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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Estou de luto: Meu animal de estimação morreu


11 DE ABRIL DE 2016


“Um animal de estimação reflete o afeto que investimos numa relação que nos ensina a ser generosos e a exercitar a capacidade de cuidar”. (Silvana Aquino)
Todos os seres vivos um dia irão morrer, portanto um dia você terá que dizer adeus ao seu animal de estimação. Infelizmente, a expectativa de vida dos animais, mesmo sendo eles muito bem tratados, é curta em relação ao tempo que o dono viverá. Por isso, é frequente os donos de animais de estimação terem que lidar com a morte de um ou mais animais ao longo da vida.
Os animais de estimação participam da vida cotidiana de várias famílias durante anos. Para muitas pessoas eles são verdadeiros companheiros, pois não criticam nem julgam; ajudam a amenizar o stress, pois estão sempre prontos para a brincadeira; e são uma fonte inesgotável de afeto e carinho, pois estão por perto, tanto nos momentos de alegria quanto nos momentos de tristeza. São por estas razões que as pessoas se apegam aos animais, criando laços profundos de afeição e amizade.
Elaborar a morte de um gato, cachorro, ou qualquer outro bichinho de estimação pode ser uma tarefa difícil. Estudos sobre as reações à perda de um animal de estimação mostram como é forte o apego desenvolvido. Usando o modelo da teoria de apego de Bowlby (citado em Archer, 1996), Parkes (citado em Archer, 1996) se referiu ao pesar de perder um animal de estimação como o custo de perder uma pessoa amada. O processo de luto envolve angústia, pensamentos e sentimentos que acompanham o lento processo mental de se despedir de uma relação estabelecida. Evidências sistemáticas indicam que há claros paralelos entre as variadas reações que as pessoas apresentam seguidamente à perda de um animal de estimação àquelas sentidas por uma perda de um relacionamento entre humanos (Archer, 1996). Provavelmente, você vivenciará as fases do luto, pois a dor da perda de um animal de estimação é a similar à dor causada pela perda de um ente querido, pois ocorre um rompimento de vínculo afetivo. (Bertelli, 2008).
Para Baydak, quando a perda está de acordo com as normas sociais, o luto individual é suportado pela rede social, o que facilita tanto o processo de luto quanto a coesão social. Quando isso não acontece, e a sociedade não reconhece e nem legitima o luto, as reações de estresse podem ser intensificadas, e os problemas relacionados ao luto podem ser exacerbados. Em caso de animais de estimação, normalmente frases como “Era só um cachorro…” mostram esse não reconhecimento. A morte do animal é tratada como um acontecimento trivial e de pouca importância. Baydak fala também que além do luto social não-autorizado existe o luto intrapsíquico não-autorizado. Nós internalizamos crenças, valores e expectativas sociais. Está implícito no comentário “Era só um cachorro…” que os animais não são dignos de luto e a noção de que há algo inerentemente errado com alguém que entra em processo de luto após a morte de um animal. Assim, quando um animal de estimação morre, muitos donos estão totalmente despreparados para a intensidade de seu luto, e ficam embaraçados e com vergonha dele. A sociedade tende a dar mais suporte à criança que perde um animal de estimação do que a um adulto. (Bertelli, 2008).
Eu tive a honra de entrevistar a Psicóloga Déria de Oliveira, uma estudiosa do assunto, sobre questões que permeiam este tema. Abaixo seguem os principais pontos da entrevista.
Por vezes os donos de animais de estimação sentem que não possuem “autorização” para chorar e se entristecerem pela morte de seu animal. Por que a nossa sociedade, em sua maioria, não considera que um indivíduo possa estar de luto pela morte de um animal de estimação? Este é um tipo de luto não autorizado?
O luto pela morte do animal de estimação, segundo Doka (1989) está na categoria dos lutos não autorizados, porque é uma perda não reconhecida pela sociedade. No entanto, os animais estão presentes em diversos arranjos familiares. Sendo assim, por que a perda do animal não teria passado a ser reconhecida pelas pessoas do mundo contemporâneo? A partir deste questionamento e de outros foi desenvolvida minha pesquisa para a tese de doutorado, sob a orientação da Profa. Dra. Maria Helena Pereira Franco.
