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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

MAIS LOUCOS E PERVERSOS DO QUE NOS IMAGINAMOS


POR: CLARIANA ZANUTTO  /  28/02/2014
FOTOS RODRIGO BRAGA/3FILMGROUP
Foi com seu mestre, o psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981), que Contardo Calligaris aprendeu que 
o transtorno mais grave que uma pessoa pode ter é ser, digamos, “normal”. Consequentemente, aprendeu também o pupilo que, para ser saudável, o ser humano necessita ter, ao menos, uma neurosezinha aqui e outra ali. Assuntos como esses fascinam tanto Contardo que, aos 65 anos, o psicanalista italiano, nascido em Milão, mas radicado no Brasil desde os anos 1980, assume continuamente o seu maior gosto: trabalhar. Não é fora do comum, portanto, encontrá-lo em seu consultório durante 12 horas diárias e saber que, no tempo restante, além de poucas horas dedicadas ao sono, ele ainda faz exercícios, lê três livros por semana, produz uma coluna semanal para a Folha de S.Paulo e ainda preserva suas idas a cinema, teatro e restaurante. Quer mais? De um ano para cá, ele vem se dividindo entre os roteiros e as gravações da série Psi, que estreia dia 23 deste mês no canal HBO Brasil – e simultaneamente em mais 22 países da América Latina –, e é baseada em seus livros O conto do amor e A mulher de vermelho e branco. Em foco estão as aventuras de Carlo Antonini (vivido por Emílio de Mello), psicólogo, psiquiatra e psicanalista que tem a vida fora do consultório destrinchada junto com a história de outras personagens que exemplificam diferentes perfis psicológicos.

Membro da Escola Freudiana de Paris há quase quatro décadas, Contardo Calligaris não se importa em chocar seus colegas freudianos e lacanianos ao revelar que gostaria de fazer um ano de pscioterapia junguiana, assim como também não tem problema algum em encarar a sociedade ao expressar que a infância é uma idade totalmente idealizada e que as crianças são seres extremamente cruéis. Completa a descrição dizer que ele é encrenqueiro, intervencionista, gosta de se meter em brigas – claro que não como há 30 anos – e de resolver problemas sobre os quais não foi pedida sua opinião. Enfim, o psicanalista está bem longe de ser a pessoa normal que tanto abomina. Sorte a nossa! Afinal, Lacan não estava errado em dizer que a vida é realmente mais interessante quando há uma neurosezinha aqui e outra acolá.

Por muito tempo você teve oportunidades, mas optou por não adaptar os livros 
O conto do amor e A mulher de vermelho e branco para o cinema ou TV. O que, dessa vez, fez com que você mudasse de ideia? 
É uma pergunta interessante. Primeiro, porque, claro, é uma mudança de ofício, mas, enquanto romancista, eu sou um contador de histórias. Não sou fascinado por nenhum experimentalismo. Então, um seriado é uma maneira de contar uma boa história e, sobretudo, construída ao redor de personagens que têm de ser sólidos, porque eles têm de durar de alguma forma, pelo menos o personagem principal. Isso, no fundo, não é muito afastado do trabalho do narrador e do romancista. Tem uma grande diferença que é de ser um trabalho coletivo; então, é preciso, realmente, se acostumar a isso, porque o romancista é Deus e todo mundo. Não tem problema, mas o escritor de cinema, sobretudo do Brasil, é inserido em um processo muito mais complexo. Agora, ainda por cima do ponto de vista da televisão brasileira, foi uma coisa relativamente nova. Aliás, na verdade, absolutamente nova como tipo de seriado brasileiro. Acho que nunca foi feito algo parecido. Não tem! Então, nasceu essa ideia, e procurei alguém que escrevesse comigo, porque é uma tarefa hercúlea. O roteiro de uma série de 13 episódios tem 800 páginas, não menos do que isso, em várias versões e andando em companhia. Mas, rapidamente, me encontrei com Thiago Dottori, que é o roteirista com quem, aliás, eu continuo trabalhando a segunda temporada.

O que as pessoas que já conhecem o personagem Carlo Antonini vão encontrar de diferente em Psi? 
Várias coisas. Primeiro, os amores e os amigos são completamente diferentes, porque ele não mora mais em Nova York, voltou para São Paulo. Mas, no fundo, espero que eles encontrem certa permanência que é ele: essa figura um pouco bizarra, um cara que é psiquiatra, psicólogo, psicanalista – geralmente existem casos famosos, mas são poucos. Na maioria das vezes, alguém é ou psiquiatra e psicanalista, ou psicólogo e psicanalista, mas as três coisas são mais raras juntas. E um cara que tem um espírito, pelo menos aventureiro, tanto na sua prática quanto com poucas obediências de qualquer tipo, inclusive, de alguma forma, morais. Não por isso ele seria um devasso – não é nada disso, ao contrário. Mas digo “morais” no sentido em que acha que as escolhas morais são questões próprias, singulares de cada um. E um fascínio com essa profissão. Fascínio no bom sentido, não no sentido de ficar boquiaberto – é um pouco burro –, mas um interesse muito grande pela diferença extrema que, na verdade, é sempre muito menos extrema do que parece. É muito mais próxima, muito mais parecida com a gente. E essa relação com a diversidade da vida acontece na clínica, mas acontece também na sua vida cotidiana, na sua vida amorosa, por exemplo. É um cara que se aventura, faz escolhas amorosas que podem parecer um pouco bizarras.

E você também acompanhou as gravações? 
Totalmente. Mas, em certos momentos, foi complicado... Na segunda temporada, acho que vou ter que levar isso mais a sério porque, fisicamente, a massa de trabalho foi superior, muito superior, ao que eu vagamente imaginava, como número de horas. As noturnas acabam às 4h30, 5h da manhã. Mas, tudo bem, digamos que, às 2h, eu desistisse, mas às 7h30 estava no consultório.

Não podia abandonar nem o consultório e nem as gravações... 
Claro, mas, na segunda temporada, certamente vou, durante a produção propriamente dita, suspender os atendimentos. Não tenha dúvida! Porque, se não, caso eu não suspenda, não tem como. Tem isso. E tem antes e tem depois. Porque você não para de escrever ao longo, sempre tem o “vamos mudar essa cena, vamos fazer aquilo, se muda aquilo tem que mudar o outro e companhia”. Participei muito ativamente de todo o processo de edição. E aí você realmente aprende! E olha que tenho um passado ligado ao cinema, digo, eu fui tudo, até figurante. Fui figurante muito cedo, de Barbarella [filme dirigido por Roger Vadim, em 1968] e de alguns outros horrores cujo título nem me lembro. Já fui gladiador romano, já fui várias coisas quando morava em Roma.

Essa curiosidade do Carlo por situações diferentes, de sair atrás de um problema e tentar resolvê-lo, também existe em você? Sim. Ou, então, quando não tem um problema, criá-lo (risos). Que também é outra maneira de ter que sair atrás de um problema. Sim, sou intervencionista, sou encrenqueiro, sou do tipo que, se tem uma briga, me meto. Sou briguento. Paguei a metade da minha faculdade com uma bolsa pelo boxe. Fui campeão suíço universitário. Só para dizer que sou encrenqueiro.

Nada como uma boa confusão então... 
Gosto de uma pequena confusão, sim. Muito menos agora do que há uns 25, 30 ou 40 anos. Mas ainda entro em alguma confusão. Compro briga, sim. Peito!

E você, assim como ele, também tem repulsa pelo que é normal? 
Também. Aprendi isso com o meu mestre, [Jacques] Lacan. Eu segui, durante muitos anos, as apresentações de pacientes que ele fazia a cada sexta-feira, ao meio-dia, no [Centre Hospitalier] Sainte-Anne, em Paris. Uma apresentação de paciente, você sabe o que é? Um paciente que foi internado, o residente que se ocupa desse paciente tem questões, então, ele é apresentado. Lacan apresentava-o para um público limitado, de pessoas convidadas, autorizadas, digamos que eram umas 70 pessoas, mais ou menos. Fiz isso no Hospital Raul Soares, na Clínica Pinel, em Porto Alegre, em Rosário. Existe cada vez menos, e é uma pena, porque é um instrumento pedagógico incrível. E também porque não existem mais hospitais psiquiátricos no sentido tradicional. Cada vez menos existem. Então, uma vez, Lacan disse sobre um paciente: “Qual é o problema dele?”. O residente falou: “Não consigo diagnosticá-lo”. E Lacan disse: “Ele é absolutamente normal”. Todo mundo deu uma risadinha, e Lacan acrescentou, o que deixou uma espécie de frio entre nós: “De todos os diagnósticos, a normalidade é o diagnóstico mais grave, porque ela é sem esperança”.



