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sexta-feira, 31 de julho de 2015

TRANSTORNOS ALIMENTARES

anorexia 2









Os distúrbios alimentares figuram entre as patologias psiquiátricas que vêm apresentando maior crescimento em termos de incidência na população. Quem já se aproximou desse universo talvez tenha constatado a sua gravidade, em termos dos prejuízos físicos, psíquicos, afetivos e sociais. Não é apenas o corpo que se torna anoréxico. Todo o psiquismo adoece no sentido da perda de vitalidade, de apetite e do prazer. Sobre esse complexo tema, vale conferir a entrevista com a psicanalista Marina Ramalho Miranda*, que vem se dedicando ao estudo do tema.


Como a psicanálise entende e avalia o recente crescimento na incidência de casos de transtornos alimentares (TA’s)?
Embora os transtornos alimentares, entre eles, as anorexias e as bulimias, sejam novas vestes para antigas patologias, não há quem não perceba esse aumento da sintomatologia em nossos dias.
Tanto na literatura sobre o tema, quanto em minha experiência, existe uma concordância de que uma multiplicidade de fatores combinados é responsável pelo surgimento dos transtornos alimentares e penso que quando pesquisamos sobre o aumento na incidência deles em nossos consultórios, hospitais e serviços de saúde mental, temos que considerá-los em conjunto.
Os fatores que compõem a etiologia dos transtornos alimentares são os constitucionais (genéticos e biológicos), psicológicos (intra-psíquicos), familiares e sócio-culturais.
Pensemos juntos, em que tempos vivemos, atendo-nos nesse início de conversa a essa dimensão.
Como um dos temas prediletos da atualidade, o corpo reina absoluto quando se conjectura sobre o tão falado trinômio juventude-beleza-saúde, pondo em risco a dimensão da mente, ou seja, corpo e mente que deveriam estar juntos e em fluente integração começam a ficar destacados um do outro, e o corpo (e seus correlatos, como a sua nutrição, aspecto, vestimentas, etc.), gradativamente assume uma posição-alvo de exigências de perfeição e controle, sem que as pessoas se dêem muito conta dessa dinâmica de hipervalorização .
Este cenário cria uma espécie de “inter-patrulhamento” da aparência física, e, em particular, no que diz respeito ao volume corporal (será que estão implícitos nessa preocupação questionamentos a respeito do espaço e lugar que ocupa no mundo?) Daí, o próximo passo recai sobre a alimentação. As mulheres, mais do que os homens, são afetadas e fiscalizadas na difícil missão de manter um corpo eternamente jovem, belo, saudável e… magro! Dietas severas de emagrecimento proliferam em todos os cantos e discursos e acabam por ficarem misturadas com a solução para o alcance não só do corpo magro e aceito, mas da felicidade e sucessos almejados.
A psicanálise entra na roda nesse momento, em que a comida e a alimentação perdem seu sentido de combustíveis para a vida, deixam de estar a serviço do viver e como num espiral estonteante entram numa alquimia culinária e se transformam em emoção, medos, horrores, enfim toda sorte de afetos. Ela mergulha na especificidade dos vínculos familiares de cada paciente atendida, especialmente na relação entre as mulheres, nutridoras por natureza, mãe-filha-irmã (muitas vezes a avó também participa, contribuindo para o trabalho), coadjuvantes essenciais do processo psicanalítico, pois temos hipóteses de que esses vínculos já vêm sofrendo dificuldades antigas na troca afetiva, tornando-se mais vulneráveis e porosos às influências do emocional ambiental .
Em termos gerais, na anorexia e na bulimia surge a declaração de uma guerra contra a gordura, que passa a ser a principal vilã de suas vidas. Na obesidade, a comida pode ocupar o lugar da falta, preencher um vazio, amenizar um vácuo que nada tem a ver com a comida em seu sentido concreto, saciar uma fome que vem de outros lugares (ou não-lugares), territórios a serem explorados em companhia.
Mary Del Priore (2000), historiadora, defende a ideia de que hoje a história das mulheres passa pela história de seus corpos e com humor, observa:
“Diferentemente de nossas avós, não nos preocupamos mais em salvar nossas almas, mas em salvar nossos corpos da desgraça da rejeição social. Nosso tormento não é o fogo do inferno, mas a balança e o espelho.”
Há, entre os médicos, uma controvérsia sobre a psicanálise ser um método indicado para tratar pessoas com TA’s. Qual a sua posição? Pela sua experiência clínica, a psicanálise pode ser um método efetivo?
