: será que ela terá o mesmo destino da irmã? Quando Petra “fica mais velha que Elena”, aos 21 anos, a mãe aponta o alívio e a constatação: uma não é a outra. A própria Petra, numa apresentação do filme, evocou o texto de Freud, O estranhamente familiar (Das Unheimliche, 1919) sobre a figura do duplo. Ao ler os diários da irmã, pareceu-lhe estra lendo o próprio diário. A estranhesa da experiência é potencializada pelo terror de se ver seguindo o destino da irmã.
Com a confirmação de que não havia identidade, mas identificação, Petra parece liberta para incorporar e transformar parte dos sonhos da irmã. Ela transgride uma demanda da mãe e se torna cineasta em Nova York. Elena segue sendo o objeto privilegiado das imagens, e Petra segue sendo predominantemente o olhar fascinado de quem produz e dirige, ainda que ela apareça no filme e faça sua locução.
Ao longo do filme, vai havendo uma transfiguração poética. Conforme o próprio luto de Petra vai sendo trabalhado, a morte de Elena passa gradativamente a ser referida à morte de Ofélia, personagem da peça Hamlet, de Shakespeare. Ofélia se mata, enlouquecida, após ter seu amor renegado por Hamlet e o pai morto banalmente pelo mesmo. Seu irmão – Laerte- estava ausente e ela se vê abandonada. Nas interpretações psicanalíticas, particularmente de Lacan, Ofélia se sente desqualificada e esvaziada como um objeto, privada de palavra e desejo, até se anular: o suicídio é a firmação do vazio que em que se tornou. A nota que Elena deixou na máquina de escrever logo antes de se suicidar evoca este vazio. Elena e Ofélia compartilham o suicídio, mas Elena tinha a mãe e irmã muito presentes. Enigma.
E se Ofélia é evocada na narrativa, Petra se posiciona como Hamlet, angustiada e culpada. Com Petra, a longa elaboração do luto parece ter sido melhor sucedida: ela não se tornou Elena, Ofélia ou Hamlet, mas transformou seu trauma em memória e sua dor em arte, sublimando-a.
Quanto à mãe, ela também sonhara com o cinema americano; embora já seja um clichê psicanalítico, o desejo não realizado da mãe é sempre impresso como demanda inconsciente nos filhos. Aqui, o documentário lembra grandes filmes, também perturbadores, como Cidade dos sonhos (Mulholland drive, 2001) de David Lynch ou Cisne negro (Black Swan, 2010), de Darren Aronofsky, mas tudo sobre um denso material auto-biográfico.
O documentário se modula em ficção. As imagens são belíssimas, com corpos que boiam e se deixam levar pelo fluxo de um rio, como na morte de Ofélia.
A presença da mãe das irmãs também boiando é de arrepiar. Numa cena de reconstituição de como encontrou Elena morta, em seu apartamento, a mãe não se contenta em descrever a posição, mas deita-se ocupando a posição em que encontrou a filha. É basicamente a mesma posição em que as mulheres boiam no rio. Uma imagem bela e muito forte.
O cinema nacional tem feito esforços variados na direção de se afirmar artística e comercialmente. Acompanhamos há pouco o debate entre Kleber Mendonça Filho, o diretor de O Som ao redor (2012)- premiadíssimo, mas de sucesso comercial mediano- e a Globo Filmes, que tem produzido comédias rasas de sucesso. Bom será o dia em que esta oposição se resolver em compromisso.
A partir de maio, acompanharemos como será a recepção do público em geral a este filme, tão diferenciado e perturbador. A ver.
Elena. Documentário de Petra Costa.”

