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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

MAIS LOUCOS E PERVERSOS DO QUE NOS IMAGINAMOS


POR: CLARIANA ZANUTTO  /  28/02/2014
FOTOS RODRIGO BRAGA/3FILMGROUP
Foi com seu mestre, o psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981), que Contardo Calligaris aprendeu que 
o transtorno mais grave que uma pessoa pode ter é ser, digamos, “normal”. Consequentemente, aprendeu também o pupilo que, para ser saudável, o ser humano necessita ter, ao menos, uma neurosezinha aqui e outra ali. Assuntos como esses fascinam tanto Contardo que, aos 65 anos, o psicanalista italiano, nascido em Milão, mas radicado no Brasil desde os anos 1980, assume continuamente o seu maior gosto: trabalhar. Não é fora do comum, portanto, encontrá-lo em seu consultório durante 12 horas diárias e saber que, no tempo restante, além de poucas horas dedicadas ao sono, ele ainda faz exercícios, lê três livros por semana, produz uma coluna semanal para a Folha de S.Paulo e ainda preserva suas idas a cinema, teatro e restaurante. Quer mais? De um ano para cá, ele vem se dividindo entre os roteiros e as gravações da série Psi, que estreia dia 23 deste mês no canal HBO Brasil – e simultaneamente em mais 22 países da América Latina –, e é baseada em seus livros O conto do amor e A mulher de vermelho e branco. Em foco estão as aventuras de Carlo Antonini (vivido por Emílio de Mello), psicólogo, psiquiatra e psicanalista que tem a vida fora do consultório destrinchada junto com a história de outras personagens que exemplificam diferentes perfis psicológicos.

Membro da Escola Freudiana de Paris há quase quatro décadas, Contardo Calligaris não se importa em chocar seus colegas freudianos e lacanianos ao revelar que gostaria de fazer um ano de pscioterapia junguiana, assim como também não tem problema algum em encarar a sociedade ao expressar que a infância é uma idade totalmente idealizada e que as crianças são seres extremamente cruéis. Completa a descrição dizer que ele é encrenqueiro, intervencionista, gosta de se meter em brigas – claro que não como há 30 anos – e de resolver problemas sobre os quais não foi pedida sua opinião. Enfim, o psicanalista está bem longe de ser a pessoa normal que tanto abomina. Sorte a nossa! Afinal, Lacan não estava errado em dizer que a vida é realmente mais interessante quando há uma neurosezinha aqui e outra acolá.

Por muito tempo você teve oportunidades, mas optou por não adaptar os livros 
O conto do amor e A mulher de vermelho e branco para o cinema ou TV. O que, dessa vez, fez com que você mudasse de ideia? 
É uma pergunta interessante. Primeiro, porque, claro, é uma mudança de ofício, mas, enquanto romancista, eu sou um contador de histórias. Não sou fascinado por nenhum experimentalismo. Então, um seriado é uma maneira de contar uma boa história e, sobretudo, construída ao redor de personagens que têm de ser sólidos, porque eles têm de durar de alguma forma, pelo menos o personagem principal. Isso, no fundo, não é muito afastado do trabalho do narrador e do romancista. Tem uma grande diferença que é de ser um trabalho coletivo; então, é preciso, realmente, se acostumar a isso, porque o romancista é Deus e todo mundo. Não tem problema, mas o escritor de cinema, sobretudo do Brasil, é inserido em um processo muito mais complexo. Agora, ainda por cima do ponto de vista da televisão brasileira, foi uma coisa relativamente nova. Aliás, na verdade, absolutamente nova como tipo de seriado brasileiro. Acho que nunca foi feito algo parecido. Não tem! Então, nasceu essa ideia, e procurei alguém que escrevesse comigo, porque é uma tarefa hercúlea. O roteiro de uma série de 13 episódios tem 800 páginas, não menos do que isso, em várias versões e andando em companhia. Mas, rapidamente, me encontrei com Thiago Dottori, que é o roteirista com quem, aliás, eu continuo trabalhando a segunda temporada.

O que as pessoas que já conhecem o personagem Carlo Antonini vão encontrar de diferente em Psi? 
Várias coisas. Primeiro, os amores e os amigos são completamente diferentes, porque ele não mora mais em Nova York, voltou para São Paulo. Mas, no fundo, espero que eles encontrem certa permanência que é ele: essa figura um pouco bizarra, um cara que é psiquiatra, psicólogo, psicanalista – geralmente existem casos famosos, mas são poucos. Na maioria das vezes, alguém é ou psiquiatra e psicanalista, ou psicólogo e psicanalista, mas as três coisas são mais raras juntas. E um cara que tem um espírito, pelo menos aventureiro, tanto na sua prática quanto com poucas obediências de qualquer tipo, inclusive, de alguma forma, morais. Não por isso ele seria um devasso – não é nada disso, ao contrário. Mas digo “morais” no sentido em que acha que as escolhas morais são questões próprias, singulares de cada um. E um fascínio com essa profissão. Fascínio no bom sentido, não no sentido de ficar boquiaberto – é um pouco burro –, mas um interesse muito grande pela diferença extrema que, na verdade, é sempre muito menos extrema do que parece. É muito mais próxima, muito mais parecida com a gente. E essa relação com a diversidade da vida acontece na clínica, mas acontece também na sua vida cotidiana, na sua vida amorosa, por exemplo. É um cara que se aventura, faz escolhas amorosas que podem parecer um pouco bizarras.

E você também acompanhou as gravações? 
Totalmente. Mas, em certos momentos, foi complicado... Na segunda temporada, acho que vou ter que levar isso mais a sério porque, fisicamente, a massa de trabalho foi superior, muito superior, ao que eu vagamente imaginava, como número de horas. As noturnas acabam às 4h30, 5h da manhã. Mas, tudo bem, digamos que, às 2h, eu desistisse, mas às 7h30 estava no consultório.

Não podia abandonar nem o consultório e nem as gravações... 
Claro, mas, na segunda temporada, certamente vou, durante a produção propriamente dita, suspender os atendimentos. Não tenha dúvida! Porque, se não, caso eu não suspenda, não tem como. Tem isso. E tem antes e tem depois. Porque você não para de escrever ao longo, sempre tem o “vamos mudar essa cena, vamos fazer aquilo, se muda aquilo tem que mudar o outro e companhia”. Participei muito ativamente de todo o processo de edição. E aí você realmente aprende! E olha que tenho um passado ligado ao cinema, digo, eu fui tudo, até figurante. Fui figurante muito cedo, de Barbarella [filme dirigido por Roger Vadim, em 1968] e de alguns outros horrores cujo título nem me lembro. Já fui gladiador romano, já fui várias coisas quando morava em Roma.

Essa curiosidade do Carlo por situações diferentes, de sair atrás de um problema e tentar resolvê-lo, também existe em você? Sim. Ou, então, quando não tem um problema, criá-lo (risos). Que também é outra maneira de ter que sair atrás de um problema. Sim, sou intervencionista, sou encrenqueiro, sou do tipo que, se tem uma briga, me meto. Sou briguento. Paguei a metade da minha faculdade com uma bolsa pelo boxe. Fui campeão suíço universitário. Só para dizer que sou encrenqueiro.

Nada como uma boa confusão então... 
Gosto de uma pequena confusão, sim. Muito menos agora do que há uns 25, 30 ou 40 anos. Mas ainda entro em alguma confusão. Compro briga, sim. Peito!

E você, assim como ele, também tem repulsa pelo que é normal? 
Também. Aprendi isso com o meu mestre, [Jacques] Lacan. Eu segui, durante muitos anos, as apresentações de pacientes que ele fazia a cada sexta-feira, ao meio-dia, no [Centre Hospitalier] Sainte-Anne, em Paris. Uma apresentação de paciente, você sabe o que é? Um paciente que foi internado, o residente que se ocupa desse paciente tem questões, então, ele é apresentado. Lacan apresentava-o para um público limitado, de pessoas convidadas, autorizadas, digamos que eram umas 70 pessoas, mais ou menos. Fiz isso no Hospital Raul Soares, na Clínica Pinel, em Porto Alegre, em Rosário. Existe cada vez menos, e é uma pena, porque é um instrumento pedagógico incrível. E também porque não existem mais hospitais psiquiátricos no sentido tradicional. Cada vez menos existem. Então, uma vez, Lacan disse sobre um paciente: “Qual é o problema dele?”. O residente falou: “Não consigo diagnosticá-lo”. E Lacan disse: “Ele é absolutamente normal”. Todo mundo deu uma risadinha, e Lacan acrescentou, o que deixou uma espécie de frio entre nós: “De todos os diagnósticos, a normalidade é o diagnóstico mais grave, porque ela é sem esperança”.