Dos 360 participantes que responderam à pesquisa disponibilizada na internet, 171 (47,5%) consideravam que o luto pelo animal é reconhecido pela sociedade e 189 (52,5%) responderam que a perda pela morte do animal não é aceita, porque para algumas pessoas o enlutado tem de ser comedido no luto e não pode deixar de comparecer aos seus compromissos laborais, escolares e outros.
O reconhecimento do luto do tutor do animal falecido, ou desaparecido, será facilitado se as pessoas que o cercam: a) forem empáticas; b) consideram o animal como integrante da família; c) formam ou formaram vínculo com um animal de estimação.
Em seu estudo, você se deparou com um dono de animal questionando-se sobre se ele tinha o direito de ficar de luto?
Sim. Foram realizadas entrevistas presenciais com seis enlutados, cujos animais tinham falecido há menos de 12 meses da data da entrevista. Dois entrevistados traziam muitas reflexões nesse contexto, pois estavam sofrendo muito pela morte do animal e as pessoas próximas diziam que não podiam ficar do jeito que estavam, ou seja, enlutados.
O processo de luto pela perda de um animal de estimação segue os mesmos padrões do processo pela morte de um humano? O dono do animal pode vivenciar as mesmas fases do luto?
Não diria que existe um padrão no processo de luto pela morte do ente querido, humano ou animal. Pode-se constatar que as reações tais como: negação, culpa, ansiedade de separação, raiva, entorpecimento, entre outras estão presentes em ambos os processos de luto, pois surgem diante da perda de um ser significativo; porém não ocorrem em uma sequência linear ou com presença obrigatória de todas as reações.
Quando um indivíduo vivencia uma perda que não é reconhecida ou socialmente apoiada ele pode vivenciar o luto complicado? 
Sim, porque geralmente o suporte social é um fator de proteção para luto complicado. Os rituais de despedida que estão presentes na morte do ente querido humano são praticamente ausentes na morte do animal de estimação. E muitas vezes, o enlutado ainda tem de ouvir: “era só um cachorro” ou outro animal. Uma das entrevistadas, cujo animal tinha morrido quatro meses antes da data da entrevista, disse que seu coração doía de saudade. Somente o enlutado conhece o significado que o animal tinha em sua vida, apenas ele é capaz de saber o quanto está doendo o que foi perdido.
Quanto tempo o luto pela perda de um animal de estimação pode durar?
Não existe um tempo determinado, o luto pode durar dias, semanas, meses ou anos. Dependerá da relação que o tutor tinha com o animal, da interação da díade, se existia vínculo ou não; da história de vida do tutor em relação às perdas que precederam a do animal; da causa da morte do animal, entre outros fatores.
Animal de Estimacao
(Bisteca morreu de câncer em 2011. Foto by Lilian Din Zardi)
O que fazer para amenizar a dor da perda?
É importante que o tutor reconheça a própria dor e busque apoio no seu grupo de convívio, no qual existe aceitação pela perda de animal. Aos poucos ele se reorganizará, com novas atividades e projetos, e, em alguns momentos de lembranças do animal falecido, poderá ter reações de pesar. Caso sinta necessidade, pode procurar também o atendimento psicológico.
Quando o animal está gravemente enfermo com uma doença sem possibilidade terapêutica de cura e a eutanásia é melhor opção, como lidar com a culpa?  Qual é a melhor forma de lidar com esse sentimento?
É recomendado que todas as dúvidas dos tutores fiquem esclarecidas pelo médico veterinário, antes de obter a autorização para a eutanásia, bem como seja permitida a presença dos tutores no momento do procedimento se eles desejarem. No entanto, estas condutas não garantem que os tutores não terão o sentimento de culpa. Uma das entrevistadas que passou por esse processo disse que foi a pior decisão de sua vida. Para Ross e Baron-Sorensen (2007), a opção pela eutanásia do animal pode ser a primeira vez que a pessoa considera a cessação da vida. A culpa pode estar presente mesmo que não tenha sido necessária a eutanásia. É uma das reações comuns diante da perda.