Então, a “normalidade” é um transtorno como outro qualquer...

Certamente. Não... Na verdade, é mais grave.

E o que é ser “normal”?
Pois é... Será que as pessoas querem ser normais? Normais ou não julgadas? Eu acho que o neurótico médio – que somos todos nós – sonha, idealiza o louco. Ele acha que o louco é “o cara”. E sonha em ser perverso. Ou seja, em ser alguém que realmente não teria todos os impedimentos que a neurose nos coloca, ou seja, os registros de culpa, as inibições. O que é uma pessoa normal? Uma pessoa realmente normal é uma que tem um registro de experiência miserável, extremamente pobre. Pode ser que seja relativamente pouco sofrido, mas é também dramaticamente desinteressante. Às vezes, quem pode ser normal são pessoas que têm ou tiveram uma insuficiência cultural-afetiva muito grande. Então, não conseguem... Não é elaborar a experiência no sentido de falar as suas experiências, mas sabe aquela coisa que você atravessa a vida, vê as coisas e isso não lhe evoca nada? Tudo acontece como está acontecendo e isso não me evoca nenhuma lembrança. Normal é quem não tem nada disso. É quem tem uma experiência miserável, no sentido de pobre. Um registro de experiência extremamente pobre.

Não tem interesse também? 
É a mesma coisa. Interesse muito limitado. Por exemplo, o sexo parece ser fisiológico. Ausência de fantasias sexuais. O sexo é: “23h30 a gente apaga a luz, está na cama, transa”. Está previsto.

E essa normalidade é atribuída ao quê?
De certo ponto de vista, aquilo pode ser considerado um tipo de saúde mental. Porque você, sem dúvida, tem um nível de tormento individual, de angústia, muito menor do que o neurótico médio. Mas, geralmente, aquele tipo de normalidade é construída de maneira extremamente sólida e eficiente em cima de um vulcão adormecido. 

Pensando dessa maneira, uma neurose é sempre interessante. 
Somos todos neuróticos, em tese. Graças a Deus, realmente normais são muito poucos. Somos todos neuróticos. Mais loucos do que nos imaginamos – loucos, digo psicóticos –, e em certo número, somos todos, enquanto neuróticos, capazes de ser perversos de vez em quando. O problema mais interessante não é o de viver tranquilo, é o de ter uma vida interessante. Isso que é importante. Inclusive, a que uma psicanálise se propõe? Se propõe a tornar a vida de alguém mais interessante. Não garanto que os meus pacientes venham, sei lá, a sofrer menos ou a ter uma vida mais tranquila. Aliás, o que eu espero é que tenham uma vida mais interessante.

Existe algo como uma cura ou alta, do ponto de vista da psicanálise, para os pacientes?
Existe, mas é uma transformação. Porque na medicina, em tese, curar significa trazer você ou levar você a uma espécie de volta à situação anterior. Quer dizer, você está com gripe, você quer ficar como antes da gripe. No campo “psi”, isso não existe. Você tem uma depressão, você não vai poder voltar ao que era antes da depressão. Pode se tornar outra coisa, que não é nem a depressão que você tem agora, nem o que você era antes. O processo é transformador. Então, “curar” é sempre um pouco problemático. E, além do mais, a apreciação é subjetiva, porque, afinal, é o paciente quem vai dizer que está melhor ou que está suficientemente bem para poder, por exemplo, parar um tratamento. A apreciação é dele. Posso verificar que você não tem mais febre, que você não tem mais um tumor. Tudo bem: não tem mais, não está lá. É muito diferente.
Quem faz análise geralmente fala que todo mundo tem que fazer. E quem não faz, fala que não é assim. Como é, na verdade? 
Acho que não é verdade que todo mundo tem que fazer. Acho que é um equilíbrio complicado, uma alquimia complexa. Não sei nem se a gente pode dizer que todo mundo pode fazer. “Poder”, do ponto de vista de ter, sei lá, isso a grande maioria pode, tem a possibilidade de fazer uma análise, mas é preciso uma predisposição subjetiva. É um equilíbrio curioso, porque é tempo, é uma complexidade na vida. Não é necessariamente penoso. Pode ser extremamente interessante; e deveria ser. Teve uma época em que estava na moda pensar que uma análise deveria ser necessariamente um processo penoso e angustiante. Que, aliás, se você não se angustiasse, isso demonstraria que você não estava tocando nas questões importantes. Pode ser um processo divertido – divertido, além de interessante, no sentido de que um paciente e um analista podem tranquilamente rir em uma série de circunstâncias. E não é raro que seja um processo em que o cara espera o dia da sua sessão ansiosamente.

Você faz análise?
Neste momento, não. Minha última análise foi nos Estados Unidos. Faz bastante tempo que não me reanaliso. Deveria acontecer daqui a pouco, aliás.

Como funciona com você?São situações assim, na verdade, na minha idade – não sei se tem muito a ver com idade, mas, enfim – 
houve pessoas com as quais eu fiquei a fim de fazer uma fatia de análise. Porque eu queria ver, queria ouvir uma coisa diferente do que já tinha ouvido. Pessoas que justamente não eram da minha formação. Hoje, provavelmente – coisa que vai chocar a maioria dos meus colegas –, acho que eu faria um ano de psicoterapia junguiana, me interessaria.
Eles ficariam chocados de que forma?
Ah, porque a maioria dos meus colegas freudianos – lacanianos nem se fala – não iria entender; é como se eu dissesse que vou me confessar com alguém de outra denominação. Tipo: “Vou parar de ir à missa. Agora vou à mesquita no domingo”. Ou, então, começo a frequentar a sinagoga no sábado. Em regra, é bem assim.

Você acredita ser mais flexível do que eles?
Não, não. Não é que acredito, eu sei que sou muito mais flexível. Mas eles não chamam isso de flexível, porque parece uma coisa positiva. Acho que eles consideram que tem uma dívida específica com a disciplina. Acho que eu tenho uma dívida com a psicanálise. Com o desejo, sem dúvida, de Freud muito mais do que com a doutrina de Freud. Me interessa tudo o que saiu do desejo de Freud, inclusive Jung, por exemplo. E mesmo coisas que não saíram do desejo de Freud, porque tem um monte de psicoterapeutas. Fiz psicoterapias rogerianas (método de Carl Ransom Rogers, 1902-1987) e companhia, que não são propriamente pós-freudianas, e achei superinteressante.


Uma, das muitas questões discutidas na série, é que ninguém gosta de ser mudado... 
Isso. A gente passa a vida inteira circundado por pessoas que têm o projeto de nos moldar. Na hora, pode até parecer normal, mas é um saco, né?!  E isso continua. Mas na infância e na adolescência é muito mais, inclusive depois, até no trabalho. Você se lembra daquele filme bonito, Mestre dos mares? É uma história de Russell Crowe, que é comandante, e tem esses dois meninos de 13 ou 14 anos que, na verdade, são oficiais a bordo do navio. É um deles que comanda as baterias de bombardeio do navio. Eles são oficiais da Marinha! Um deles perde um braço e fica lá sem braço. Sobrevive. O espectador médio hoje vê aquilo e não entende. Não processa como sendo normal. Você entrava na escola militar de guerra aos 12, 13 anos, fazia os seus cursos, passava, saía. Valeu. Um aprendiz saía de casa aos 7 anos, na França da Idade Média. Se eu era marceneiro, o meu filho se destinava à marcenaria – naquela época, o que se previa era a reprodução; então, aos 7 anos, o meu filho ia aprender a ser marceneiro. Mas não podia aprender comigo, porque eram inteligentes, eles entendiam que não era com os pais que se aprende. Então, eu tinha que mandá-lo para outro marceneiro dentro da confraria, mas não era na mesma cidade. Era 600 km, 700 km... Eu ia rever meu filho dez anos depois, formado. E ninguém morria. Você vai dizer isso para uma mãe hoje?
Você diz em relação à superproteção extrema, não? 
Nós somos totalmente infantólatras e a infantolatria é um dos grandes traços da contemporaneidade. E dizer que as crianças são capazes de grandes crueldades, isso é uma coisa que hoje é quase um escândalo. A criança pode ser extremamente agressiva. Não tenho uma simpatia, a priori, por crianças. Acho que crianças são seres cruéis, extremamente cruéis, capazes das maiores maldades. Freud dizer em 1905 que as crianças tinham uma sexualidade era um negócio! Como? As pessoas não viam as criancinhas se masturbando em casa?