Então, a “normalidade” é um transtorno como outro qualquer...

Certamente. Não... Na verdade, é mais grave.

E o que é ser “normal”?
Pois é... Será que as pessoas querem ser normais? Normais ou não julgadas? Eu acho que o neurótico médio – que somos todos nós – sonha, idealiza o louco. Ele acha que o louco é “o cara”. E sonha em ser perverso. Ou seja, em ser alguém que realmente não teria todos os impedimentos que a neurose nos coloca, ou seja, os registros de culpa, as inibições. O que é uma pessoa normal? Uma pessoa realmente normal é uma que tem um registro de experiência miserável, extremamente pobre. Pode ser que seja relativamente pouco sofrido, mas é também dramaticamente desinteressante. Às vezes, quem pode ser normal são pessoas que têm ou tiveram uma insuficiência cultural-afetiva muito grande. Então, não conseguem... Não é elaborar a experiência no sentido de falar as suas experiências, mas sabe aquela coisa que você atravessa a vida, vê as coisas e isso não lhe evoca nada? Tudo acontece como está acontecendo e isso não me evoca nenhuma lembrança. Normal é quem não tem nada disso. É quem tem uma experiência miserável, no sentido de pobre. Um registro de experiência extremamente pobre.

Não tem interesse também? 
É a mesma coisa. Interesse muito limitado. Por exemplo, o sexo parece ser fisiológico. Ausência de fantasias sexuais. O sexo é: “23h30 a gente apaga a luz, está na cama, transa”. Está previsto.

E essa normalidade é atribuída ao quê?
De certo ponto de vista, aquilo pode ser considerado um tipo de saúde mental. Porque você, sem dúvida, tem um nível de tormento individual, de angústia, muito menor do que o neurótico médio. Mas, geralmente, aquele tipo de normalidade é construída de maneira extremamente sólida e eficiente em cima de um vulcão adormecido. 

Pensando dessa maneira, uma neurose é sempre interessante. 
Somos todos neuróticos, em tese. Graças a Deus, realmente normais são muito poucos. Somos todos neuróticos. Mais loucos do que nos imaginamos – loucos, digo psicóticos –, e em certo número, somos todos, enquanto neuróticos, capazes de ser perversos de vez em quando. O problema mais interessante não é o de viver tranquilo, é o de ter uma vida interessante. Isso que é importante. Inclusive, a que uma psicanálise se propõe? Se propõe a tornar a vida de alguém mais interessante. Não garanto que os meus pacientes venham, sei lá, a sofrer menos ou a ter uma vida mais tranquila. Aliás, o que eu espero é que tenham uma vida mais interessante.

Existe algo como uma cura ou alta, do ponto de vista da psicanálise, para os pacientes?
Existe, mas é uma transformação. Porque na medicina, em tese, curar significa trazer você ou levar você a uma espécie de volta à situação anterior. Quer dizer, você está com gripe, você quer ficar como antes da gripe. No campo “psi”, isso não existe. Você tem uma depressão, você não vai poder voltar ao que era antes da depressão. Pode se tornar outra coisa, que não é nem a depressão que você tem agora, nem o que você era antes. O processo é transformador. Então, “curar” é sempre um pouco problemático. E, além do mais, a apreciação é subjetiva, porque, afinal, é o paciente quem vai dizer que está melhor ou que está suficientemente bem para poder, por exemplo, parar um tratamento. A apreciação é dele. Posso verificar que você não tem mais febre, que você não tem mais um tumor. Tudo bem: não tem mais, não está lá. É muito diferente.
Quem faz análise geralmente fala que todo mundo tem que fazer. E quem não faz, fala que não é assim. Como é, na verdade? 
Acho que não é verdade que todo mundo tem que fazer. Acho que é um equilíbrio complicado, uma alquimia complexa. Não sei nem se a gente pode dizer que todo mundo pode fazer. “Poder”, do ponto de vista de ter, sei lá, isso a grande maioria pode, tem a possibilidade de fazer uma análise, mas é preciso uma predisposição subjetiva. É um equilíbrio curioso, porque é tempo, é uma complexidade na vida. Não é necessariamente penoso. Pode ser extremamente interessante; e deveria ser. Teve uma época em que estava na moda pensar que uma análise deveria ser necessariamente um processo penoso e angustiante. Que, aliás, se você não se angustiasse, isso demonstraria que você não estava tocando nas questões importantes. Pode ser um processo divertido – divertido, além de interessante, no sentido de que um paciente e um analista podem tranquilamente rir em uma série de circunstâncias. E não é raro que seja um processo em que o cara espera o dia da sua sessão ansiosamente.

Você faz análise?
Neste momento, não. Minha última análise foi nos Estados Unidos. Faz bastante tempo que não me reanaliso. Deveria acontecer daqui a pouco, aliás.

Como funciona com você?São situações assim, na verdade, na minha idade – não sei se tem muito a ver com idade, mas, enfim – 
houve pessoas com as quais eu fiquei a fim de fazer uma fatia de análise. Porque eu queria ver, queria ouvir uma coisa diferente do que já tinha ouvido. Pessoas que justamente não eram da minha formação. Hoje, provavelmente – coisa que vai chocar a maioria dos meus colegas –, acho que eu faria um ano de psicoterapia junguiana, me interessaria.
Eles ficariam chocados de que forma?
Ah, porque a maioria dos meus colegas freudianos – lacanianos nem se fala – não iria entender; é como se eu dissesse que vou me confessar com alguém de outra denominação. Tipo: “Vou parar de ir à missa. Agora vou à mesquita no domingo”. Ou, então, começo a frequentar a sinagoga no sábado. Em regra, é bem assim.

Você acredita ser mais flexível do que eles?
Não, não. Não é que acredito, eu sei que sou muito mais flexível. Mas eles não chamam isso de flexível, porque parece uma coisa positiva. Acho que eles consideram que tem uma dívida específica com a disciplina. Acho que eu tenho uma dívida com a psicanálise. Com o desejo, sem dúvida, de Freud muito mais do que com a doutrina de Freud. Me interessa tudo o que saiu do desejo de Freud, inclusive Jung, por exemplo. E mesmo coisas que não saíram do desejo de Freud, porque tem um monte de psicoterapeutas. Fiz psicoterapias rogerianas (método de Carl Ransom Rogers, 1902-1987) e companhia, que não são propriamente pós-freudianas, e achei superinteressante.


Uma, das muitas questões discutidas na série, é que ninguém gosta de ser mudado... 
Isso. A gente passa a vida inteira circundado por pessoas que têm o projeto de nos moldar. Na hora, pode até parecer normal, mas é um saco, né?!  E isso continua. Mas na infância e na adolescência é muito mais, inclusive depois, até no trabalho. Você se lembra daquele filme bonito, Mestre dos mares? É uma história de Russell Crowe, que é comandante, e tem esses dois meninos de 13 ou 14 anos que, na verdade, são oficiais a bordo do navio. É um deles que comanda as baterias de bombardeio do navio. Eles são oficiais da Marinha! Um deles perde um braço e fica lá sem braço. Sobrevive. O espectador médio hoje vê aquilo e não entende. Não processa como sendo normal. Você entrava na escola militar de guerra aos 12, 13 anos, fazia os seus cursos, passava, saía. Valeu. Um aprendiz saía de casa aos 7 anos, na França da Idade Média. Se eu era marceneiro, o meu filho se destinava à marcenaria – naquela época, o que se previa era a reprodução; então, aos 7 anos, o meu filho ia aprender a ser marceneiro. Mas não podia aprender comigo, porque eram inteligentes, eles entendiam que não era com os pais que se aprende. Então, eu tinha que mandá-lo para outro marceneiro dentro da confraria, mas não era na mesma cidade. Era 600 km, 700 km... Eu ia rever meu filho dez anos depois, formado. E ninguém morria. Você vai dizer isso para uma mãe hoje?
Você diz em relação à superproteção extrema, não? 
Nós somos totalmente infantólatras e a infantolatria é um dos grandes traços da contemporaneidade. E dizer que as crianças são capazes de grandes crueldades, isso é uma coisa que hoje é quase um escândalo. A criança pode ser extremamente agressiva. Não tenho uma simpatia, a priori, por crianças. Acho que crianças são seres cruéis, extremamente cruéis, capazes das maiores maldades. Freud dizer em 1905 que as crianças tinham uma sexualidade era um negócio! Como? As pessoas não viam as criancinhas se masturbando em casa?