Fonte: Elena Fime

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Documentário A Invenção da Psicanálise

O documentário mostra muito material fotográfico e vídeos raros como o de Jung descrevendo seu primeiro encontro com Freud e relato de Ernest Jones, como também as últimas imagens de Freud em seu apartamento em Viena, pouco antes do exílio em Londres, feitas por Marie-Bonaparte, neta de Napoleão Bonaparte. Traz ainda a única gravação em áudio da voz de Freud em entrevista à BBC de Londres em 07 de dezembro de 1938. Mostra, detalhadamente, a trajetória da psicanálise, desde seu nascimento até as direções tomadas no período após a morte de Freud, associando-a aos fatos históricos de cada época. Todo o filme é comentado por Elisabeth Roudinesco e Peter Gay, biógrafo de Freud.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Distimia e Psicanálise

Ia escrever pessoalmente sobre distimia e psicanálise a pedido de uma Leitora, porém, encontrei esse texto que considerei digno de compartilhamento por ser completo e bem elucidativo! 
Por favor curtam em curtir e compartilhem!



Vanda C.Pignataro Pereira


Antes de tudo, gostaria de agradecer o convite feito pela AMP para falar deste tema e expor, no que diz respeito ao tratamento, o que a Psicanálise pode trazer como contribuição para um assunto tão relevante e atual.
Começo dizendo com Freud que a psicanálise é um método terapêutico e como os demais tem seus triunfos, suas derrotas, suas dificuldades e suas indicações.
Com algum bom humor poderíamos até dizer que a Psicanálise e a Psiquiatria compartilham, nos seus resultados, da impossibilidade de competir com os resultados do Padre Cícero por exemplo, posto que devem ser mais numerosas as pessoas que crêem em milagres do que as que crêem no inconsciente ou na serotonina... Contudo, se além de método terapêutic, a Psicanálise puder ser reconhecida pelas verdades que contém, pelas informações que nos proporciona a respeito daquilo que mais interessa ao ser humano_ a sua própria natureza_ e pelas conexões que ela desvenda, já terá justificado o fato de ser um método impar.
No mais atual das diretrizes diagnosticas em psiquiatria, deparamo-nos na seção dedicada aos transtornos persistentes do humor, com o diagnóstico denominadoDistimia. Em sua descrição, surpreendemo-nos ao encontrar a seguinte observação "os pacientes se descrevem como estando bem, mas na maior parte do tempo, por freqüência meses, sentem-se cansados,deprimidos, nada é desfrutável e portanto tem muito em comum com os conceitos de neurose depressiva ou depressão neurótica".
Freud nunca trabalhou com esta categoria diagnostica_ a Distimia. A neurose, a psicose e a perversão são os diagnósticos, de estrutura com os quais a Psicanálise trabalha. Assim manter-se fiel a Freud implica levar isso em consideração.
Sabemos, por experiência clínica, que um neurótico é incapaz de aproveitar a vida e ser eficiente. Incapaz porque sua libido não se dirige a nenhum objeto real e ineficiente porque despende sua energia para manter a libido sob recalcamento e repelir seus assaltos. Sua libido acha-se então comprometida com seus sintomas, sua única satisfação substitutiva possível. Obviamente isto visto na prática, tem conseqüências, uma vez que teremos sempre que considerar que, se o sintoma leva o sujeito a procurar ajuda e se essa solicitação se refere a uma certa harmonia que se viu quebrada, o sentido etimológico da palavra -sintoma- é mesmo " o que se produz junto", "o que coincide". Esta é a conotação medica que o sintoma tem. Entretanto, se o abordamos do viés psicanalitico, o sintoma muda radicalmente de valor_ decisiva contribuição de Freud. No discurso analítico o sintoma já não se articula a uma harmonia , antes pelo contrário, a uma desarmonia, e só daí podemos extrair o sujeito como um ser falante do sintoma.
Ao partir do sintoma como interpretável Freud esbarra na reação terapêutica negativa, demonstrando-nos que ele deve ser abordado a partir de duas frentes: Como mensagem cifrada, a ser decifrada e como maneira de gozar o que implica, se no sintoma algo que se satisfaz de maneira fechada, em o sujeito não querer se ver assim tão facilmente livre dele.