Constato, a partir de meus estudos teórico-clínicos e das inúmeras pesquisas que encontramos na Universidade e na SBPSP, e especialmente, a partir da experiência clínica de atendimento à(o)s pacientes e sua família, que o tratamento psicanalítico dos transtornos alimentares não só é indicado, mas completamente imprescindível. Sustento a ideia de que a presença do psicanalista integrando a equipe multidisciplinar de atendimento abre frestas no mundo hermético dos transtornos alimentares, favorecendo a revisitação e o exercício da linguagem falada, reaproximando essas mentes sofridas e danificadas pela força de defesas destrutivas que as isolam e enclausuram, reconduzindo-as ao mundo da interação fértil. A viva troca nutritiva que a presença e a linguagem instauram conduz ao reino do pensamento simbólico, ao reino do sonhado e do imaginado, tão inibidos no universo dos transtornos alimentares.
Será o psicanalista que irá oferecer uma escuta que se concentra na investigação do que não pôde ser dito ou do que não pôde ser ingerido (ou absorvido em excesso), do que não aparece (ou do que desnuda), do que está interditado (ou do que transborda) permanecendo desconhecido e estranho à compreensão do paciente, que por sua vez se alivia ao descobrir que seus sintomas não serão vistos como doença e sim como sinais indicativos de que algo muito sério aconteceu em algum momento de sua vida, alterando o rumo de desenvolvimento a ser seguido. A(o) paciente fala pelo corpo e com o corpo. O comer o nada ou o tudo devorar, o vomitar e expurgar são tomados como pistas a serem seguidas ou como rastros de conteúdos emocionais brutos, contraditórios, que entraram intrusivamente em seu interior e pedem para serem remastigados. A abordagem psicanalítica, com seu approach que caminha na interioridade, num movimento de olhar de dentro para fora, lê o corpo da paciente com transtorno alimentar como uma tela onde está estampada sua história pessoal. Está atenta às variações da linguagem não-verbal, não se contentando com as expressões atuadas comportamentais, mas tentando acompanhar cada paciente na individualidade e singularidade de suas expressões que, muitas vezes, se apresentam pelo avesso.
Esta tarefa pertence à psicanálise… as pessoas que sofrem desses distúrbios sentem fome desse tipo de compreensão, que se dirige para além do corpo e das comidas e se aliviam ao finalmente experenciá-la.
Um dos sintomas mais difíceis nos TA’s são as distorções da auto-imagem corporal. Sendo um método verbal, o tratamento analítico tem como chegar nesse tipo de sintoma?
Quanto mais intensas forem as distorções da imagem corporal, maior a gravidade desses quadros, pois ficam mais evidentes a força e a intensidade das fantasias que, alterando a percepção de si retiram o indivíduo do acesso ao seu próprio conhecimento e da sua interação com o mundo, deformando a experiência e a impregnando de sensações de desprazer o tempo todo. Continuamos no terreno de contribuições da escuta e da fala psicanalíticas.
Para a psicanálise, e na sua opinião, faz sentido pensar que a nossa cultura de valorização extrema da magreza seja de fato um fator desencadeante da doença? Ou são os conflitos internos e inconscientes os maiores determinantes?
Na resposta à primeira pergunta, aponto a inter-relação de múltiplos fatores agindo conjuntamente para a eclosão de um transtorno alimentar. Não dá para dizer que um deles é mais desencadeante do que o outro. Daí a importância do atendimento em equipe, que tenta mergulhar e dar um espaço especial a cada dimensão e consequências dos transtornos: a medicina, com ênfase na psiquiatria, muitas vezes a endocrinologia, a ginecologia e a cardiologia , a nutrição com sua nuclear contribuição, a orientação familiar, o educador físico auxilia bastante quanto à regulação dos exercícios físicos, que, unidos junto ao profissional psi vão formar uma espécie de família-prótese e comporão um modelo de união de esforços em contraposição a atitudes de patrimônio do atendimento.
Os sintomas dos TA´s são característicos de alguma estrutura psíquica em particular (neurose, psicose, perversão, etc) ou eles transcendem esse tipo de classificação?
Essa pergunta colocada em último é muito acertada, pois é ilustradora do que foi discutido nas anteriores. Na sequência da 4ª reposta, o leitor já pode responder por si essa questão, percebendo a multiplicidade de dimensões encontradas nos transtornos alimentares.
A partir de toda essa complexidade discutida e da especificidade e singularidade de cada situação, como enquadrar esses fenômenos alimentares numa mesma classificação? Como apertar um indivíduo tão singular em seus sinais de perturbação dentro de uma categoria nosológica isolada?
Até os manuais médicos de diagnóstico tem para as anorexias e bulimias um lugar especial e onde elas existem por si dentro do índice geral dos transtornos da alimentação.
Os transtornos alimentares, e em especial, as anorexias e as bulimias, fazem um passeio por entre as variadas psicopatologias referidas pela psiquiatria e não se encaixam em nenhuma delas, ao mesmo tempo em que as contemplam, nos mais diferentes graus.
Sintomas de alto sofrimento para quem deles se aproxima, mas que se forem acolhidos por companhias com um bom apetite para o trabalho, culminarão em nutrição saudável para todos.