É difícil dizer qual a melhor forma de lidar com o sentimento de culpa de maneira generalizada, porque para cada díade tem uma questão singular do tutor, que costuma ser: “e se eu tivesse feito isso” ou “se eu não tivesse feito aquilo”. E, por fim, com frequência ele percebe que qualquer atitude em relação ao amado animal foi com o melhor dos propósitos. Algumas vezes, quando a autoacusação é constante e duradoura, com prejuízo das atividades, o atendimento psicológico é indicado.
Alguns escolhem ter um novo animal logo após a perda. Essa atitude ajuda na elaboração do luto? 
Depende da condição que ocorre a aquisição. Se não for para evitar lidar com a perda, e se for por própria vontade do enlutado, é uma atitude positiva no processo de luto, que permitirá que o enlutado se dedique às atividades com o novo animal, fazendo comparações saudáveis com o animal falecido. A atitude é negativa se não for desejo do enlutado. Quando imposta por terceiros, o enlutado poderá fazer comparações no sentido de que o animal falecido era muito melhor do que o atual, com rejeição total ao novo animal e até abandono.
E quanto às crianças, elas devem participar e ajudar no funeral do animal de estimação?
É relevante que a criança participe dos rituais de despedida do animal. Mas a criança deve ser respeitada se não quiser estar presente. Para Zawistowski (2008), a morte do animal pode ser sua primeira experiência de morte e os pais precisam ser honestos, evitando-se dizer que o animal foi colocado para dormir – a criança poderá ficar com medo de dormir – ou que fugiu – porque ela poderá ficar pensando o que teria feito para o animal fugir.
Em sua tese de doutorado, que foi sobre este tema, quais foram as suas principais conclusões? 
Mais da metade dos participantes considerava que o animal era integrante da família (56%) e que conviver com eles significava ter amor incondicional (51%).  Estas qualificações favorecem a formação de vínculos. Nesse contexto, o processo de luto pela morte do ente querido animal é autêntico e similar ao da morte do ente querido humano tanto nas reações de pesar, quanto nas formas de enfrentamento diante da perda.
A pesquisa on-line possibilitou a expressão de sentimentos em relação à perda do animal, apesar de não ser o objetivo do estudo para aquele momento; todavia com a falta de espaço que existe para o acolhimento dessa dor, tornou-se um instrumento que deu “voz” aos participantes. Alguns deles escreveram que se beneficiaram com a pesquisa e agradeceram. (Oliveira e Franco, 2015)
Sendo assim, o luto pela morte do animal de estimação, que não é considerado por muitas pessoas que não se vincularam com animais domésticos, também requer um olhar de reconhecimento da sociedade.
Você saberia nos informar se algumas clínicas veterinárias já oferecem suporte psicológico especializado para ajudar os donos a superar a perda?
Nos Estados Unidos, o oferecimento de suporte psicológico para os tutores enlutados, dentro das clínicas, hospitais veterinários e universidades é corriqueiro. No Brasil, pouquíssimos hospitais veterinários disponibilizam o atendimento com psicólogos dentro dos hospitais para os tutores de animais sem prognóstico de cura ou para ajudá-los a resgatar seus recursos para lidar com a morte do animal.
Como pudemos ver, a sociedade não oferece um espaço seguro para os donos de animais de estimação vivenciarem seu processo de luto. Felizmente, começam a ficar disponíveis alguns recursos para ajudar essas pessoas a perceberem que seu processo de luto é natural e merece ser validado. E nós como psicólogos, devemos sempre acolher este enlutado, independente de qual seja o contexto de sua perda, e oferecer-lhe escuta ativa e disponibilidade emocional para poder auxiliá-lo a ressignificar a perda sofrida.
Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Luto
Member of British Psychological Society
Este post teve a colaboração da psicóloga Déria de Oliveira
deriaEntrevistada: Déria de Oliveira – Bacharelado em Administração. Psicóloga, Mestre em Psicologia da Saúde pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Especialista em Psicologia Hospitalar pela Faculdade de Medicina do ABC (FMABC). Pesquisadora voluntária do Projeto Pet Smile, terapia mediada por animais (2006-2010). Doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto – LELu (2010-2013).
fonte:https://perdaseluto.com/2016/04/11/estou-de-luto-meu-animal-de-estimacao-morreu/