Quanto ao humor, as investigações de Freud datadas de 1927, portanto quando já desenvolvera sua 2a. tópica, são no sentido de apontar que ele tem algo de liberador , alinhando-o ao chiste e ao cômico. Evidentemente Freud fala de um humor oposto ao humor distimico, aponta esta capacidade do aparelho psíquico de desviar do sofrimento , colocando-o _ o humor_ entre a série de métodos nobres que a mente humana construiu a fim de fugir da compulsão para sofrer. Se o chiste é a contribuição feita ao cômico pelo inconsciente, o humor seria a contribuição feita ao cômico pela intervenção do superego, como se o eu temporariamente, se colocasse sob a proteção daquele, ao invés de em oposição. Melhor dizendo, ser capaz de extrair graça das desgraças não é próprio do distimico, seria preciso humor , justo o que ele parece não ter.
Para pensar a questão depressiva, do ponto de vista psicanalítico, classicamente é o luto, desde Freud, que propicia o paradigma da depressão. O texto referencial, "Luto e Melancolia" serve de reflexão para essas duas condições clínicas, depressivas por excelência..
Apesar do luto envolver graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, perde-se o apetite, acontece a insônia, a tristeza domina o quadro, mas jamais nos ocorre considerá-lo como condição patológica e submetê-lo a tratamento. Freud se pergunta por que sendo uma condição natural diante da perda, seu processo se faz de forma tão dolorosa. Mas pensando bem, percebe-se que esse aspecto misterioso do luto está em acordo com um aparelho psíquico que se constitui às expensas de uma insatisfação ( a experiência de satisfação é mais uma experiência de insatisfação), de uma dor que nunca se extingue, põe-se no máximo em suspensão e de um campo alhures que se constitui_ o campo do Outro.
Acentua Freud que os traços distintivos da melancolia e do luto decorrem da grave perturbação da auto estima presente na primeira que encontra expressão no auto-envilecimento e auto-recriminação e culminam com uma expectativa delirante de punição. Conclui que há uma inibição e circunscrição do eu. Este é um ponto reafirmado em "Inibição Sintoma e Angústia"- onde vai distinguir duas categorias de inibição do eu_ uma como defesa para não entrar em conflito com o supereu e outra como empobrecimento de energia. É assim que Freud tratará da dor do luto e a depressão se caracterizaria por esse desinvestimento. O que entra em causa é o campo do Outro o que Freud chama de desinvestimento do mundo exterior. Nesse mesmo texto aponta para um luto que ele classifica como patológico, aproximando-o da condição obsessiva, pelo conflito ligado à ambivalência objetal, que o prolonga excessivamente.
Sabemos que o neurótico é aquele que cede sobre seu desejo, mantém-se aferrado à comodidade que seu fantasma lhe proporciona, e é também o covarde moral, que se resguarda da castração, gozando com sua impotência. A noção psiquiátrica de humor, encontra sua ressonância no texto freudiano com relação à teoria dos afetos. Quando dizemos afetos e sentimentos inconscientes, é por um abuso de linguagem. Da pulsão, o que cai sob o golpe do recalque, é o representante ideativo, vale dizer, o lado significante da pulsão é que permanece inconsciente. O afeto, este se desloca, é essa sua natureza _ desnaturalizar-se quanto à origem_ para se ligar a outros significantes. Por isso é preciso verificá-lo, devolvê-lo a sua verdadeira face. Esta é uma indicação clínica precisa no que diz respeito à condução do tratamento. Por exemplo, a tristeza com seu correlato suicida, pode muito bem esconder uma ânsia de matar. Quantos psiquiatras perplexos se mortificam ao se surpreenderem com o fato de que, apesar de estarem corretamente conduzindo o tratamento o paciente se mata ?
O afeto embaralha as pistas , desvirtua a decifração simbólica e, exceto a angústia, é enganador. Daí a necessidade de clinicamente ser verificado.