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Os vários tons do gozo e do prazer

Revista Psique, edição 84

Freud reconhece que há algo para "além do prazer", que seria exatamente aquilo que nomeou de pulsão de morte, tendo a compulsão à repetição como uma de suas principais expressões para a construção do conceito de gozo por Lacan

Por Arthur Figer


Acrescento que a oposição entre o prazer e o gozo é essencial. O princípio do prazer aparece, de algum modo, como uma barreira natural ao gozo e, portanto, a oposição se estabelece entre a homeostase do prazer e os excessos constitutivos do gozo (Miller, 2012, p. 14)

Arthur Figer é psicanalista e mestrando em
Psicologia Clínica pela PUC-Rio.
Atende em consultório
particular no centro do Rio de Janeiro.
Site: www.arthurfiger.psc.br
Temos observado na atualidade um tipo de exigência de satisfação irrestrita, que reflete bem a tônica da nossa chamada “sociedade do consumo” contemporânea, ou “sociedade do excesso”. O “supérfluo”, o “descartável”, o “excesso” e o “ilimitado” são marcas características da nossa cultura. Ipod, Ipad e Iphones 1, 2, 3 e 4 ilustram bem o que queremos dizer. O equivalente desse fenômeno cultural tão atual, pensado a partir da teoria e da clínica psicanalíticas, nos remete ao conceito de “gozo”, teorizado pelo psicanalista francês Jacques Lacan a partir, pasmem, do final da década de 1950.
“Goze!” Sim, segundo Lacan, é isso o que ouvimos, tanto externamente (voz da cultura) quanto internamente (voz do supereu). Não amanhã, não daqui a pouco, não parcialmente, mas sim aqui, agora e integralmente, até o limite (ou além). O que importa é o prazer imediato e ilimitado, sem contenção e sem barreira. O que se busca é gozar a qualquer preço. “Por que resistir às tentações?”, pergunta um cartaz afixado em um restaurante a quilo no centro da cidade. “Pecado é tentar resistir...”, afirma uma faixa na entrada de uma loja de doces. Ou seja, “goze!”.
Para o Marquês de Sade, o gozo se trata apenas de usufruto, e não de propriedade. Para ele, apesar de não haver o direito de propriedade sobre o corpo, há o direito usufruí-lo, durante o tempo que isso lhe der prazer
É como se hoje em dia o gozo estivesse levando vantagem sobre o prazer. O triunfo do gozo sobre o prazer: podemos inferir que está aí uma das possíveis razões por trás do estrondoso sucesso da trilogia erótica 50 tons, também conhecido como “o pornô das mamães”. O primeiro volume de 50 tons de cinza passou de 10 milhões de livros vendidos nas seis primeiras semanas do lançamento. A narrativa descreve, em ricos detalhes, as aventuras eróticas de uma jovem estudante de 21 anos, com um magnata sedutor mais velho. Como se não bastasse para cativar os leitores, dois ingredientes picantes especiais são adicionados neste relacionamento: ela é virgem e ele adepto de práticas sadomasoquistas. Tendo êxito em mesclar, tão bem, a inocência da moça virgem com a perversão do rapaz sadomasoquista, a autora consegue exercer um verdadeiro fascínio em seus leitores, principalmente da ala feminina. Sem nos estender muito nessa questão, que não é foco deste artigo, uma das explicações possíveis para a predominância das mulheres dentre os leitores deste romance, em nossa opinião, diz respeito mais a certas características do feminino que as levam a preferir algo mais sutil e discreto, quando o assunto é pornografia, do que qualquer outra coisa.