A grande maioria não quer enxergar isso... 
Não quer, absolutamente. A infância continua sendo uma idade totalmente idealizada. Aliás,  continuamos, cada vez mais, tentando criar uma idade durante a qual as crianças, esses seres, não vão ter preocupações de nenhum tipo. Bom, claro que isso funciona como pode, mas a nossa idealização da criança é muito grande, muito forte.

E quem resolve não seguir por esse caminho recebe muitas críticas... 
Sim, claro. Imediatamente. Mas a gente não pode se queixar tanto assim, no fundo, porque, sobretudo a partir dos anos 1970, progressivamente, a sociedade ocidental criou uma espécie de ideologia positiva da diferença. Tanto que a diferença parece ser ou é apresentada como um valor em si. Por exemplo: é bom que o ambiente de trabalho seja repleto de diferenças étnicas e o caramba, pessoas de todos os tipos, porque essa inclusão vai – e agora tem toda uma justificação positiva – ter um efeito positivo na decision making. Porque, claro, vão participar pessoas que pensam, sentem e veem o mundo de maneiras tão diferentes. Isso é realmente muito novo. Se falasse isso em qualquer empresa nos anos 1950 ou 1960, iam achar que você estava louco. Então, certamente a margem de convivência das diferenças aumentou muito. Hoje não é, pelo menos nas grandes cidades do Ocidente, impossível ser homossexual, não é impossível conviver com um casal homossexual. Até os anos 1980, era tipo aquela política Clinton: “Don’t ask, don’t tell”. Mas você não imaginava chegar ao seu escritório e colocar a fotografia de um namorado ou namorada do mesmo sexo em cima da mesa em um porta-retratos. Não, você não ia fazer isso não.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

E se algumas doenças mentais fossem monstros


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via: oversodoinverso

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Distimia: um embrulho só

Vale muito a leitura!
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A mais grave consequência dessa mudança ideológica da criação de novos diagnósticos ocorreu nos transtornos do humor. Nesse item, a DSM-IV e, em um grau quase imperceptivelmente menor na CID-10, sob a capa de uma suposta cientificidade, produziram uma involução diagnóstica. Na fúria para eliminar o termo ‘neurose’, as classificações fundiram os diagnósticos de neurose depressiva e personalidade depressiva em uma única categoria clínica: a distimia. Na psicopatologia geral, a palavra distimia referia-se a um sintoma, o da quebra súbita do controle do humor, como, por analogia, disbulia refere-se à quebra súbita do controle da vontade. Contrariamente a sua origem etimológica, o termo distimia foi elevado de sintoma à categoria de diagnóstico. Ao mesmo tempo, o novo uso do termo distimia o tornou impreciso em relação a sua fronteira com o diagnóstico de transtorno depressivo maior.
Na neurose depressiva ou depressão neurótica, temos um quadro de hipotimia, surgido a partir de um tempo preciso ou não, mas que nitidamente não existia antes, pelo menos em gravidade. Um quadro clínico que, em sua maioria, não é incapacitante para a vida social e para o trabalho. Na neurose, a ‘depressão’ surgiu há um tempo determinado, incomoda seu portador, muitas vezes com a mescla de ansiedade e depressão ansiosa, e o paciente procura pelo tratamento. As pessoas à volta do paciente podem ou não sofrer com seu transtorno, mas é bem claro que ele sofre muito mais. Certamente trata-se mais de um sintoma subjetivo do que de um sintoma social (aqui nos referimos aos sintomas sociais como transtornos socialmente desagregadores, desde os conflitos intersubjetivos até legais, e não ao conceito psicanalítico de laço social). A experiência clínica mostra como tais pacientes não reagem ou reagem mal aos antidepressivos. Entre pesquisas que classificam taxas altíssimas de incidência e prevalência da ‘depressão’, os pacientes com neurose depressiva constituem um dos grandes mercados para tratamentos psicoterápicos de todos os tipos. Até a CID-9 o diagnóstico de depressão neurótica fora mantido.
Em paralelo, na mesma classificação anterior, entre os transtornos de personalidade, era incluído o transtorno afetivo de personalidade, no qual podiam ser englobados, também, os diagnósticos de personalidade depressiva e de personalidade ciclotímica. Ainda existia em tratados de psiquiatria um termo mais remoto: a personalidade hipomaníaca. Em todos esses diagnósticos, o sintoma é muito mais social que subjetivo. O paciente sofre menos que os outros a sua volta ou, então, simplesmente não sofre. Raramente o portador de um transtorno de personalidade busca tratamento. E, como em todos os outros transtornos de personalidade, aqueles associados com a afetividade também não respondem à medicação. Caricaturalmente, a personalidade depressiva é rotulada por muitos de síndrome da hiena, em referência a um antigo desenho animado infantil, em que a personagem, eternamente queixosa e pessimista, sempre repetia: ó vida, ó azar! Quando associado a queixas hipocondríacas, o diagnóstico é facilmente identificável para o leigo: aquelas pessoas que você se arrepende de perguntar – como vai?
A distinção de neurose e transtorno de personalidade é equivalente na obra de Freud à distinção entre neurose transferencial e neurose de caráter, que culminou possuindo por fulcro a distinção psicanalítica entre ego-distônico e ego-sintônico, diferença estrutural básica para a clínica. Curiosamente, os mentores do DSM-IV, em sua ojeriza à Psicanálise, esqueceram de retirar esse conceito, revelando como mesmo a mais descritiva das classificações torna-se incompreensível sem alguma compreensão dinâmica. Na DSM-IV, lemos (2002, p. 642): “(...) as características que definem um Transtorno de Personalidade podem não ser consideradas problemáticas pelo indivíduo (i.e., os traços são ego-sintônicos)”.
A classificação atual manteve a categoria genérica dos transtornos de personalidade, mas retirou qualquer diagnóstico referente aos transtornos afetivos de personalidade. Além do transtorno depressivo de personalidade, também foram suprimidos os transtornos de personalidade ciclotímico e hipomaníaco. Tratou-se de uma exclusão específica e notória, uma vez que todos os outros transtornos de personalidade antigos foram mantidos: obsessivo-compulsivo, histriônico, paranoide, esquizoide, antissocial. Sendo assim, todo e qualquer transtorno do humor foi considerado ego-distônico, portanto sempre necessitando de tratamento, medicamentoso, é claro.
Neurose depressiva e personalidade depressiva foram fundidas sob a égide da distimia. E nessa um pequeno item, se considerados todos os outros diagnósticos da seção de transtornos do humor, antigamente considerados ‘psicóticos’. Qualquer leigo com acesso à internet ou médico de formação precária em Psiquiatria irá ler hoje a distimia não entre as neuroses e os transtornos de ansiedade – ‘mais leves’ –, mas ao lado da antiga psicose maníaco-depressiva e dos atuais transtornos bipolar e depressivo maior – ‘muito mais graves e sérios’.
Movida por uma ideologia declaradamente antipsicanalítica, a redução de todos os quadros de depressão não psicótica no diagnóstico de distimia, embasa a idéia de que todas as depressões são medicalizáveis. A aliança da psiquiatria organicista com a terapia comportamental, que também se expressa com grande intensidade no Brasil, reflete a luta pelo mercado do tratamento das depressões diante de todas as outras formas de psicoterapia, principalmente a psicanalítica. A crítica de que a maioria das depressões neuróticas e das personalidades depressivas não reage ou reage mal à medicação ficou obscurecida pela criação do diagnóstico atual de distimia.
O excesso do uso de antidepressivos tem conduzido a uma revisão crescente de sua eficácia e de seus efeitos colaterais (bem compreensíveis, se considerarmos a psicodinâmica dos transtornos de humor), como o aumento de suicídios, assim como os estudos sobre a cessação de seus efeitos após certo tempo. As críticas se tornaram ainda mais agudas nos últimos anos. Se forem reais as hipóteses do aumento da incidência dos quadros de esclerose múltipla e de doença de Alzheimer nos países industrializados do Ocidente, além de causas ambientais como a poluição, o uso excessivo e continuado de medicações psiquiátricas terá de ser pesquisado seriamente como uma das possíveis causas. Mas a ‘era do Prozac’ baseia-se em mais do que em um conflito de interesses de mercado.



terça-feira, 14 de abril de 2015

Distimia e Psicanálise

Ia escrever pessoalmente sobre distimia e psicanálise a pedido de uma Leitora, porém, encontrei esse texto que considerei digno de compartilhamento por ser completo e bem elucidativo! 
Por favor curtam em curtir e compartilhem!