Introduzir a clinica psicanalítica no campo dos distúrbios de humor em psiquiatria, tem conseqüências. Primeiro por que não há psicanálise sem transferê ncia, a transferência é uma estrutura e o que ordena a experiência é o discurso analítico. A escritura deste discurso, nos permite situar os fenômenos da transferência que sabemos não serem simples. Depois com muita relevância, sabemos que a clínica psicanalítica visa à estrutura do sujeito, o que nos remete rapidamente à pergunta de como ela a atinge. Fazendo emergir no cerne desta estrutura, um Outro lugar. Só existe sujeito em função do Outro. Isto é problemático quando pensamos que os distúrbios de humor são concebidos em psiquiatria no seio de um questionamento intrasubjetivo.
Dentro do referencial analítico, que tratamento dar a esses afetos: tristeza, raiva, etc... Lacan em " Televisão", fazendo ressonância com a teoria dos afetos em Freud, restaura a noção das paixões da alma, noção que tem sua origem em Aristóeles e Tomás de Aquino, para quem alma está indissociada do corpo, ou melhor "alma é a forma do corpo" apontando com isso menos a matéria e mais a imagem Assim, o afeto chega a um corpo habitado pela linguagem e quando aí não encontra alojamento, passa a chamar-se morosidade, mal-humor. Ao considerar o afeto fundamentalmente como pecado e tomar a tristeza, por exemplo como falta moral, qual seja falta ética, perante o dever de bem dizer, o que o sujeito mergulhado na tristeza está evitando é medir-se com o desejo do Outro e com o gozo que teria de sacrificar a ele. Desta perspectiva, a tristeza é uma maneira de ignorar que o desejo se fundamenta no Outro. Com isso a problemática da falta é evitada e substituída pela problemática do ter e da dádiva. O sujeito sempre esperando que deve haver alguma coisa que o cure de um mal-estar que é de estrutura, nada querendo saber de seu incurável, vale dizer de sua divisão, acaba levando-a um impasse do qual se recusa sair. As chamadas depressões refratárias ai estão a nos demonstrar isso à exaustão.
Como e porque, nesse sujeito dito deprimido, a organização significante que comanda seu discurso inconsciente, permanece tão distinta do gozo, porque ele faz tanta questão de ignorar o desejo do Outro, nos fica como questão.
Gostaria ainda, para finalizar, de dizer que se observarmos atentamente o manual "Programa Educacional sobre Distimia para Psiquiatras", somos forçados a perceber, que sintomatologicamente, ora o quadro se aproxima do que em Freud se chama melancolia, ora do que se descreve sob o nome de luto patológico. Neste ponto quero lembrar algumas de suas palavras ao examinar as relações da Psiquiatria com a Psicanálise: "É de se esperar que em futuro não muito distante, perceber-se-á que uma psiquiatria cientificamente fundamentada não será possível sem um sólido conhecimento dos processos inconscientes da vida mental"._ Nosso esforço.
Bibliografia
1) Freud, S. _Novas conferencias Introdutórias_ .XXXIV- ESB vol.XXII Imago,RJ,1976.
2) Ibdem - Conferencia Introdutória XVI - pag. 302
3)Freud, S.- "Luto e Melancolia"VOL. XIV
4Lacan , J.- Televisão ( mimeo)
5) Soler, S.- Artigos clinicos ED. Fator 1991, Salvador
6)André, S. -"A impostura perversa"Ed. JZE RJ !995, pag. 205
7)Freud, S -"Inibição,sintoma e angustia"
8) Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento- CID 10
9) Vidal, E A - Revista da letra Freudiana , no. 11/12/13/14/.- RJ
10) Cottet,S.- "Como se analiza hoy"- Ed. Manantial- Buenos Aires
11) Miller, J.A- "La envoltura formal del sintoma"- Ed.Manantial,B.Aires,1989