A grande maioria não quer enxergar isso... 
Não quer, absolutamente. A infância continua sendo uma idade totalmente idealizada. Aliás,  continuamos, cada vez mais, tentando criar uma idade durante a qual as crianças, esses seres, não vão ter preocupações de nenhum tipo. Bom, claro que isso funciona como pode, mas a nossa idealização da criança é muito grande, muito forte.

E quem resolve não seguir por esse caminho recebe muitas críticas... 
Sim, claro. Imediatamente. Mas a gente não pode se queixar tanto assim, no fundo, porque, sobretudo a partir dos anos 1970, progressivamente, a sociedade ocidental criou uma espécie de ideologia positiva da diferença. Tanto que a diferença parece ser ou é apresentada como um valor em si. Por exemplo: é bom que o ambiente de trabalho seja repleto de diferenças étnicas e o caramba, pessoas de todos os tipos, porque essa inclusão vai – e agora tem toda uma justificação positiva – ter um efeito positivo na decision making. Porque, claro, vão participar pessoas que pensam, sentem e veem o mundo de maneiras tão diferentes. Isso é realmente muito novo. Se falasse isso em qualquer empresa nos anos 1950 ou 1960, iam achar que você estava louco. Então, certamente a margem de convivência das diferenças aumentou muito. Hoje não é, pelo menos nas grandes cidades do Ocidente, impossível ser homossexual, não é impossível conviver com um casal homossexual. Até os anos 1980, era tipo aquela política Clinton: “Don’t ask, don’t tell”. Mas você não imaginava chegar ao seu escritório e colocar a fotografia de um namorado ou namorada do mesmo sexo em cima da mesa em um porta-retratos. Não, você não ia fazer isso não.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Entrevistas preliminares e função diagnóstica nas neuroses e nas psicoses

Fonte: Jorge Forbes

Jorge Forbes e Maria Cecília Ferretti

Com:
Carlos Genaro Gauto Fernandez
Luiz Carlos Nogueira
Helena Maria Sampaio Bicalho

“Primeiramente há a questão do diagnóstico. Quando se submete à análise um paciente que sofre do que se descreve como perturbações nervosas, deseja-se de antemão estar certo – até agora, naturalmente, conforme a certeza possa ser alcançada – de que ele se presta a essa espécie de tratamento, de que se pode ajudá-lo por esse método. Isto, contudo, é o caso apenas se ele realmente tiver uma neurose”.
Freud “A questão da análise leiga” Edição Standard Brasileira, vol. XX, p. 272 (1926).

As entrevistas preliminares recebiam em Freud o nome de “análises de prova”. Trata-se de provar o quê?
É tarefa do analista provar que o dispositivo analítico pode ser posto em funcionamento com a pessoa que ali está. Para isto – e também para que o analista saiba de sua posição e estratégia, as quais intervêm na passagem que se dá de uma pessoa que o procura ao sujeito que entra em análise, por razões que demonstraremos – é que é preciso o diagnóstico. Assim o objetivo deste trabalho é o de marcar e desenvolver alguns pontos fundamentais quanto às entrevistas preliminares em uma de suas funções, ou seja, naquela referente ao diagnóstico que permite diferenciar as neuroses e as psicoses.

Alerta de Freud

Lacan recupera e precisa a “análise de prova” freudiana; recupera e precisa o ensino freudiano naquilo que diz respeito ao diagnóstico estrutural e à necessidade de reformulação do dispositivo analítico para o atendimento de psicóticos. Isto, na medida em que é do cotejamento entre neurose e psicose que se faz a elucidação da arquitetura de uma estrutura aceitável para a psicose.
No artigo “sobre o início do tratamento”, Freud declara que adquiriu o hábito de aceitar um paciente provisoriamente por um período de uma ou duas semanas (1). É nesse mesmo artigo que Freud faz a já bem conhecida comparação entre a análise e o jogo de xadrez, mostrando que em ambos os casos as aberturas e os finais são passíveis de apresentação sistemática exaustiva. No entender de Freud, a abertura do jogo da análise pode ser sistematizada. Lacan, no retorno a Freud, fundamenta e avança essa sistematização.
Freud faz também saber que: “há razões diagnósticas para começar o tratamento por um período de experiência...” (2). O psicanalista tem motivos suficientemente fortes para evitar cometer equívocos no diagnóstico diferencial, entre a demência precoce e a neurose. Se o psicanalista errar aí, diz Freud, “não pode cumprir sua promessa de cura” (3).
As questões de indicação e de contra-indicação da psicanálise são ainda tratadas por Freud no artigo “Sobre a Psicoterapia” quando afirma “deve-se limitar a escolha dos pacientes àqueles dotados de um estilo mental normal, visto que no método psicanalítico isto é empregado como o ponto de apoio do qual obter o controle das manifestações mórbidas. Psicoses, estados de confusão e depressão profundamente arraigados (poderia dizer tóxicos) não se prestam, portanto, à psicanálise, pelo menos não para o método como vem sendo praticado até o presente. Não considero de modo algum impossível que mediante modificações adequadas do metido possamos ser bem sucedidos em superar essa contra-indicação – e assim podermos iniciar uma psicoterapia das psicoses”.
Lacan também mostra que na psicose o analista não pode cumprir sua promessa de tratamento analítico. O que Lacan ensina “é precisamente que não se há de tomar psicóticos em análise, porque toda a doutrina que se tem sobre esse tema vai mostrar um impasse” (5). “Se tomarmos um psicótico em análise, isto o torna louco” (6). No entanto, Lacan também aconselha ao analista não recuar diante da psicose. É o dispositivo analítico, tal como utilizado para o neurótico, aquilo que não deve ser aplicado ao psicótico. “Mediante modificações adequadas do método”, como diz Freud, é possível não recuar diante da psicose.
Posto que a análise pode desencadear a psicose, é preciso que o analista saiba reconhecer o pré-psicótico, ou seja, aquele que, por ter a estrutura psicótica, pode, ao se deparar com o dispositivo analítico – um dispositivo que propicia o encontro faltoso – desencadear o quadro psicótico. Esta tarefa é feita nas entrevistas preliminares. Cabe perguntar: como reconhecer o pré-psicótico?

Diagnóstico diferencial pela via das estruturas

O diagnóstico em Lacan é estrutural. Assim as questões da psicose e da diferenciação entre neurose e psicose devem ser abordadas pela via das estruturas.
No seminário III, As psicoses Lacan deixa claro que “temos abordado o problema das psicoses pela questão das estruturas freudianas”. Esta afirmação, por ser fundante, pede de nossa parte desenvolvimento.
Para Lacan “a situação analítica é ela própria uma estrutura; como tal, artificial, isto é, elaborada a partir de uma teoria de conjunto” (8). Lacan deixa claro que “o ensino freudiano, nisto inteiramente conforme ao que se produz no resto do domínio científico – por mais diferente que devessem concebê-lo do mito que é o nosso – faz intervir móveis que estão para além da experiência imediata, e não podem ser compreendidos de maneira sensível. Aí, como em física, não é a cor o que retemos, em seu caráter sentido e diferenciado pela experiência direta; é alguma coisa que está por detrás e que a condiciona. A experiência freudiana não é de forma alguma pré-conceitual. Não é uma experiência pura. É uma experiência realmente estruturada por algo de artificial que é a relação analítica, tal como é constituída pela confissão que o sujeito vem fazer ao médico, e pelo que o médico dela faz. É a partir desse modo operatório primeiro que tudo se elabora”(9).