• Precursor do sadismo •Marquês de Sade foi um aristocrata francês e escritor libertino. Muitas das suas obras foram escritas enquanto estava na Prisão da Bastilha, encarcerado diversas vezes, inclusive por Napoleão Bonaparte. De seu nome surge o termo médico sadismo, que define a perversão sexual de ter prazer na dor física ou moral do parceiro ou parceiros. Foi perseguido tanto pela monarquia (Antigo Regime) como pelos revolucionários vitoriosos de 1789 e depois por Napoleão.
O empuxo ao gozo na atualidade é forte e cada um se vira como pode. Parecendo captar bem esse fenômeno cultural, a autora do best-selleraborda, com linguagem simples e acessível, um relacionamento recheado de práticas sadomasoquistas, conduzindo seus leitores, de forma sutil, quase imperceptível, ao fascinante campo do gozo, do proibido e da transgressão. As práticas sadomasoquistas, para a Psicanálise, pertencem ao campo das perversões e do gozo. Isso, sem dúvida, exerce forte atração, principalmente naquelas mulheres acostumadas com a rotina, com o prazer limitado, com o “socialmente aceito” e o “politicamente correto”. Mais de 20 orgasmos em apenas três semanas é o que experimenta a jovem protagonista do livro. Esta é a contabilidade do gozo em 50 tons de cinza. Quem não se interessaria?
Em seu uso cotidiano, o termo gozo reveste-se, principalmente, de uma dimensão jurídica e outra sexual. No vocabulário jurídico remete à noção de usufruto, ou seja, ao direito de gozar de um bem, gozar de férias etc. Essa conotação jurídica do termo gozo opõe claramente gozo e propriedade. Oposição esta que o Marquês de Sade reforça quando afirma “tenho o direito a gozar do teu corpo”, porém “somente durante o tempo que isso me der prazer”, ou seja, trata-se apenas do gozo e não da propriedade do corpo. Em sua conotação sexual, gozo e gozar tornam-se sinônimos de prazer, mais especificamente da expressão máxima do prazer sexual. Não por acaso, o psicanalista francês Jacques Lacan escolheu o termo “gozo” (jouissance, em francês), palavra que possui conotação sexual, tanto em português quanto em francês, para nomear o conceito psicanalítico que inventara. Para ilustrar a importância do caráter sexual do gozo lacaniano, o termo jouissance foi utilizado sem tradução na maioria das edições inglesas da obra de Lacan. Isso se deve ao fato de não haver, na língua inglesa, um significante capaz de expressar tal aspecto sexual do conceito psicanalítico de gozo. A palavra inglesa que mais se aproximaria seria enjoyment. Como contribuição psicanalítica à língua inglesa, o termo jouissance passou a figurar no tradicional dicionário Oxford.