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Luto: interrupção de relações que foram significativas.




Luto é uma palavra que acompanha o ser humano desde sempre, principalmente quando perdemos alguém de quem gostamos muito. É uma espécie de despedida forçada e para sempre. Mas afinal o que é o luto? Como se processa? É mesmo necessário esse doloroso processo?
O luto é um processo necessário e fundamental par preencher o vazio deixado por qualquer perda significativa não apenas de alguém, mas também de algo muito importante, como um objeto, uma viagem, um emprego, uma ideia, etc.
O processo de luto dá-se tanto em humanos como animais. Nos humanos o processo de luto é acompanhado por um conjunto de sentimentos, entre os quais: tristeza, raiva, culpa, ansiedade, solidão, fadiga, desamparo, choque, anseio, torpor, alívio e emancipação. Refletindo-se em sintomas físicos de vazio no estômago, aperto no peito, nó na garganta, falta de ar, falta de energia, boca seca entre outros.
O luto/perda normalmente passa por 5 fases:
A negação- Surge a primeira fase do luto, é no momento que nos parece impossível a perda, em que não somos capazes de acreditar. A dor da perda seria tão grande, que não pode ser possível, não poderia ser real.
A raiva – A raiva surge depois da negação. Mas mesmo assim, apesar da perda já consumada negamo-nos a acreditar. Pensamento de “ porque a mim?” surgem nesta fase, como também sentimentos de inveja e raiva. Nesta fase, qualquer palavra de conforto, parece-nos falsa, custando acreditar na sua veracidade
A negociação- A negociação, surge quando o individuo começa a por a hipótese da perda, e perante isso tenta negociar, a maioria das vezes com Deus, para que esta não seja verdade. As negociações com Deus, são sempre sob forma de promessas ou sacrifícios.
A depressão – A depressão surge quando o individuo toma consciência que a perda é inevitável e incontornável. Não há como escapar à perda, este sente o “espaço” vazio da pessoa (ou coisa) que perdeu. Toma consciência que nunca mais irá ver aquela pessoa (ou coisa), e com o desaparecimento dele, vão com ela todos os sonhos, projetos e todas as lembranças associadas a essa pessoa ganham um novo valor.
A aceitação – Última fase do luto. Esta fase é quando a pessoa aceita a perda com paz e serenidade, sem desespero nem negação. Nesta fase o espaço vazio deixado pela perda é preenchido. Esta fase depende muito da capacidade da pessoa mudar a perspetiva e preencher o vazio.
As fases do luto, não possuem um tempo predefinido para acontecerem. Depende da perda e da pessoa. Porém sabe-se que a que leva mais tempo é da fase da depressão para a fase de aceitação, algumas pessoas levam décadas de vida e outras nunca conseguiram aceitar com serenidade a perda. Acontece principalmente no caso de perda de um filho.
Devemos sempre valorizar o que temos, enquanto o temos. Pois não sabemos quando o vamos deixar de ter. Curiosamente muitas vezes só nos apercebemos da importância de determinada pessoa ou coisa, quando a perdemos, porque o valor dessas pessoas ou coisas dilui-se no valor das coisas que a rodeiam. Essas pessoas ou coisas são tão subtis ao valorizarem o ambiente envolvente, que o seu próprio valor divide-se entre tudo o que a rodeia, tornando-se quase imperceptível. Porém quando a perdemos, não a perdemos apenas a ela, mas muito do valor das coisas que a rodeavam e é aí que notamos a sua falta.
Metaforicamente falando, como se o ambiente que a envolvia “entristecesse” e “perdesse a cor”, e dificilmente voltará a ser como era.
E você, passa por estas fases nos seus Lutos?

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Por que tem tanta gente com uma tatuagem de um ponto e vírgula?

tatuagem de ponto e vírgula (Foto: Kate Elizabeth / flickr / creative commons)
Não sei você, mas nas minhas voltas pela internet percebi uma popularização de uma tatuagem inusitada: um ponto e vírgula. Investigando a tendência, o pessoal do Upworthy descobriu a história incrível por trás da moda - o The Semicolon Tattoo Project (semicolon é ponto e vírgula em inglês), que nasceu de uma movimentação nas redes sociais em 2013.
É um movimento que, de acordo com os próprios integrantes, 'mostra amor e esperança a quem tem tendências depressivas e suicidas'. Originalmente, pedia que quem se identificasse com esses objetivos desenhasse um ponto e vírgula em algum lugar de seus corpos e compartilhar em redes sociais. Mas por que um ponto e vírgula? "Um ponto e vírgula é usado quando um autor pode terminar uma frase, mas escolhe continuar" - signficado profundo quando aplicado ao projeto.
No ano passado os líderes do projeto, juntamente com um estudo de tatuagem, ofereceram mais de 400 tattoos de ponto e vírgula para quem luta ou já superou problemas psicológicos. 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

PERDAS E LUTOS QUE ENFRENTAMOS AO LONGO DA VIDA

grief 2

Fonte:http://psicanaliseblog.com.br/2015/03/02/perdas-e-lutos-que-enfrentamos-ao-longo-da-vida/