Vanda C.Pignataro Pereira


Antes de tudo, gostaria de agradecer o convite feito pela AMP para falar deste tema e expor, no que diz respeito ao tratamento, o que a Psicanálise pode trazer como contribuição para um assunto tão relevante e atual.
Começo dizendo com Freud que a psicanálise é um método terapêutico e como os demais tem seus triunfos, suas derrotas, suas dificuldades e suas indicações.
Com algum bom humor poderíamos até dizer que a Psicanálise e a Psiquiatria compartilham, nos seus resultados, da impossibilidade de competir com os resultados do Padre Cícero por exemplo, posto que devem ser mais numerosas as pessoas que crêem em milagres do que as que crêem no inconsciente ou na serotonina... Contudo, se além de método terapêutic, a Psicanálise puder ser reconhecida pelas verdades que contém, pelas informações que nos proporciona a respeito daquilo que mais interessa ao ser humano_ a sua própria natureza_ e pelas conexões que ela desvenda, já terá justificado o fato de ser um método impar.
No mais atual das diretrizes diagnosticas em psiquiatria, deparamo-nos na seção dedicada aos transtornos persistentes do humor, com o diagnóstico denominadoDistimia. Em sua descrição, surpreendemo-nos ao encontrar a seguinte observação "os pacientes se descrevem como estando bem, mas na maior parte do tempo, por freqüência meses, sentem-se cansados,deprimidos, nada é desfrutável e portanto tem muito em comum com os conceitos de neurose depressiva ou depressão neurótica".
Freud nunca trabalhou com esta categoria diagnostica_ a Distimia. A neurose, a psicose e a perversão são os diagnósticos, de estrutura com os quais a Psicanálise trabalha. Assim manter-se fiel a Freud implica levar isso em consideração.
Sabemos, por experiência clínica, que um neurótico é incapaz de aproveitar a vida e ser eficiente. Incapaz porque sua libido não se dirige a nenhum objeto real e ineficiente porque despende sua energia para manter a libido sob recalcamento e repelir seus assaltos. Sua libido acha-se então comprometida com seus sintomas, sua única satisfação substitutiva possível. Obviamente isto visto na prática, tem conseqüências, uma vez que teremos sempre que considerar que, se o sintoma leva o sujeito a procurar ajuda e se essa solicitação se refere a uma certa harmonia que se viu quebrada, o sentido etimológico da palavra -sintoma- é mesmo " o que se produz junto", "o que coincide". Esta é a conotação medica que o sintoma tem. Entretanto, se o abordamos do viés psicanalitico, o sintoma muda radicalmente de valor_ decisiva contribuição de Freud. No discurso analítico o sintoma já não se articula a uma harmonia , antes pelo contrário, a uma desarmonia, e só daí podemos extrair o sujeito como um ser falante do sintoma.
Ao partir do sintoma como interpretável Freud esbarra na reação terapêutica negativa, demonstrando-nos que ele deve ser abordado a partir de duas frentes: Como mensagem cifrada, a ser decifrada e como maneira de gozar o que implica, se no sintoma algo que se satisfaz de maneira fechada, em o sujeito não querer se ver assim tão facilmente livre dele.
Quanto ao humor, as investigações de Freud datadas de 1927, portanto quando já desenvolvera sua 2a. tópica, são no sentido de apontar que ele tem algo de liberador , alinhando-o ao chiste e ao cômico. Evidentemente Freud fala de um humor oposto ao humor distimico, aponta esta capacidade do aparelho psíquico de desviar do sofrimento , colocando-o _ o humor_ entre a série de métodos nobres que a mente humana construiu a fim de fugir da compulsão para sofrer. Se o chiste é a contribuição feita ao cômico pelo inconsciente, o humor seria a contribuição feita ao cômico pela intervenção do superego, como se o eu temporariamente, se colocasse sob a proteção daquele, ao invés de em oposição. Melhor dizendo, ser capaz de extrair graça das desgraças não é próprio do distimico, seria preciso humor , justo o que ele parece não ter.
Para pensar a questão depressiva, do ponto de vista psicanalítico, classicamente é o luto, desde Freud, que propicia o paradigma da depressão. O texto referencial, "Luto e Melancolia" serve de reflexão para essas duas condições clínicas, depressivas por excelência..
Apesar do luto envolver graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, perde-se o apetite, acontece a insônia, a tristeza domina o quadro, mas jamais nos ocorre considerá-lo como condição patológica e submetê-lo a tratamento. Freud se pergunta por que sendo uma condição natural diante da perda, seu processo se faz de forma tão dolorosa. Mas pensando bem, percebe-se que esse aspecto misterioso do luto está em acordo com um aparelho psíquico que se constitui às expensas de uma insatisfação ( a experiência de satisfação é mais uma experiência de insatisfação), de uma dor que nunca se extingue, põe-se no máximo em suspensão e de um campo alhures que se constitui_ o campo do Outro.
Acentua Freud que os traços distintivos da melancolia e do luto decorrem da grave perturbação da auto estima presente na primeira que encontra expressão no auto-envilecimento e auto-recriminação e culminam com uma expectativa delirante de punição. Conclui que há uma inibição e circunscrição do eu. Este é um ponto reafirmado em "Inibição Sintoma e Angústia"- onde vai distinguir duas categorias de inibição do eu_ uma como defesa para não entrar em conflito com o supereu e outra como empobrecimento de energia. É assim que Freud tratará da dor do luto e a depressão se caracterizaria por esse desinvestimento. O que entra em causa é o campo do Outro o que Freud chama de desinvestimento do mundo exterior. Nesse mesmo texto aponta para um luto que ele classifica como patológico, aproximando-o da condição obsessiva, pelo conflito ligado à ambivalência objetal, que o prolonga excessivamente.
Sabemos que o neurótico é aquele que cede sobre seu desejo, mantém-se aferrado à comodidade que seu fantasma lhe proporciona, e é também o covarde moral, que se resguarda da castração, gozando com sua impotência. A noção psiquiátrica de humor, encontra sua ressonância no texto freudiano com relação à teoria dos afetos. Quando dizemos afetos e sentimentos inconscientes, é por um abuso de linguagem. Da pulsão, o que cai sob o golpe do recalque, é o representante ideativo, vale dizer, o lado significante da pulsão é que permanece inconsciente. O afeto, este se desloca, é essa sua natureza _ desnaturalizar-se quanto à origem_ para se ligar a outros significantes. Por isso é preciso verificá-lo, devolvê-lo a sua verdadeira face. Esta é uma indicação clínica precisa no que diz respeito à condução do tratamento. Por exemplo, a tristeza com seu correlato suicida, pode muito bem esconder uma ânsia de matar. Quantos psiquiatras perplexos se mortificam ao se surpreenderem com o fato de que, apesar de estarem corretamente conduzindo o tratamento o paciente se mata ?
O afeto embaralha as pistas , desvirtua a decifração simbólica e, exceto a angústia, é enganador. Daí a necessidade de clinicamente ser verificado.
Introduzir a clinica psicanalítica no campo dos distúrbios de humor em psiquiatria, tem conseqüências. Primeiro por que não há psicanálise sem transferê ncia, a transferência é uma estrutura e o que ordena a experiência é o discurso analítico. A escritura deste discurso, nos permite situar os fenômenos da transferência que sabemos não serem simples. Depois com muita relevância, sabemos que a clínica psicanalítica visa à estrutura do sujeito, o que nos remete rapidamente à pergunta de como ela a atinge. Fazendo emergir no cerne desta estrutura, um Outro lugar. Só existe sujeito em função do Outro. Isto é problemático quando pensamos que os distúrbios de humor são concebidos em psiquiatria no seio de um questionamento intrasubjetivo.
Dentro do referencial analítico, que tratamento dar a esses afetos: tristeza, raiva, etc... Lacan em " Televisão", fazendo ressonância com a teoria dos afetos em Freud, restaura a noção das paixões da alma, noção que tem sua origem em Aristóeles e Tomás de Aquino, para quem alma está indissociada do corpo, ou melhor "alma é a forma do corpo" apontando com isso menos a matéria e mais a imagem Assim, o afeto chega a um corpo habitado pela linguagem e quando aí não encontra alojamento, passa a chamar-se morosidade, mal-humor. Ao considerar o afeto fundamentalmente como pecado e tomar a tristeza, por exemplo como falta moral, qual seja falta ética, perante o dever de bem dizer, o que o sujeito mergulhado na tristeza está evitando é medir-se com o desejo do Outro e com o gozo que teria de sacrificar a ele. Desta perspectiva, a tristeza é uma maneira de ignorar que o desejo se fundamenta no Outro. Com isso a problemática da falta é evitada e substituída pela problemática do ter e da dádiva. O sujeito sempre esperando que deve haver alguma coisa que o cure de um mal-estar que é de estrutura, nada querendo saber de seu incurável, vale dizer de sua divisão, acaba levando-a um impasse do qual se recusa sair. As chamadas depressões refratárias ai estão a nos demonstrar isso à exaustão.
Como e porque, nesse sujeito dito deprimido, a organização significante que comanda seu discurso inconsciente, permanece tão distinta do gozo, porque ele faz tanta questão de ignorar o desejo do Outro, nos fica como questão.
Gostaria ainda, para finalizar, de dizer que se observarmos atentamente o manual "Programa Educacional sobre Distimia para Psiquiatras", somos forçados a perceber, que sintomatologicamente, ora o quadro se aproxima do que em Freud se chama melancolia, ora do que se descreve sob o nome de luto patológico. Neste ponto quero lembrar algumas de suas palavras ao examinar as relações da Psiquiatria com a Psicanálise: "É de se esperar que em futuro não muito distante, perceber-se-á que uma psiquiatria cientificamente fundamentada não será possível sem um sólido conhecimento dos processos inconscientes da vida mental"._ Nosso esforço.
Bibliografia
1) Freud, S. _Novas conferencias Introdutórias_ .XXXIV- ESB vol.XXII Imago,RJ,1976.
2) Ibdem - Conferencia Introdutória XVI - pag. 302
3)Freud, S.- "Luto e Melancolia"VOL. XIV
4Lacan , J.- Televisão ( mimeo)
5) Soler, S.- Artigos clinicos ED. Fator 1991, Salvador
6)André, S. -"A impostura perversa"Ed. JZE RJ !995, pag. 205
7)Freud, S -"Inibição,sintoma e angustia"
8) Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento- CID 10
9) Vidal, E A - Revista da letra Freudiana , no. 11/12/13/14/.- RJ
10) Cottet,S.- "Como se analiza hoy"- Ed. Manantial- Buenos Aires
11) Miller, J.A- "La envoltura formal del sintoma"- Ed.Manantial,B.Aires,1989