Fenômeno e Estrutura

Nunca é demais lembrar que são os três registros: o real, o imaginário e o simbólico que permitem compreender a experiência analítica. Para Lacan, estas são as três ordens necessárias à orientação do procedimento analítico. Será que ao dizermos que a diferenciação entre as neuroses e as psicoses se faz através de uma abordagem estrutural, estaremos eliminando o fenômeno?
Lembremo-nos da importância dos fenômenos ditos elementares para o diagnóstico da psicose: automatismo mental, fenômenos que concernem ao corpo, transmissão do pensamento etc.
A estrutura afasta o fenômeno ou o engloba?
No texto anteriormente citado, Lacan refere-se à situação analítica como uma experiência e afirma que em física não é a cor o que retemos, Mas não é a cor tal como é dada pela experiência direta. Trata-se, sem dúvida, de uma experiência, só que esta experiência não é pré-conceitual. Desse modo, embora o analista não retenha, por exemplo, o automatismo mental, ele o leva em conta, inserindo-o em uma teoria de conjunto. Se o analista se deixa reter simplesmente pelo automatismo mental, pode cometer graves erros de diagnóstico. Poderá entender uma histeria como psicose.
“A estrutura, diz Lacan, aparece no que se pode chamar, no sentido próprio, de fenômeno. Seria surpreendente que alguma coisa de estrutura não aparecesse na maneira como, por exemplo, o delírio se apresenta” (10).
Não há em psicanálise uma dicotomia entre observável e não observável. Tentar estabelecer esta separação é não levar em conta os três registros lacanianos. Desta forma os chamados fenômenos elementares mostram a estrutura.
Em “Nota sobre o informe de Daniel Lagache” (11), Lacan afirma que “quando Daniel Lagache parte de uma escolha que nos propõe, entre uma estrutura de algum modo aparente (...) e uma estrutura que ele pode dizer à distância da experiência (...) essa antinomia negligencia um modo de estrutura que, em sendo terceiro, nem por isso poderia ser excluído, ou seja, os efeitos que a combinatória pura e simples do significante determina na realidade onde ela se produz. Neste artigo, Lacan mostra que é na medida que formulamos nossa experiência como o campo onde o “isso” fala que a distância em relação à realidade se dilui, porque opera como uma máquina que põe o sujeito em cena daí que, “a estrutura, em Lacan, não é uma potência invisível que atua imperceptivelmente (...), não é uma mão oculta. A estrutura de Lacan é uma estrutura que captura um visitante particular, o vivente que fala” (12). É a estrutura que escraviza o sujeito, que o fragmenta em efeitos do significante.
É em razão disto que no seminário sobre as Psicoses, Lacan pode afirmar que não tem esta confiança à priori no fenômeno, pela simples razão de que nosso encaminhamento é científico, e de que o ponto de partida da ciência moderna está em não confiar nos fenômenos e em procurar atrás deles algo mais subsistente que os expliquem” (13).
A confiança nos fenômenos elementares somente pode ser suportada por uma análise de estrutura. Esta confiança segundo Lacan é totalmente distinta daquela que lhe dedica a abordagem fenomenológica. O trabalho de Lacan visa a um mais além do que aparece, sem, contudo excluir o fenômeno.
Para Lacan não foi em razão de a psiquiatria levar em conta o fenômeno que houve marcha para trás. A psiquiatria regrediu devido aos impasses na via explicativa. A psiquiatria desconfiou da explicação e fez apelo à compreensão. 
É retomando a via explicativa que se chegará, portanto a uma análise proveitosa do fenômeno, na medida que este seja considerado como um elemento da estrutura.
Neste sentido poderíamos perguntar-nos se teria existido realmente uma “clínica do olhar” na psiquiatria. Se concordássemos com isto, estaríamos tomando uma posição empirista frente à teoria do conhecimento, isto é, estaríamos acreditando que é possível ao teórico abordar o fato diretamente pela observação. Não é possível uma “clínica do olhar” pelas mesmas razões que demonstram ser o empirismo uma teoria malograda. Quando Lacan fala em “impasses na via explicativa” indica que o erro está na má teoria e não em uma suposta ausência de teoria. Desta forma, no emprego da expressão “clínica do olhar” fica presente a idéia de um olhar que só retém a cor. A psiquiatria não é assim tão ingênua.
O ensino de Lacan busca reencontrar o bom caminho, aquele que possa superar impasses existentes na via explicativa elaborada pela psiquiatria.
O bom caminho proposto por Lacan aponta para a existência de um mecanismo fundamental na psicose: a Verwerfung. “De que se trata, quando falo de Verwerfung? “Trata-se da rejeição de um significante primordial em trevas exteriores, significante que faltará desde então nesse nível. Eis o mecanismo fundamental que suponho na base da paranóia. Trata-se de um processo primordial de exclusão de um dentro primitivo, que não é o dentro do corpo, mas aquele de um primeiro corpo significante. É no interior desse corpo primordial que Freud supõe se constituir o mundo da realidade, como já pontuado, como já estruturado em termos significantes” (14) . Lacan esclarece que este significante primordial é um mito: não se trata de um momento em que o significante primitivo foi adquirido, introduzindo-se em seguida o jogo das significações.
Marquemos esse ponto: na psicose não há jogo de significações; um significante não remete a outro significante. Dito de outro modo há na psicose uma inércia não dialetizável, uma inércia do simbólico “que introduz, como se percebe, a concepção a se formar do manejo, nesse tratamento, da transferência” (15).

Conseqüências na Clínica

O que ocorre nas entrevistas preliminares? Aí o analista se põe à escuta, intervém esperando que algo se dialetize, que um significante remeta a outro significante. A experiência analítica desta forma é feita para o neurótico; o psicótico, aí não funciona. Nas palavras de Lacan: “Nosso ponto de partida é o seguinte – o inconsciente está aí, presente na psicose (...). O inconsciente está ali, mas isto não funciona. Contrariamente ao que tenha sido possível acreditar, que ele esteja ali não comporta, por si mesmo, nenhuma resolução, muito pelo contrário, isto comporta uma inércia muito especial” (16).
Não é dada ao psicótico a produção analítica do discurso analítico, tal como é concebida para o neurótico. A entrada em análise, primeiro ato analítico, não se sustenta no caso do psicótico, pois “para que o ato analítico se constitua, é preciso que o sujeito possa surgir como efeito da articulação significante S1 — S2” (17).
Estamos aqui aproximando a neurose da psicose para tirar disto conseqüências. Não é, como esclarece Lacan “para simples satisfação de nosógrafos”, mas em razão de que somente na aproximação entre neurose e psicose “nos aparecerão relações, simetrias, oposições que nos permitirão arquitetar uma estrutura aceitável para a psicose” (18).
Na neurose as entrevistas preliminares terminam no momento em que houver a instalação da transferência. Já no artigo “Intervenção sobre a Transferência” (19) Lacan afirmava que não se trata na transferência de nenhuma propriedade misteriosa da afetividade. Mostrou em seguida, que a transferência é epistêmica, já que o saber está em jogo, colocando o sujeito suposto saber como o pivô da transferência.
Em 1967, na “Proposição”, Lacan escreve o matema da transferência:

S ——→S٩
_____________ 
s (S¹, S², ...S ⁿ)