Jacques Lacan escolheu o termo “gozo”, palavra que possui conotação sexual, para nomear o conceito psicanalíticoque inventara

O princípio de prazer é um dos dois princípios do funcionamento mental apresentados por Freud em seus escritos metapsicológicos (o outro é o princípio de realidade), sendo caracterizado, resumidamente, pela evitação da dor, do desprazer, e a busca pelo prazer, visando manter a excitação do aparelho psíquico no menor nível funcional possível. Prazer, para Freud, está relacionado à diminuição da quantidade de excitação no psiquismo, enquanto que o desprazer adviria do aumento desta quantidade.
Arte de transgredir Segundo Lacan, o conceito de gozo remete à ideia de um excesso, de uma transgressão (da lei), de um “ir além dos limites” ou “além do prazer”, como preferiu Freud ao dar título ao seu texto de 1920, “Além do princípio de prazer”. Este é considerado um divisor de águas na teoria psicanalítica que, até então, considerava o “princípio de prazer” como princípio regulador do aparelho psíquico, o qual conduziria o indivíduo à busca pelo prazer e à evitação da dor. A partir da publicação deste trabalho, Freud reconhece que há algo para “além do prazer”, que seria exatamente aquilo que nomeou de pulsão de morte, tendo a compulsão à repetição como uma de suas principais expressões.
O princípio de prazer, segundo Freud, é caracterizado, resumidamente, pela evitação da dor, do desprazer, e a busca pelo prazer, mantendo a excitação do aparelho psíquico no menor nível funcional possível
Pode-se dizer que a pulsão de morte e a compulsão à repetição representam as principais bases teóricas referenciais na obra de Freud que serviram de matéria- prima para a construção do conceito de gozo por Lacan. O gozo, portanto, é aquilo que está para além do princípio de prazer, que é da ordem do excesso, da transgressão, e que, segundo Lacan, é causa de sofrimento.
Fazendo coro à importância do tema em questão, tanto na teoria como na clínica, a psicanalista Ana Maria Rudge, em seu artigo “Pulsão de morte como efeito de supereu” (2006, p. 79), diz que a questão da constituição desta força que empurra o homem para a dor e para o sofrimento constitui o tema central na obra freudiana. “Pela irresistível atração pelo sofrimento que as caracteriza, essas manifestações clínicas foram o estopim para a maior reformulação da teoria freudiana, aquela que introduziu a segunda tópica e, no seio da nova teoria pulsional, a pulsão de morte, noção tão ambígua, controvertida e com frequência recusada, explicitamente ou não, por tantos psicanalistas.”
Para nos auxiliar na compreensão deste conceito-chave da obra lacaniana, o gozo, vejamos como este se relaciona com o princípio de prazer de Freud.
Fronteiras do prazer Pode-se dizer que o princípio de prazer funcionaria como uma espécie de limite ao gozo. De acordo com o princípio de prazer, o sujeito deveria “gozar apenas o possível”, para que não adviesse o desprazer. Sendo o conflito psíquico a base da teoria freudiana, e considerando- -se a impossibilidade de compatibilidade harmoniosa entre pulsão e cultura, o sujeito insistentemente almeja transgredir as proibições impostas ao seu gozo para ir “além do princípio de prazer”. Entretanto, o resultado desta transgressão ao princípio de prazer não é mais prazer, senão dor, pois o que é prazer por um lado, por outro é desprazer. Além deste limite, o prazer é acompanhado de dor, e este “prazer dolorido” é o que Lacan nomeou de gozo. Serge Cott et (1989, p. 21) coloca a questão da seguinte forma: “(...) há uma zona do prazer que é perigosa, essa zona que tende a ir para o gozo e que o princípio do prazer bloqueia”.
Percebemos, assim, que o princípio de prazer pode ser encarado como uma espécie de “guardião” de um estado de homeostase e constância, o qual o gozo insistentemente ameaça romper. Essa insistência é descrita por Freud através do fenômeno que nomeou de compulsão à repetição e que pode ser designado como uma espécie de retorno de um excesso (gozo), que insiste em retornar, visando transgredir os limites impostos pelo princípio de prazer.