domingo, 7 de julho de 2013

Transtorno de Personalidade Esquizóide

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O Transtorno de Personalidade Esquizóide (TPE) é definido como um transtorno de personalidade primariamente caracterizado por falta de interesse em relações sociais, tendência ao isolamento e à introspecção, e frieza emocional, e simultaneamente por uma rica e elaborada actividade imaginária interior1 . Embora os termos sejam parecidos, o transtorno de personalidade esquizóide não é o mesmo que esquizofrenia (ainda que haja uma prevalência maior de pessoas com este transtorno em famílias com esquizofrenia e ambos compartilhem características como distanciamento ou embotamento afetivo).

Critérios do DSM-IV

A atual versão do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV) - o guia americano amplamente usado por médicos à procura de um diagnóstico de doenças mentais – define o TPE18 como: "um padrão invasivo de distanciamento das relações sociais e um alcance restrito de expressão de emoções, que começa no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos".
Os critérios são (pelo menos quatro):
  1. Não deseja e nem aprecia relações íntimas, incluindo ser parte de uma família.
  2. Quase sempre escolhe atividades solitárias.
  3. Tem pouca, se alguma, vontade de ter relações sexuais com outra pessoa.
  4. Tem prazer em poucas atividades, se alguma.
  5. Falta de amigos íntimos ou confidentes que não sejam parentes de primeiro grau.
  6. É indiferente às críticas ou elogios.
  7. Mostra frieza emocional, distância ou afetividade limitada.
Para o DSM-V, a sair em 2013, está proposto que o critério de diagnóstico se mantenha idêntico19 .

Critérios do CID-10

O CID-10 da Organização Mundial de Saúde define o TPE20 de forma muito semelhante ao DSM-IV. Segundo o CID-10, são necessários pelo menos 4 destes sintomas:
  1. Tem prazer em poucas atividades, se alguma.
  2. Mostra frieza emocional, distância ou afetividade limitada.
  3. Capacidade limitada para expressar tanto sentimentos de calor e ternura como de ira para com outras pessoas
  4. Aparente indiferença às críticas ou elogios.
  5. Pouca vontade de ter relações sexuais com outra pessoa (atendendo à idade)
  6. Quase sempre escolhe atividades solitárias.
  7. Preocupação excessiva com fantasia e introspecção.
  8. Falta de amigos íntimos ou confidentes (ou apenas um) e de desejo de os ter
  9. Marcada insensibilidade às normas e convenções sociais estabelecidas
Exclui: Síndrome de Asperger, Transtorno Delirante, Transtorno Esquizóide da Infância, Esquizofrenia e Transtorno de personalidade esquizotípica

terça-feira, 21 de maio de 2013

TESTE: VOCÊ SOFRE DE AMOR PATOLÓGICO? MADA (Mulheres que Amam Demais Anônimas)


Foto: TESTE: VOCÊ SOFRE DE AMOR PATOLÓGICO? MADA (Mulheres que Amam Demais Anônimas) 

Você é uma mulher que ama demais?

— Você se torna obsessiva nos relacionamentos?
— Liga várias vezes para seus relacionamentos para saber com quem estão?
— Desconfia de seus relacionamentos procurando por indícios de mulheres nos pertences de seu parceiro?
— Olha a todo instante para o celular para saber se há alguma ligação de seu parceiro?
— Culpa e acusa seus relacionamentos da infelicidade de sua vida?
— Procura apenas agradar aos seus relacionamentos e esquece-se de si mesma?
— Vê o alcance do problema?
— Mente para disfarçar o que ocorre na relação?
— Evita as pessoas para ocultar os seus problemas?
— Repete atitudes para controlar a relação?
— Sofre acidentes devido à distração?
— Sofre mudanças de humor inexplicáveis?
— Pratica atos irracionais?
— Tem ataques de ira, depressão, culpa ou ressentimento?
— Tem ataques de violência?
— Sente ódio de si mesma e se autojustifica?
— Sofre doenças físicas devido a enfermidades produzidas por estresse?
— Sente-se incompreendida por todos?
— Não consegue se divertir sem a presença de seu parceiro?
— Sente-se exausta ao assumir mais responsabilidades num relacionamento?

Se a pessoa responder afirmativamente a mais de três questões no primeiro caso, diz o Mada, pode estar se prejudicando mais do que se beneficiando de um relacionamento amoroso. Se respondeu sim a muitas delas, possivelmente sofre de amor patológico ou de algum tipo de dependência emocional.

O grupo tem reuniões todos os dias. Os locais e horários podem ser encontrados no blog http://www.grupomadarj.blogspot
Grupos de autoajuda como o Mada (Mulheres que Amam Demais Anônimas) têm como principal função fazer com que a pessoa que sofre de amor patológico ou outra dependência emocional (como a da mãe que não consegue se desvincular do filho já adulto) se sinta mais confortável ao descobrir que há outras na mesma situação e perceba, ao ouvir outros depoimentos, que é possível melhorar. 