Acima da barra há uma seta que vincula o significante inicial do analisando a um significante qualquer do analista. É importante notar que este significante qualquer refere-se a um determinado analista. Trata-se de um momento em que a transferência a priori se particulariza. Este enganche transferencial pertence à chamada vertente imaginária da transferência, na medida em que é esta vinculação que vai produzir o amor da transferência. Abaixo da barra, trata-se da vertente simbólica da transferência, a vertente produtora do saber sobre a verdade.
No neurótico as entrevistas preliminares à análise propriamente dita terminam quando se instalar o gancho com o transferencial significante do analista qualquer que seja; a análise far-se-á através do manejo da transferência. Desse modo o analista fará produzir um meio-saber, uma meia-verdade. O saber inconsciente é o que está abaixo da barra.
Vimos que na psicose o inconsciente aí está, mas não funciona. Não há saber a ser produzido; o saber do psicótico vem pronto, e o que pede é uma testemunha e não um sujeito suposto saber. Não há gancho transferencial posto que um primeiro corpo de significantes foi excluído. Nas palavras de J. Attié “o próprio quadro da transferência se encontra assim colocado. O analisando, como se percebe, não vem interrogar um sujeito suposto saber sobre aquilo de que é portador em seu inconsciente. Vem, já, com um saber constituído, mas apresenta o paradoxo de necessitar uma testemunha de sua certeza” (20).
Há no início da relação analítica uma presença: a da verdade. Não nos assustemos com esse termo de tradição tão forte. É impossível negar a vocação do analista para a verdade, Presunção, sem dúvida, mas destino do ser falante. “Quanto à análise se ela se coloca por uma presunção, é justamente a partir desta que é possível constituir, a partir de sua experiência, um saber sobre a verdade” afirma em “Encore” (21).
Na medida em que no psicótico há exclusão de um primeiro corpo de significantes, há também e por via de conseqüência a exclusão di tratamento da verdade. “O verdadeiro visa o real” (22) e deve haver um simbólico capaz de tratá-lo. No psicótico a inércia da simbolização não dá tratamento ao real. O simbólico não se dialetiza, excluindo o tratamento da verdade.
Em “Intervenção sobre a transferência” Lacan mostra como a cada “desenvolvimento dialético” corresponde um “desenvolvimento da verdade”. O termo dialético aí utilizado por Lacan é de origem hegeliana. As críticas posteriores que faz Lacan à filosofia de Hegel, no que esta se fundamenta em uma filosofia da consciência, não nos afastam do entendimento da análise enquanto experiência dialetizável, tal como aparece nesse texto de 1958. Esta experiência dialetizável mostra-nos o que ocorre com o neurótico e o que não pode ocorrer com o psicótico.
O analista nas entrevistas preliminares conduz o sujeito à produção de uma meia-verdade. Como mostra Lacan, as imprecisões biográficas fornecidas por Dora a Freud, primeira afirmação da verdade, fazem com que Freud a implique, fazendo nascer um primeiro desenvolvimento da verdade: cumplicidade e proteção de Dora em relação aos dois amantes.
Os movimentos das entrevistas preliminares são aproximadamente calculados em direção à verdade e desde aí a posição do analista questiona as queixas e as identificações imaginárias do sujeito. A posição do analista por não ser uma posição de cumplicidade com as significações já construídas, favorece o desenvolvimento da transferência, na medida em que se liga a um compromisso com a verdade.
Desse modo o dispositivo analítico não é apropriado ao psicótico. Na psicose há inconsciente, mas isto não funciona. Como também não funcionam o gancho transferencial, as intervenções que buscam dialetizar a experiência, a interpretação. “A interpretação analítica pe uma aposta, e não sem riscos. Relevo o caráter de aposta e risco, para lembrarmos que não é a mesma coisa a interpretação feita a um neurótico e a interpretação feita a um psicótico. A confusão traz riscos. A fala de um neurótico é uma resposta; para ele vale receber a própria mensagem, em sentido invertido, desde o Outro. Não é assim no psicótico. Se no neurótico o que se perde no simbólico, no simbólico se recupera; sabemos que no psicótico, é no real a recuperação e o desencadeamento do delírio é sempre um risco. Portanto, a questão do diagnóstico nos é importante, mesmo porque a psicanálise não é inócua” (23).

Conclusões

Desta forma as entrevistas preliminares permitem e solicitam ao analista a diferenciação entre as neuroses e as psicoses. Se o diagnóstico nem sempre é de fácil estabelecimento, a psicanálise fornece, no entanto, uma formalização teórica capaz de superar impasses e encontrar o bom caminho para a arquitetura de uma estrutura aceitável para a psicose.
O analista, através de uma estrutura explicativa que lhe permite integrar os fenômenos que constata – estrutura apontada desde Freud e que estabelece uma comparação entre neurose e psicose – coloca ou não em marcha o dispositivo analítico. É a partir do poder do analista e do seu dever que esta tarefa se cumpre. Não é por mera satisfação de nosógrafo e sim pela razão precípua da direção do tratamento que o analista aí se embrenha.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Seminário sobre a Obra de Jacques Lacan, com Christian Dunker, gratuito. usp

Olá pessoal,
Aqui vai o programa de meu Seminário aberto lá no Instituto de Psicologia da USP para este segundo semestre:
Caros participantes do Seminário sobre a Obra de Jacques Lacan,
Este espaço aberto, público e gratuito acontece desde 2001, sempre enfatizando as referências e contextos no decorrer do ensino de Lacan. Ele constitui uma atividade conjunta do Latesfip (Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP) e da Escola dos Fóruns do Campo Lacaniano.
No semestre anterior vimos como Lacan se vale dos sofistas e de um conjunto de novos conceitos cruciais da psicanálise para formular esta menos conhecida definição: “O inconsciente é um saber cujo sujeito permanece indeterminado.” (Seminário XII Problemas Cruciais para a Psicanálise, lição de 19 de maio de 1965). Em nosso cinco encontros, que concluem a leitura comentada deste seminário de Lacan, nos deteremos na relação entre a nomeação e o fantasma (sutura) a partir da função do objeto a, tal como ela pode ser isolada no modelo da Garrafa de Klein.
Nossos encontros serão em número menor do que o habitual neste semestre em função de dois eventos, que estamos organizando, e para os quais aproveito a ocasião para convidá-los:
1. Outrarte (Montevidéu) A historicidade não é o que se espera: Caso, Ficção e Poesia em Psicanálise (6 a 9 de outubro)
http://www.iel.unicamp.br/…/outrarte/xvjornadavi…/portugues/
2. Reunião Anual da Sociedade Internacional de Filosofia e Psicanálise (São Paulo - USP) Psicanálise e as Formas do Político
http://www.sipp-ispp.org/…/pdf_psychoanalysis_and_forms_of_…

Teremos cinco encontros semanais com início em 13 de Agosto de 2015.
Local: Instituto de Psicologia da USP, Auditório Carolina Bori (Bloco G) e Auditório Aurora Furtado (sala 20 Bloco de Aulas) dependendo do dia.
Horário: 12:30 às 14:00
Inscrições: no primeiro encontro
Contato: e-mail: chrisdunker@usp.br ou 3887-0781
Público, aberto e gratuito
13 de Agosto (aula 1) Conferência com Pedro Arévola
20 de Agosto (aula 2) Estrangeiro contra o Sofista: o simulacro e o fantasma
Lacan, J. (1964-1965) Seminário XII Problemas Cruciais para a Psicanálise Lição XX (26 maio de 1965) Edição Centro de Estudos Freudianos do Recife.
17 de Setembro (aula 3) O Não ser e o Real
Lacan, J. (1964-1965) Seminário XII Problemas Cruciais para a Psicanálise Lição XXI (02 de junho de 1965
24 de setembro (Aula 4) Sujeito, Saber e Sexo.
Lacan, J. (1964-1965) Seminário XII Problemas Cruciais para a Psicanálise Lição XXIII (16 de junho de 1965
01 de Outubro (aula 5) A Entzweiung de Lol V. Stein
Lacan, J. Seminário XII (1964-1965) Problemas Cruciais para a Psicanálise Lição XXIV (23 de junho de 1965
Texto em Francês Disponível em
http://staferla.free.fr/S12/S12.htm

terça-feira, 14 de abril de 2015

Distimia e Psicanálise

Ia escrever pessoalmente sobre distimia e psicanálise a pedido de uma Leitora, porém, encontrei esse texto que considerei digno de compartilhamento por ser completo e bem elucidativo! 
Por favor curtam em curtir e compartilhem!