O princípio de prazer é um dos dois princípios do funcionamento mental apresentados por Freud em seus escritosmetapsicológicos

• Homeo similar ou igual •Homeostase é a propriedade de um sistema aberto, seres vivos especialmente, de regular o seu ambiente interno para manter uma condição estável, mediante múltiplos ajustes de equilíbrio dinâmico controlados por mecanismos de regulação interrelacionados. O termo foi criado em 1932 por Walter Bradford Cannon, a partir do grego homeo similar ou igual, stasis estático.
Uma vez que o princípio de prazer está relacionado à proibição, à lei e à regulação, podemos posicioná-lo no registro do simbólico, enquanto que o gozo encontra-se do lado do real. A partir do momento em que a lei é instaurada, instituída, toda transgressão implicará um gozo – porque goza-se na transgressão –, e isso acarreta uma dívida; em outras palavras, gozar tem seu preço. E este preço, frequentemente, é pago com a própria vida. Vejamos o que diz Cott et (1989, p. 29): “(...) aí, a partir desse momento, o sujeito pode preferir o gozo à vida, e é por isso que temos um complexo do gozo compatível com a aceitação da morte, isto é, de um imperativo de gozo mais forte do que a vida”.
Trechos extraídos de algumas notícias veiculadas sobre a morte de uma estudante de 20 anos em um cruzeiro universitário, em 2008, servem para ilustrar e trazer a teoria para o dia a dia: “Amostras de sangue do corpo da estudante de 20 anos, que morreu a bordo de um cruzeiro universitário, foram levadas para serem analisadas pelo Instituto Médico-Legal (IML). (...) afirmaram que houve consumo de drogas durante a viagem. (...) O delegado da Polícia Federal em Santos, no entanto, não descarta a possibilidade de que a passageira tenha morrido por ingestão conjunta de álcool e drogas. A estudante morreu em consequência de asfixia por aspiração de líquido – vômito – segundo o laudo do IML”.
A entrada do sujeito na ordem simbólica (linguagem) é condicionada a uma certa renúncia inicial de gozo (castração), quando o sujeito desiste de ser o falo imaginário da mãe. Com efeito, o princípio de prazer é a proibição do incesto, o que regula a distância entre o sujeito e a Coisa (Das Ding).
Ao se abrir mão do desejo, mais precisamente do desejo incestuoso, ingressamos definitivamente no campo do gozo, uma vez que há uma traição do desejo – ou seja, uma sublimação. Sobre isso, Lacan diz o seguinte (1991, p. 386): “Sublimem tudo o que quiserem, é preciso pagar com alguma coisa. Essa alguma coisa se chama gozo”. Além disso, abrir mão do desejo incestuoso significa que a lei se instaurou para o sujeito e, a partir daí, há o que se transgredir (a própria lei). Toda proibição faz surgir o desejo de transgressão, e o gozo é fundamentalmente transgressivo.

Referências
BRAUNSTEIN, N. Gozo. São Paulo: Escuta, 2007.
COTTET, S. O paradoxo do gozo. Salvador: Fator, 1989.
LACAN, J. Kant com Sade. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
_______ (1959-60) O seminário. Livro 07: a ética da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar,1991.
MILLER, J. A. Os seis paradigmas do gozo. In: Opção Lacaniana online nova série. Ano 3 - n. 7, 2012.
RUDGE, A. M. Pulsão de morte como efeito de supereu. In: Ágora (PPGTP/UFRJ), Rio de Janeiro, v. IX, n. 1, p. 79-90, 2006.

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