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/saude/teste-voce-sofre-de-amor-patologico-4334443#ixzz2N55pHJ4y
© 1996 - 2013. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A.
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— Você se torna obsessiva nos relacionamentos?
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— Culpa e acusa seus relacionamentos da infelicidade de sua vida?
— Procura apenas agradar aos seus relacionamentos e esquece-se de si mesma?
— Vê o alcance do problema?
— Mente para disfarçar o que ocorre na relação?
— Evita as pessoas para ocultar os seus problemas?
— Repete atitudes para controlar a relação?
— Sofre acidentes devido à distração?
— Sofre mudanças de humor inexplicáveis?
— Pratica atos irracionais?
— Tem ataques de ira, depressão, culpa ou ressentimento?
— Tem ataques de violência?
— Sente ódio de si mesma e se autojustifica?
— Sofre doenças físicas devido a enfermidades produzidas por estresse?
— Sente-se incompreendida por todos?
— Não consegue se divertir sem a presença de seu parceiro?
— Sente-se exausta ao assumir mais responsabilidades num relacionamento?

Se a pessoa responder afirmativamente a mais de três questões no primeiro caso, diz o Mada, pode estar se prejudicando mais do que se beneficiando de um relacionamento amoroso. Se respondeu sim a muitas delas, possivelmente sofre de amor patológico ou de algum tipo de dependência emocional.

O grupo tem reuniões todos os dias. Os locais e horários podem ser encontrados no blog http://www.grupomadarj.blogspot/
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domingo, 19 de maio de 2013

TAG – Transtorno de Ansiedade Generalizada


Foto: TAG – Transtorno de Ansiedade Generalizada
Uma das maneiras de diferenciar a ansiedade generalizada da ansiedade normal é através do tempo de duração dos sintomas. A ansiedade normal se restringe a uma determinada situação, e mesmo que uma situação problemática causadora de ansiedade não mude, a pessoa tende a adaptar-se e tolerar melhor a tensão diminuindo o grau de desconforto com o tempo, ainda que a situação permaneça desfavorável. Assim uma pessoa que permaneça apreensiva, tensa, nervosa por um período superior a seis meses, ainda que tenha um motivo para estar ansiosa, começa a ter critérios para diagnóstico de ansiedade generalizada. Uma vez eliminada a ocorrência de outros transtornos mentais assim como eliminada a possibilidade do estado estar sendo causado por alguma substância ou doença física, podemos admitir o diagnóstico de ansiedade generalizada.
 Respeitadas essas condições os sintomas que precisam estar presentes são:
1. Dificuldade para relaxar ou a sensação de que está a ponto de estourar, está no limite do nervosismo
2. Cansa-se com facilidade
3. Dificuldade de concentração e freqüentes esquecimentos
4. Irritabilidade
5. Tensão muscular
6. Dificuldade para adormecer ou sono insatisfatório
Por fim, um critério presente em todos transtornos mentais é o prejuízo no funcionamento pessoal ou marcante sofrimento. Não podemos considerar os sintomas como suficientes para dar o diagnóstico caso o paciente não tenha seu desempenho pessoal, social e familiar afetados.
A preocupação com a possibilidade de vir a adoecer com algo grave ou sofrer um acidente embora não existam indicativos de que essas coisas possam vir a acontecer é o foco mais comum das preocupações das pessoas com ansiedade generalizada. Algumas pessoas temem mais que os entes queridos sofram algum desses males, como os pais, ou filhos. Estes pacientes estão sempre imaginando situações como essas e freqüentemente se consideram incapazes de lidar com elas caso realmente venham a acontecer.
As variedades dos sintomas de ansiedade são enormes e muitas vezes pessoais. Ganho de peso, por exemplo, tanto pode não ter nenhuma relação com ansiedade como pode, para determinadas pessoas, ser a manifestação mais freqüente. Os sintomas mais comuns então são: boca seca, mãos ou pés úmidos, enjôos ou diarréia, aumento da freqüência urinária, sudorese excessiva, dificuldade de engolir ou sensação de um bolo na garganta, assustar-se com facilidade e de forma mais intensa.
Tratamento
As medicações como os tranquilizantes são eficazes assim como os antidepressivos. É curioso que os antidepressivos sejam eficazes porem empiricamente observamos esse fato: alguns antidepressivos com mais eficácia do que outros. Além das medicações, terapias também proporcionam bons resultados sendo muitas vezes recomendada a combinação de ambas as técnicas. 
Fonte: Psicosite 
Uma das maneiras de diferenciar a ansiedade generalizada da ansiedade normal é através do tempo de duração dos sintomas. A ansiedade normal se restringe a uma determinada situação, e mesmo que uma situação problemática causadora de ansiedade não mude, a pessoa tende a adaptar-se e tolerar melhor a tensão diminuindo o grau de desconforto com o tempo, ainda que a situação permaneça desfavorável. Assim uma pessoa que permaneça apreensiva, tensa, nervosa por um período superior a seis meses, ainda que tenha um motivo para estar ansiosa, começa a ter critérios para diagnóstico de ansiedade generalizada. Uma vez eliminada a ocorrência de outros transtornos mentais assim como eliminada a possibilidade do estado estar sendo causado por alguma substância ou doença física, podemos admitir o diagnóstico de ansiedade generalizada.
Respeitadas essas condições os sintomas que precisam estar presentes são:
1. Dificuldade para relaxar ou a sensação de que está a ponto de estourar, está no limite do nervosismo
2. Cansa-se com facilidade
3. Dificuldade de concentração e freqüentes esquecimentos
4. Irritabilidade
5. Tensão muscular
6. Dificuldade para adormecer ou sono insatisfatório
Por fim, um critério presente em todos transtornos mentais é o prejuízo no funcionamento pessoal ou marcante sofrimento. Não podemos considerar os sintomas como suficientes para dar o diagnóstico caso o paciente não tenha seu desempenho pessoal, social e familiar afetados.
A preocupação com a possibilidade de vir a adoecer com algo grave ou sofrer um acidente embora não existam indicativos de que essas coisas possam vir a acontecer é o foco mais comum das preocupações das pessoas com ansiedade generalizada. Algumas pessoas temem mais que os entes queridos sofram algum desses males, como os pais, ou filhos. Estes pacientes estão sempre imaginando situações como essas e freqüentemente se consideram incapazes de lidar com elas caso realmente venham a acontecer.
As variedades dos sintomas de ansiedade são enormes e muitas vezes pessoais. Ganho de peso, por exemplo, tanto pode não ter nenhuma relação com ansiedade como pode, para determinadas pessoas, ser a manifestação mais freqüente. Os sintomas mais comuns então são: boca seca, mãos ou pés úmidos, enjôos ou diarréia, aumento da freqüência urinária, sudorese excessiva, dificuldade de engolir ou sensação de um bolo na garganta, assustar-se com facilidade e de forma mais intensa.
Tratamento
As medicações como os tranquilizantes são eficazes assim como os antidepressivos. É curioso que os antidepressivos sejam eficazes porem empiricamente observamos esse fato: alguns antidepressivos com mais eficácia do que outros. Além das medicações, terapias também proporcionam bons resultados sendo muitas vezes recomendada a combinação de ambas as técnicas. 


Fonte: Psicosite

sexta-feira, 17 de maio de 2013

O QUE É CO-DEPENDÊNCIA

 Foto: O QUE É CO-DEPENDÊNCIA 
O marido que cerceia o crescimento profissional da mulher. A mãe que faz o impossível para o filho não sair de casa. O chefe que não permite ao empregado crescer dentro da empresa. A namorada que exige do parceiro 24 horas de dedicação incontestável e absoluta. A esposa que prefere deixar o marido alcoólatra beber em casa a ir ao bar. O avô que paga ao traficante as dívidas do neto. São exemplos genéricos, mas clássicos, de como a co-dependência --depender da dependência do outro em relação a si mesmo-- está tão profundamente enraizada no convívio social e familiar.

Originalmente, o termo co-alcoólatra foi designado para caracterizar as mulheres de alcoólatras, que, na década de 70, passaram a fazer reuniões paralelas às que seus maridos freqüentavam no AA (Alcoólicos Anônimos). Nesses grupos, elas perceberam possuir um denominador comum: toda a sua vida familiar girava em torno do dependente.