Vanda C.Pignataro Pereira


Antes de tudo, gostaria de agradecer o convite feito pela AMP para falar deste tema e expor, no que diz respeito ao tratamento, o que a Psicanálise pode trazer como contribuição para um assunto tão relevante e atual.
Começo dizendo com Freud que a psicanálise é um método terapêutico e como os demais tem seus triunfos, suas derrotas, suas dificuldades e suas indicações.
Com algum bom humor poderíamos até dizer que a Psicanálise e a Psiquiatria compartilham, nos seus resultados, da impossibilidade de competir com os resultados do Padre Cícero por exemplo, posto que devem ser mais numerosas as pessoas que crêem em milagres do que as que crêem no inconsciente ou na serotonina... Contudo, se além de método terapêutic, a Psicanálise puder ser reconhecida pelas verdades que contém, pelas informações que nos proporciona a respeito daquilo que mais interessa ao ser humano_ a sua própria natureza_ e pelas conexões que ela desvenda, já terá justificado o fato de ser um método impar.
No mais atual das diretrizes diagnosticas em psiquiatria, deparamo-nos na seção dedicada aos transtornos persistentes do humor, com o diagnóstico denominadoDistimia. Em sua descrição, surpreendemo-nos ao encontrar a seguinte observação "os pacientes se descrevem como estando bem, mas na maior parte do tempo, por freqüência meses, sentem-se cansados,deprimidos, nada é desfrutável e portanto tem muito em comum com os conceitos de neurose depressiva ou depressão neurótica".
Freud nunca trabalhou com esta categoria diagnostica_ a Distimia. A neurose, a psicose e a perversão são os diagnósticos, de estrutura com os quais a Psicanálise trabalha. Assim manter-se fiel a Freud implica levar isso em consideração.
Sabemos, por experiência clínica, que um neurótico é incapaz de aproveitar a vida e ser eficiente. Incapaz porque sua libido não se dirige a nenhum objeto real e ineficiente porque despende sua energia para manter a libido sob recalcamento e repelir seus assaltos. Sua libido acha-se então comprometida com seus sintomas, sua única satisfação substitutiva possível. Obviamente isto visto na prática, tem conseqüências, uma vez que teremos sempre que considerar que, se o sintoma leva o sujeito a procurar ajuda e se essa solicitação se refere a uma certa harmonia que se viu quebrada, o sentido etimológico da palavra -sintoma- é mesmo " o que se produz junto", "o que coincide". Esta é a conotação medica que o sintoma tem. Entretanto, se o abordamos do viés psicanalitico, o sintoma muda radicalmente de valor_ decisiva contribuição de Freud. No discurso analítico o sintoma já não se articula a uma harmonia , antes pelo contrário, a uma desarmonia, e só daí podemos extrair o sujeito como um ser falante do sintoma.
Ao partir do sintoma como interpretável Freud esbarra na reação terapêutica negativa, demonstrando-nos que ele deve ser abordado a partir de duas frentes: Como mensagem cifrada, a ser decifrada e como maneira de gozar o que implica, se no sintoma algo que se satisfaz de maneira fechada, em o sujeito não querer se ver assim tão facilmente livre dele.
Quanto ao humor, as investigações de Freud datadas de 1927, portanto quando já desenvolvera sua 2a. tópica, são no sentido de apontar que ele tem algo de liberador , alinhando-o ao chiste e ao cômico. Evidentemente Freud fala de um humor oposto ao humor distimico, aponta esta capacidade do aparelho psíquico de desviar do sofrimento , colocando-o _ o humor_ entre a série de métodos nobres que a mente humana construiu a fim de fugir da compulsão para sofrer. Se o chiste é a contribuição feita ao cômico pelo inconsciente, o humor seria a contribuição feita ao cômico pela intervenção do superego, como se o eu temporariamente, se colocasse sob a proteção daquele, ao invés de em oposição. Melhor dizendo, ser capaz de extrair graça das desgraças não é próprio do distimico, seria preciso humor , justo o que ele parece não ter.
Para pensar a questão depressiva, do ponto de vista psicanalítico, classicamente é o luto, desde Freud, que propicia o paradigma da depressão. O texto referencial, "Luto e Melancolia" serve de reflexão para essas duas condições clínicas, depressivas por excelência..
Apesar do luto envolver graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, perde-se o apetite, acontece a insônia, a tristeza domina o quadro, mas jamais nos ocorre considerá-lo como condição patológica e submetê-lo a tratamento. Freud se pergunta por que sendo uma condição natural diante da perda, seu processo se faz de forma tão dolorosa. Mas pensando bem, percebe-se que esse aspecto misterioso do luto está em acordo com um aparelho psíquico que se constitui às expensas de uma insatisfação ( a experiência de satisfação é mais uma experiência de insatisfação), de uma dor que nunca se extingue, põe-se no máximo em suspensão e de um campo alhures que se constitui_ o campo do Outro.
Acentua Freud que os traços distintivos da melancolia e do luto decorrem da grave perturbação da auto estima presente na primeira que encontra expressão no auto-envilecimento e auto-recriminação e culminam com uma expectativa delirante de punição. Conclui que há uma inibição e circunscrição do eu. Este é um ponto reafirmado em "Inibição Sintoma e Angústia"- onde vai distinguir duas categorias de inibição do eu_ uma como defesa para não entrar em conflito com o supereu e outra como empobrecimento de energia. É assim que Freud tratará da dor do luto e a depressão se caracterizaria por esse desinvestimento. O que entra em causa é o campo do Outro o que Freud chama de desinvestimento do mundo exterior. Nesse mesmo texto aponta para um luto que ele classifica como patológico, aproximando-o da condição obsessiva, pelo conflito ligado à ambivalência objetal, que o prolonga excessivamente.
Sabemos que o neurótico é aquele que cede sobre seu desejo, mantém-se aferrado à comodidade que seu fantasma lhe proporciona, e é também o covarde moral, que se resguarda da castração, gozando com sua impotência. A noção psiquiátrica de humor, encontra sua ressonância no texto freudiano com relação à teoria dos afetos. Quando dizemos afetos e sentimentos inconscientes, é por um abuso de linguagem. Da pulsão, o que cai sob o golpe do recalque, é o representante ideativo, vale dizer, o lado significante da pulsão é que permanece inconsciente. O afeto, este se desloca, é essa sua natureza _ desnaturalizar-se quanto à origem_ para se ligar a outros significantes. Por isso é preciso verificá-lo, devolvê-lo a sua verdadeira face. Esta é uma indicação clínica precisa no que diz respeito à condução do tratamento. Por exemplo, a tristeza com seu correlato suicida, pode muito bem esconder uma ânsia de matar. Quantos psiquiatras perplexos se mortificam ao se surpreenderem com o fato de que, apesar de estarem corretamente conduzindo o tratamento o paciente se mata ?
O afeto embaralha as pistas , desvirtua a decifração simbólica e, exceto a angústia, é enganador. Daí a necessidade de clinicamente ser verificado.
Introduzir a clinica psicanalítica no campo dos distúrbios de humor em psiquiatria, tem conseqüências. Primeiro por que não há psicanálise sem transferê ncia, a transferência é uma estrutura e o que ordena a experiência é o discurso analítico. A escritura deste discurso, nos permite situar os fenômenos da transferência que sabemos não serem simples. Depois com muita relevância, sabemos que a clínica psicanalítica visa à estrutura do sujeito, o que nos remete rapidamente à pergunta de como ela a atinge. Fazendo emergir no cerne desta estrutura, um Outro lugar. Só existe sujeito em função do Outro. Isto é problemático quando pensamos que os distúrbios de humor são concebidos em psiquiatria no seio de um questionamento intrasubjetivo.
Dentro do referencial analítico, que tratamento dar a esses afetos: tristeza, raiva, etc... Lacan em " Televisão", fazendo ressonância com a teoria dos afetos em Freud, restaura a noção das paixões da alma, noção que tem sua origem em Aristóeles e Tomás de Aquino, para quem alma está indissociada do corpo, ou melhor "alma é a forma do corpo" apontando com isso menos a matéria e mais a imagem Assim, o afeto chega a um corpo habitado pela linguagem e quando aí não encontra alojamento, passa a chamar-se morosidade, mal-humor. Ao considerar o afeto fundamentalmente como pecado e tomar a tristeza, por exemplo como falta moral, qual seja falta ética, perante o dever de bem dizer, o que o sujeito mergulhado na tristeza está evitando é medir-se com o desejo do Outro e com o gozo que teria de sacrificar a ele. Desta perspectiva, a tristeza é uma maneira de ignorar que o desejo se fundamenta no Outro. Com isso a problemática da falta é evitada e substituída pela problemática do ter e da dádiva. O sujeito sempre esperando que deve haver alguma coisa que o cure de um mal-estar que é de estrutura, nada querendo saber de seu incurável, vale dizer de sua divisão, acaba levando-a um impasse do qual se recusa sair. As chamadas depressões refratárias ai estão a nos demonstrar isso à exaustão.
Como e porque, nesse sujeito dito deprimido, a organização significante que comanda seu discurso inconsciente, permanece tão distinta do gozo, porque ele faz tanta questão de ignorar o desejo do Outro, nos fica como questão.
Gostaria ainda, para finalizar, de dizer que se observarmos atentamente o manual "Programa Educacional sobre Distimia para Psiquiatras", somos forçados a perceber, que sintomatologicamente, ora o quadro se aproxima do que em Freud se chama melancolia, ora do que se descreve sob o nome de luto patológico. Neste ponto quero lembrar algumas de suas palavras ao examinar as relações da Psiquiatria com a Psicanálise: "É de se esperar que em futuro não muito distante, perceber-se-á que uma psiquiatria cientificamente fundamentada não será possível sem um sólido conhecimento dos processos inconscientes da vida mental"._ Nosso esforço.
Bibliografia
1) Freud, S. _Novas conferencias Introdutórias_ .XXXIV- ESB vol.XXII Imago,RJ,1976.
2) Ibdem - Conferencia Introdutória XVI - pag. 302
3)Freud, S.- "Luto e Melancolia"VOL. XIV
4Lacan , J.- Televisão ( mimeo)
5) Soler, S.- Artigos clinicos ED. Fator 1991, Salvador
6)André, S. -"A impostura perversa"Ed. JZE RJ !995, pag. 205
7)Freud, S -"Inibição,sintoma e angustia"
8) Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento- CID 10
9) Vidal, E A - Revista da letra Freudiana , no. 11/12/13/14/.- RJ
10) Cottet,S.- "Como se analiza hoy"- Ed. Manantial- Buenos Aires
11) Miller, J.A- "La envoltura formal del sintoma"- Ed.Manantial,B.Aires,1989

terça-feira, 7 de abril de 2015

Glaucia Nagem




Glaucia Nagem é psicanalista e artista visual. Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano em São Paulo onde participa da transmissão e pesquisa a relação entre Psicanálise e Arte. Na Arte formou-se em ateliês como os de Sérgio Fingermann e do Museu Lasar Segall, onde se discute a dimensão da prática e da reflexão no fazer artístico. Trabalha atualmente em espaço próprio – o Ateliê 702 – e como monitora do ateliê de gravura do Museu Lasar Segall, além do consultório particular.
Fotos: Patrizia Corsetto
Exposição Pangeia – Minotipias de Glaucia Nagem – Galeria da Oficina Cultural Oswald de Andrade.
fonte : http://lacaneando.com.br/glaucia-nagem/

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Os vários tons do gozo e do prazer

Revista Psique, edição 84

Freud reconhece que há algo para "além do prazer", que seria exatamente aquilo que nomeou de pulsão de morte, tendo a compulsão à repetição como uma de suas principais expressões para a construção do conceito de gozo por Lacan

Por Arthur Figer


Acrescento que a oposição entre o prazer e o gozo é essencial. O princípio do prazer aparece, de algum modo, como uma barreira natural ao gozo e, portanto, a oposição se estabelece entre a homeostase do prazer e os excessos constitutivos do gozo (Miller, 2012, p. 14)

Arthur Figer é psicanalista e mestrando em
Psicologia Clínica pela PUC-Rio.
Atende em consultório
particular no centro do Rio de Janeiro.
Site: www.arthurfiger.psc.br
Temos observado na atualidade um tipo de exigência de satisfação irrestrita, que reflete bem a tônica da nossa chamada “sociedade do consumo” contemporânea, ou “sociedade do excesso”. O “supérfluo”, o “descartável”, o “excesso” e o “ilimitado” são marcas características da nossa cultura. Ipod, Ipad e Iphones 1, 2, 3 e 4 ilustram bem o que queremos dizer. O equivalente desse fenômeno cultural tão atual, pensado a partir da teoria e da clínica psicanalíticas, nos remete ao conceito de “gozo”, teorizado pelo psicanalista francês Jacques Lacan a partir, pasmem, do final da década de 1950.
“Goze!” Sim, segundo Lacan, é isso o que ouvimos, tanto externamente (voz da cultura) quanto internamente (voz do supereu). Não amanhã, não daqui a pouco, não parcialmente, mas sim aqui, agora e integralmente, até o limite (ou além). O que importa é o prazer imediato e ilimitado, sem contenção e sem barreira. O que se busca é gozar a qualquer preço. “Por que resistir às tentações?”, pergunta um cartaz afixado em um restaurante a quilo no centro da cidade. “Pecado é tentar resistir...”, afirma uma faixa na entrada de uma loja de doces. Ou seja, “goze!”.
Para o Marquês de Sade, o gozo se trata apenas de usufruto, e não de propriedade. Para ele, apesar de não haver o direito de propriedade sobre o corpo, há o direito usufruí-lo, durante o tempo que isso lhe der prazer
É como se hoje em dia o gozo estivesse levando vantagem sobre o prazer. O triunfo do gozo sobre o prazer: podemos inferir que está aí uma das possíveis razões por trás do estrondoso sucesso da trilogia erótica 50 tons, também conhecido como “o pornô das mamães”. O primeiro volume de 50 tons de cinza passou de 10 milhões de livros vendidos nas seis primeiras semanas do lançamento. A narrativa descreve, em ricos detalhes, as aventuras eróticas de uma jovem estudante de 21 anos, com um magnata sedutor mais velho. Como se não bastasse para cativar os leitores, dois ingredientes picantes especiais são adicionados neste relacionamento: ela é virgem e ele adepto de práticas sadomasoquistas. Tendo êxito em mesclar, tão bem, a inocência da moça virgem com a perversão do rapaz sadomasoquista, a autora consegue exercer um verdadeiro fascínio em seus leitores, principalmente da ala feminina. Sem nos estender muito nessa questão, que não é foco deste artigo, uma das explicações possíveis para a predominância das mulheres dentre os leitores deste romance, em nossa opinião, diz respeito mais a certas características do feminino que as levam a preferir algo mais sutil e discreto, quando o assunto é pornografia, do que qualquer outra coisa.
• Precursor do sadismo •Marquês de Sade foi um aristocrata francês e escritor libertino. Muitas das suas obras foram escritas enquanto estava na Prisão da Bastilha, encarcerado diversas vezes, inclusive por Napoleão Bonaparte. De seu nome surge o termo médico sadismo, que define a perversão sexual de ter prazer na dor física ou moral do parceiro ou parceiros. Foi perseguido tanto pela monarquia (Antigo Regime) como pelos revolucionários vitoriosos de 1789 e depois por Napoleão.
O empuxo ao gozo na atualidade é forte e cada um se vira como pode. Parecendo captar bem esse fenômeno cultural, a autora do best-selleraborda, com linguagem simples e acessível, um relacionamento recheado de práticas sadomasoquistas, conduzindo seus leitores, de forma sutil, quase imperceptível, ao fascinante campo do gozo, do proibido e da transgressão. As práticas sadomasoquistas, para a Psicanálise, pertencem ao campo das perversões e do gozo. Isso, sem dúvida, exerce forte atração, principalmente naquelas mulheres acostumadas com a rotina, com o prazer limitado, com o “socialmente aceito” e o “politicamente correto”. Mais de 20 orgasmos em apenas três semanas é o que experimenta a jovem protagonista do livro. Esta é a contabilidade do gozo em 50 tons de cinza. Quem não se interessaria?
Em seu uso cotidiano, o termo gozo reveste-se, principalmente, de uma dimensão jurídica e outra sexual. No vocabulário jurídico remete à noção de usufruto, ou seja, ao direito de gozar de um bem, gozar de férias etc. Essa conotação jurídica do termo gozo opõe claramente gozo e propriedade. Oposição esta que o Marquês de Sade reforça quando afirma “tenho o direito a gozar do teu corpo”, porém “somente durante o tempo que isso me der prazer”, ou seja, trata-se apenas do gozo e não da propriedade do corpo. Em sua conotação sexual, gozo e gozar tornam-se sinônimos de prazer, mais especificamente da expressão máxima do prazer sexual. Não por acaso, o psicanalista francês Jacques Lacan escolheu o termo “gozo” (jouissance, em francês), palavra que possui conotação sexual, tanto em português quanto em francês, para nomear o conceito psicanalítico que inventara. Para ilustrar a importância do caráter sexual do gozo lacaniano, o termo jouissance foi utilizado sem tradução na maioria das edições inglesas da obra de Lacan. Isso se deve ao fato de não haver, na língua inglesa, um significante capaz de expressar tal aspecto sexual do conceito psicanalítico de gozo. A palavra inglesa que mais se aproximaria seria enjoyment. Como contribuição psicanalítica à língua inglesa, o termo jouissance passou a figurar no tradicional dicionário Oxford.