Uma pesquisa constatou que 97% das mulheres de alcoólatras preenchem o diagnóstico de co-dependência e possuem algum distúrbio de ansiedade (síndrome do pânico, fobia social). De acordo com Sergio Nicastri, coordenador do Programa Álcool e Drogas do hospital Albert Einstein, temendo perder o controle do sujeito subordinado, o co-dependente chega até a comprar ou pagar o vício do dependente. "Por isso existe a necessidade de tratar tanto o alcoólatra como a sua família", explica.

Para a psicanalista Lygia Vampré Humberg, a co-dependência deve ser encarada como uma doença crônica --assim como diabetes e hipertensão. "Portanto exige contínua vigilância" São nos grupos de auto-ajuda, como o Coda (Co-dependentes Anônimos) e o Mada, que os freqüentadores se descobrem controladores compulsivos e percebem que o que procuram são relacionamentos sofridos.

Sob o lema "Aprender a desenvolver relacionamentos saudáveis", os Co-dependentes Anônimos seguem a mesma cartilha do AA: viver um dia de cada vez sob alguns "mandamentos", como --e principalmente-- colocar-se em primeiro plano. Sempre.

Folha de São Paulo/ ANA PAULA DE OLIVEIRA



O marido que cerceia o crescimento profissional da mulher. A mãe que faz o impossível para o filho não sair de casa. O chefe que não permite ao empregado crescer dentro da empresa. A namorada que exige do parceiro 24 horas de dedicação incontestável e absoluta. A esposa que prefere deixar o marido alcoólatra beber em casa a ir ao bar. O avô que paga ao traficante as dívidas do neto. São exemplos genéricos, mas clássicos, de como a co-dependência --depender da dependência do outro em relação a si mesmo-- está tão profundamente enraizada no convívio social e familiar.

Originalmente, o termo co-alcoólatra foi designado para caracterizar as mulheres de alcoólatras, que, na década de 70, passaram a fazer reuniões paralelas às que seus maridos freqüentavam no AA (Alcoólicos Anônimos). Nesses grupos, elas perceberam possuir um denominador comum: toda a sua vida familiar girava em torno do dependente.

Uma pesquisa constatou que 97% das mulheres de alcoólatras preenchem o diagnóstico de co-dependência e possuem algum distúrbio de ansiedade (síndrome do pânico, fobia social). De acordo com Sergio Nicastri, coordenador do Programa Álcool e Drogas do hospital Albert Einstein, temendo perder o controle do sujeito subordinado, o co-dependente chega até a comprar ou pagar o vício do dependente. "Por isso existe a necessidade de tratar tanto o alcoólatra como a sua família", explica.

Para a psicanalista Lygia Vampré Humberg, a co-dependência deve ser encarada como uma doença crônica --assim como diabetes e hipertensão. "Portanto exige contínua vigilância" São nos grupos de auto-ajuda, como o Coda (Co-dependentes Anônimos) e o Mada, que os freqüentadores se descobrem controladores compulsivos e percebem que o que procuram são relacionamentos sofridos.

Sob o lema "Aprender a desenvolver relacionamentos saudáveis", os Co-dependentes Anônimos seguem a mesma cartilha do AA: viver um dia de cada vez sob alguns "mandamentos", como --e principalmente-- colocar-se em primeiro plano. Sempre.

Folha de São Paulo/ ANA PAULA DE OLIVEIRA

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Vício em sexo.

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Satiríase (em homens) e Ninfomania (em mulheres). Alguns autores classificam a ninfomania e a satiríase como um tipo de compulsão.
 
 A ninfomania implica em uma descompensação do desejo sexual feminino. A mulher sente um apetite intenso demais, permeado por fantasias sexuais que a perseguem a ponto de prejudicar suas atividades cotidianas. Esta perturbação psíquica enquadra-se nos transtornos conhecidos como Desejo Sexual Hiperativo (DSH) e se expressa através de uma ausência do controle da sexualidade.
A paciente é acometida por uma compulsividade sexual praticamente incontrolável, o que lhe provoca uma grande dor emocional e repercute diretamente em seus relacionamentos afetivos. Mas é de certa forma um exagero pensar que esta mulher quer praticar sexo incessantemente, ela apenas tem dificuldades na satisfação de seus desejos, daí alimentar constantemente a vontade de praticar o ato. Quando essa pessoa tem a consciência de seu problema e tenta disciplinar seus pensamentos e suas fantasias, torna-se deprimida e ansiosa. Torna-se cada vez mais difícil para ela libertar-se destes pensamentos, uma vez que a própria cultura ocidental canoniza o sexo, estimulando ainda mais as compulsões sexuais.
É comum a ninfomaníaca sentir-se desprovida de vontade própria, uma escrava de seus próprios desejos. Geralmente essa sensação vem acompanhada de muita ansiedade antes do ato sexual, de um orgasmo intenso e satisfatório no primeiro momento, seguido de uma culpa profunda. Mas quais as causas desse problema? Ele não deixa de ter raízes nos mesmos fatores que provocam as demais dependências, como a busca de um bálsamo para as feridas da alma, uma compensação para a solidão e para a inadaptação social, um paliativo contra o medo e as expectativas comuns na vida de cada um, as frustrações e tantas outras emoções sombrias. Mas vários pesquisadores compreendem esse transtorno também como uma doença, provocada por mutações no equilíbrio dos neurotransmissores.
No discurso psicanalítico, a ninfomania é conhecida como hipersexualidade, uma cristalização do desenvolvimento sexual na etapa anal, ou seja, no momento da evolução da sexualidade em que as ansiedades deslocam-se para comportamentos repetitivos. De acordo com a causa estabelecida para este transtorno, deve ser prescrito um determinado tipo de tratamento. Principalmente no mundo contemporâneo, quando o surgimento da Internet gerou outro tipo de compulsão sexual – o sexo virtual -, que atinge aproximadamente dois milhões de pessoas.
Com dificuldades para enfrentar seus distúrbios de sexualidade e ao mesmo tempo mergulhados em um temor crescente do outro, principalmente por conta da violência cada vez maior nas grandes metrópoles, estes indivíduos optam por passar horas sem fim na frente de um computador, navegando em sites com conteúdo sexual. Estas pessoas procuram, assim, satisfazer seus desejos a cada momento mais fortes, já que a compulsão ao vício é sempre maior, quanto mais elas submergem nos meandros da dependência.

Fonte: http://www.infoescola.com/sexualidade/ninfomania/

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade - TDAH

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Hiperatividade e Déficit de Atenção desde um olhar psicanalítico