Jacques Lacan escolheu o termo “gozo”, palavra que possui conotação sexual, para nomear o conceito psicanalíticoque inventara

O princípio de prazer é um dos dois princípios do funcionamento mental apresentados por Freud em seus escritos metapsicológicos (o outro é o princípio de realidade), sendo caracterizado, resumidamente, pela evitação da dor, do desprazer, e a busca pelo prazer, visando manter a excitação do aparelho psíquico no menor nível funcional possível. Prazer, para Freud, está relacionado à diminuição da quantidade de excitação no psiquismo, enquanto que o desprazer adviria do aumento desta quantidade.
Arte de transgredir Segundo Lacan, o conceito de gozo remete à ideia de um excesso, de uma transgressão (da lei), de um “ir além dos limites” ou “além do prazer”, como preferiu Freud ao dar título ao seu texto de 1920, “Além do princípio de prazer”. Este é considerado um divisor de águas na teoria psicanalítica que, até então, considerava o “princípio de prazer” como princípio regulador do aparelho psíquico, o qual conduziria o indivíduo à busca pelo prazer e à evitação da dor. A partir da publicação deste trabalho, Freud reconhece que há algo para “além do prazer”, que seria exatamente aquilo que nomeou de pulsão de morte, tendo a compulsão à repetição como uma de suas principais expressões.
O princípio de prazer, segundo Freud, é caracterizado, resumidamente, pela evitação da dor, do desprazer, e a busca pelo prazer, mantendo a excitação do aparelho psíquico no menor nível funcional possível
Pode-se dizer que a pulsão de morte e a compulsão à repetição representam as principais bases teóricas referenciais na obra de Freud que serviram de matéria- prima para a construção do conceito de gozo por Lacan. O gozo, portanto, é aquilo que está para além do princípio de prazer, que é da ordem do excesso, da transgressão, e que, segundo Lacan, é causa de sofrimento.
Fazendo coro à importância do tema em questão, tanto na teoria como na clínica, a psicanalista Ana Maria Rudge, em seu artigo “Pulsão de morte como efeito de supereu” (2006, p. 79), diz que a questão da constituição desta força que empurra o homem para a dor e para o sofrimento constitui o tema central na obra freudiana. “Pela irresistível atração pelo sofrimento que as caracteriza, essas manifestações clínicas foram o estopim para a maior reformulação da teoria freudiana, aquela que introduziu a segunda tópica e, no seio da nova teoria pulsional, a pulsão de morte, noção tão ambígua, controvertida e com frequência recusada, explicitamente ou não, por tantos psicanalistas.”
Para nos auxiliar na compreensão deste conceito-chave da obra lacaniana, o gozo, vejamos como este se relaciona com o princípio de prazer de Freud.
Fronteiras do prazer Pode-se dizer que o princípio de prazer funcionaria como uma espécie de limite ao gozo. De acordo com o princípio de prazer, o sujeito deveria “gozar apenas o possível”, para que não adviesse o desprazer. Sendo o conflito psíquico a base da teoria freudiana, e considerando- -se a impossibilidade de compatibilidade harmoniosa entre pulsão e cultura, o sujeito insistentemente almeja transgredir as proibições impostas ao seu gozo para ir “além do princípio de prazer”. Entretanto, o resultado desta transgressão ao princípio de prazer não é mais prazer, senão dor, pois o que é prazer por um lado, por outro é desprazer. Além deste limite, o prazer é acompanhado de dor, e este “prazer dolorido” é o que Lacan nomeou de gozo. Serge Cott et (1989, p. 21) coloca a questão da seguinte forma: “(...) há uma zona do prazer que é perigosa, essa zona que tende a ir para o gozo e que o princípio do prazer bloqueia”.
Percebemos, assim, que o princípio de prazer pode ser encarado como uma espécie de “guardião” de um estado de homeostase e constância, o qual o gozo insistentemente ameaça romper. Essa insistência é descrita por Freud através do fenômeno que nomeou de compulsão à repetição e que pode ser designado como uma espécie de retorno de um excesso (gozo), que insiste em retornar, visando transgredir os limites impostos pelo princípio de prazer.

O princípio de prazer é um dos dois princípios do funcionamento mental apresentados por Freud em seus escritosmetapsicológicos

• Homeo similar ou igual •Homeostase é a propriedade de um sistema aberto, seres vivos especialmente, de regular o seu ambiente interno para manter uma condição estável, mediante múltiplos ajustes de equilíbrio dinâmico controlados por mecanismos de regulação interrelacionados. O termo foi criado em 1932 por Walter Bradford Cannon, a partir do grego homeo similar ou igual, stasis estático.
Uma vez que o princípio de prazer está relacionado à proibição, à lei e à regulação, podemos posicioná-lo no registro do simbólico, enquanto que o gozo encontra-se do lado do real. A partir do momento em que a lei é instaurada, instituída, toda transgressão implicará um gozo – porque goza-se na transgressão –, e isso acarreta uma dívida; em outras palavras, gozar tem seu preço. E este preço, frequentemente, é pago com a própria vida. Vejamos o que diz Cott et (1989, p. 29): “(...) aí, a partir desse momento, o sujeito pode preferir o gozo à vida, e é por isso que temos um complexo do gozo compatível com a aceitação da morte, isto é, de um imperativo de gozo mais forte do que a vida”.
Trechos extraídos de algumas notícias veiculadas sobre a morte de uma estudante de 20 anos em um cruzeiro universitário, em 2008, servem para ilustrar e trazer a teoria para o dia a dia: “Amostras de sangue do corpo da estudante de 20 anos, que morreu a bordo de um cruzeiro universitário, foram levadas para serem analisadas pelo Instituto Médico-Legal (IML). (...) afirmaram que houve consumo de drogas durante a viagem. (...) O delegado da Polícia Federal em Santos, no entanto, não descarta a possibilidade de que a passageira tenha morrido por ingestão conjunta de álcool e drogas. A estudante morreu em consequência de asfixia por aspiração de líquido – vômito – segundo o laudo do IML”.
A entrada do sujeito na ordem simbólica (linguagem) é condicionada a uma certa renúncia inicial de gozo (castração), quando o sujeito desiste de ser o falo imaginário da mãe. Com efeito, o princípio de prazer é a proibição do incesto, o que regula a distância entre o sujeito e a Coisa (Das Ding).
Ao se abrir mão do desejo, mais precisamente do desejo incestuoso, ingressamos definitivamente no campo do gozo, uma vez que há uma traição do desejo – ou seja, uma sublimação. Sobre isso, Lacan diz o seguinte (1991, p. 386): “Sublimem tudo o que quiserem, é preciso pagar com alguma coisa. Essa alguma coisa se chama gozo”. Além disso, abrir mão do desejo incestuoso significa que a lei se instaurou para o sujeito e, a partir daí, há o que se transgredir (a própria lei). Toda proibição faz surgir o desejo de transgressão, e o gozo é fundamentalmente transgressivo.

Referências
BRAUNSTEIN, N. Gozo. São Paulo: Escuta, 2007.
COTTET, S. O paradoxo do gozo. Salvador: Fator, 1989.
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Andréia M Marin.