A contribuição da psicanálise com relação a esta temática é de grande e fundamental importância, pois é através de seus aportes que se tem a possibilidade de resgatar o sujeito em sua subjetividade, recolocando-o em cena novamente. Para compreender o olhar que a psicanálise dedica à problemática, desde a perspectiva pela qual se optou, é importante situar, ainda que em breves linhas, a concepção teórica da qual se parte e de como se entende a constituição do sujeito psíquico.
Uma revisão dos princípios fundamentais da técnica psicanalítica com crianças vem sendo realizada por Bleichmar (1993, 1994, 1999) em seu trabalho teórico-clínico, a partir das novas propostas – surgidas com os trabalhos de Lacan e, principalmente, de Jean Laplanche, da Escola Francesa – de uma concepção não biologizante das origens do psiquismo humano.
Para esta autora, que trata de redefinir o conceito de neurose na infância partindo da concepção de um sujeito em estruturação, é fundamental ressituar o conceito de recalcamento originário e o lugar deste na constituição do aparelho psíquico. Para isto, parte da hipótese desenvolvida por Freud na metapsicologia (1915) em que ele postula o recalcamento  como o movimento fundante da diferença entre os sistemas inconsciente e pré-consciente/consciente, um processo que ocorre sobre as representações na fronteira desses sistemas, o que, para Bleichmar (1993), mostra a intrínseca relação entre inconsciente e recalcamento. Desta forma, a autora parte do pressuposto de que o inconsciente não está presente desde as origens do ser humano, mas que é produto de um grande movimento que abre as possibilidades tanto para sua instauração como para a do sistema pré-consciente. Este último caracteriza-se pelo funcionamento do pensamento em processo secundário (uso das categorias da linguagem, com temporalidade, memória, possibilidade de significar, historizar, operando com uma lógica que inclui negação, dúvida, isenção de contradição, terceiro excluído).
A autora lembra que o inconsciente freudiano, por sua vez, é definido por conteúdos bem específicos, tais como sexualidade infantil recalcada, e regido pelas leis do processo primário, o que implica a tendência a livrar-se das quantidades de excitação (energia pulsional livre, desligada) pelas vias mais diretas, de forma imediata e total. É a clivagem da tópica psíquica que abre as possibilidades de passagens transformadas entre os sistemas inconsciente e pré-consciente para acesso à consciência.
Em seu trabalho, Bleichmar (1999) faz um profundo desenvolvimento em cima da metapsicologia freudiana tomando dela aspectos retrabalhados por Jean Laplanche. Parte da concepção de que o psiquismo se constitui na relação intersubjetiva com o outro adulto em movimentos reais que são efeito da cultura.
Segundo sua proposta, e com base na teoria da sedução generalizada de Jean Laplanche, nos primeiros tempos da vida do bebê humano, há uma alteração radical do instinto sexual, ou seja, daquilo que é da ordem do biológico, da preservação da espécie, do autoconservativo (que a criança traz ao nascer). Isto ocorre com a instalação da sexualidade propriamente humana, que em psicanálise se denomina pulsão e é da ordem do prazer e do desejo, o que se dá na relação de cuidados que o adulto dispensa à criança, para a satisfação de suas necessidades vitais, através das zonas de intercâmbio, que só assim se tornam erógenas.
Estes primeiros tempos são os da constituição da pulsão para Bleichmar (1999), quando um excesso de excitação ingressa no aparelho incipiente a partir da satisfação das necessidades do autoconservativo. É o externo sexual materno que inscreve um interno excitante que vai exigir trabalho, descarga, alívio. E justamente porque pulsa e ataca desde dentro a criança (então objeto passivo), esse pulsional, essas quantidades de excitação, serão motor do progresso psíquico.  Este é o efeito da sexualização precoce inevitável que a criança sofre, em função da assimetria existente entre adulto e criança, pelo fato de o adulto já ter um aparelho constituído, já ter a sexualidade infantil recalcada, já ter atingido a genitalidade e, por isso, ser muito maior sua riqueza de conteúdos. Seguindo os aportes teóricos de Laplanche (1992), em decorrência disto circulam na relação com a criança mensagens sexuais enigmáticas verbais e não-verbais que são desconhecidas pelo próprio adulto (emissor), porque são originadas no inconsciente deste.
Do lado da criança, nesses primeiros tempos, seguindo as idéias de Laplanche (1992), o que existe são montagens adaptativas insuficientes; não há ainda um sujeito psíquico constituído, não há ainda um sujeito que possa dar conta desses enigmas, não há um ego unificado com representação totalizante de si, com recursos para dar sentido ao que ingressa. Na relação da criança com o adulto, quantidades de excitação são intrometidas  e não podem ser evacuadas a nível zero, quantidades essas que o aparelho incipiente terá que metabolizar e para as quais terá que encontrar formas de resolução.
É este sexual que ingressa que produz a vida psíquica; inicialmente o aparelho psíquico busca evacuar, derivar essa quantidade de excitação que nele ingressou e que é traumática e que, se não encontrar formas de ligação, deixa o sujeito entregue à compulsão de repetição.
As condições para a metabolização e ligação deste quantum de energia não surgem de um processo natural; elas precisam ser constituídas e também dependem da relação com o outro adulto. Para Bleichmar (1999), estão relacionadas com a função narcisizante do outro humano, que desde seu ego e seu narcisismo pode ver a criança como um todo, como um ser humano diferente de si, como alguém capaz de sentimentos e pensamentos próprios, propiciando-lhe condições para ir constituindo uma representação de si unificada, abrindo possibilidades de ligação das quantidades de excitação e de repartição de cargas por vias colaterais. Tudo isto vai complexizando o entramado de representações que constitui o ego, havendo somente a partir daí possibilidade de amor objetal.
Também é a partir da existência de um ego, que é correlativo do recalcamento originário, que vai ser possível inibir o funcionamento em processo primário, frear a livre circulação da libido, viabilizando um funcionamento mais articulado em nível de processo secundário e de produções simbolizantes (Bleichmar, 1999).
Constitui ainda pré-requisito para instalação do recalcamento originário a interposição de barreiras ao livre exercício pulsional, como nojo, vergonha, piedade, as quais também se constituem na relação da criança com o adulto, de quem ela não quer perder o amor. Mais tarde o recalcamento secundário – que tem a ver com o complexo de Édipo, constituição do superego e das instâncias ideais, a partir de identificações secundárias – irá consolidar o recalcamento originário.
Dentro desta visão, Bleichmar (1994, 1999) propõe em seus estudos diferenciar entre sintoma e transtorno, partindo da concepção de que esta diferença conceitual funciona como um guia metapsicológico para a clínica; por esta diferença diagnóstica determinar quando se está diante de um aparelho psíquico constituído ou não. Para isso, parte das idéias de Freud (1926) em que este define o sintoma como sendo um sinal e um substituto de satisfação pulsional que não aconteceu, sendo decorrente do processo de recalcamento, para operar esta diferença.
Sua idéia é que para uma manifestação de comportamento ser considerada um sintoma é preciso haver um aparelho psíquico clivado, isto é, diferenciado em sistema inconsciente e sistema pré-consciente/consciente, de modo que aí, sim, esta manifestação vai estar atravessada por um representante psíquico. Se o aparelho psíquico não terminou de se constituir e ainda não tem os sistemas bem definidos, estas manifestações podem ser consideradas transtornos, por serem anteriores à instalação da barreira do recalcamento e, portanto, não constituírem uma conciliação, uma solução de compromisso para um conflito que se caracterize por ser intrapsíquico, intersistêmico.
Também se faz importante marcar que Freud (1926) identifica uma diferença entre inibição e sintoma em que aponta que, no processo de inibição, este não implica necessariamente uma patologia, como no caso do sintoma. A inibição estaria no nível de uma alteração das funções do ego; já o sintoma implica um processo patológico por afetar a função, e haver um comprometimento de uma função do ego. Desta forma, todo sintoma acarreta uma inibição. Todavia, Bleichmar (1999) reforça bem esta discriminação enfatizando que nem toda inibição é um sintoma, mas que em todo sintoma há uma inibição.
A autora propõe esta questão justamente por considerar a hiperatividade e o déficit de atenção como manifestações que estão relacionadas a uma falha na estruturação do psiquismo, a uma falha na estruturação do ego e, portanto, em muitas situações, não constituírem um sintoma no sentido freudiano do termo, uma vez que o sintoma, ainda que patológico, sinaliza maior complexização psíquica.
Bleichmar (1999) entende estas manifestações como da ordem de uma falha egóica no sentido de que as manifestações de agitação, impulsividade e desatenção dão conta de um ego que não está exercendo suas funções de inibição e ligação das cargas libidinais. É um ego que não está operando com o funcionamento a nível de processo secundário nem com o princípio de realidade. Nele, a temporalidade, a negação, a dúvida e a lógica do terceiro excluído ainda não funcionam a pleno, e por isso deixam o sujeito entregue aos comportamentos que dão conta de um pulsional desligado, de um déficit de simbolização por uma falha na capacidade ligadora do ego que não possibilita metabolizar e teorizar o excedente do que invade o aparelho psíquico.
Dentro do que propõe Bleichmar (1999), a hiperatividade e o déficit de atenção têm a ver com algo que não se constituiu no ego, com algo que falhou na estruturação do aparelho psíquico. Por isso, faz-se necessário um trabalho que busque resolver essas falhas de base. É necessário cada vez mais aprofundar os estudos e a compreensão metapsicológica destas manifestações psicopatológicas; para isso, é importante entender como o externo se faz interno, como o que ingressa de fora se processa, se inscreve e circula no aparelho psíquico, tanto aquilo que vem do outro como o que vem do social.
Da mesma forma, Sigal (2004) entende que, para dar conta dessas patologias da atualidade, é preciso aprofundar os estudos metapsicológicos. Ao pensar de que modo o arcaico se instalou e como operacionalizou a prioridade do outro na instalação do pulsional caso a caso é que se pode ter maior compreensão de situações nas quais os elementos não puderam ser traduzidos  e, por isso, ficaram sem sentido, sem ligação.

Fonte: http://www.constructo.com.br/web2/index.php?option=com_content&view=article&id=57:hiperatividade-e-deficit-de-um-olhar-psicanalitico&catid=42:artigos