A vida é um constante processo de perda e superação. Há diferentes tipos de perdas, mais ou menos intensas. Mais ou menos definitivas. Em todos os casos somos colocados diante da necessidade de viver o luto, enfrentar a ausência e a falta e elaborá-las, para que a vida siga em frente. Ao contrário do que alguns imaginam, mergulhar naquilo que gerou tristeza pode ser uma parte fundamental desse processo. O luto – enquanto trabalho a ser realizado a partir de uma perda – promove um maior nível de integração e amadurecimento da personalidade. Sobre o assunto, vale conferir o texto abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Sylvia Pupo.
Perdas e lutos que enfrentamos ao longo da vida
Por Sylvia Pupo*
“Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, diz a última estrofe do samba, sugerindo que devemos ser inabaláveis frente aos tombos que a vida nos dá.
Com admiração, geralmente, são vistas as pessoas que não se abatem ante uma perda, golpe ou obstáculo. São estimuladas a mostrar força e quase ausência de sentimentos. “Bola pra frente!”. Como sinal de força e maturidade são instigadas a esquecer rapidamente o acontecido e prosseguir.
Há tantos tipos e intensidades de perdas e de lutos a fazer. Há lutos por mortes ou separações, pelas próprias expectativas não atingidas, por um filho que cresceu e nos obrigou a nos re-situar como pais; por formar-se e ter que procurar um emprego, pela perda da infância, pelo envelhecimento…Cada fase da vida é acompanhada de mudanças; mudanças que nos desalojam e podem ser sentidas como perdas, demandando um trabalho interno de luto. O que é sentido como perda para um, pode não afetar um outro da mesma maneira.
Desde pequenas separações, até perdas mais definitivas, os lutos a fazer são diários e seus efeitos e possibilidades de elaboração vão depender, dentre outros fatores, da história afetiva dos sujeitos e da qualidade de seus vínculos primeiros. Muitas, entretanto, são necessárias e estruturantes.
Algumas pessoas acabam criando “soluções maníacas” para lidar com uma situação de perda. Desenvolvem uma excitação que substitui a esperada tristeza. A tal da “volta por cima” pode incluir viagens, festas, gastos, drogas, esportes, comportamentos em excesso que visam ajudar a não pensar ou sentir.
Ao contrário, é necessário “dar a volta por baixo”, poder falar a respeito, sentir, entristecer-se e mergulhar para voltar à tona. Esta é uma etapa fundamental no trabalho de luto, termo sugerido por Freud, em relação ao processo para a elaboração de toda perda. O reconhecimento de uma perda é um passo fundamental para a sua aceitação.
O processo de luto é uma etapa natural e necessária, que quando terminado vai promover um maior nível de integração e amadurecimento da personalidade. Aqueles que puderem contar com acompanhamento psicoterápico podem se beneficiar muito disto, principalmente nestes momentos
É importante distinguirmos um luto “normal”, esperado, de um luto patológico, de duração prolongada, onde há transformação da tristeza em depressão. A tristeza é um estado natural, dentre outros, que se seguem a uma perda.
Numa sociedade em que a tristeza não pode ser tolerada e deve ser medicalizada há uma demanda de que sejamos sempre felizes e bem sucedidos, o espaço para a fragilidade e para a própria subjetividade é cada vez menor. O ritmo acelerado nos faz também atropelar as emoções e o tempo necessário para cada um finalizar seus processos.
O luto vai na direção oposta. Ele traz consigo uma necessidade temporária de recolhimento, de parada. Promove uma “regressão” como medida de economia psíquica até o momento em que a pessoa em questão possa retomar seu investimento no mundo. É um tempo de convalescença psíquica.
A impossibilidade de uma pessoa vivenciar as fases necessárias de um trabalho de luto, ou mesmo um prolongamento deste período, pode levar a estados cronificados de melancolia, ressentimento e desvitalização.
É importante, que além do trabalho de elaboração individual – com ou sem auxílio de uma psicoterapia – o apoio do grupo social e a utilização de recursos simbólicos e certos rituais presentes na Cultura como um auxílio na elaboração dessas etapas.
*Sylvia Pupo é psicanalista e membro da SBPSP
Bibliografia – Freud, .S. (1817[1915] /1988) “Luto e melancolia in Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago.
“Volta por cima” samba de de Noite Ilustrada

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Cão é usado para amenizar a dor da perda durante velórios no litoral de SP

16/07/2015 07h23 - Atualizado em 16/07/2015 07h23

Cão é usado para amenizar a dor da perda durante velórios no litoral de SP

Iniciativa acontece há pouco mais de um mês em cemitério vertical de Santos.
Freud e Victória 'trabalham' juntos há dez anos em pet terapia.

Rafaella MendesDo G1 Santos
Freud tem 11 anos é trabalha ajudando a amenizar a dor da perda  (Foto: Rafaella Mendes/G1)Freud tem 11 anos e trabalha ajudando a amenizar a dor da perda (Foto: Rafaella Mendes/G1)
Um funcionário diferente e que, em um primeiro momento, pode causar estranheza a quem precisa ir aos velórios realizados do cemitério vertical Memorial Necrópole Ecumênica, em Santos, no litoral de São Paulo, tem conquistado a simpatia das pessoas e seu próprio espaço. O cãozinho Freud, de 11 anos, tem a missão de amenizar a dor da perda dos entes queridos, atuando três vezes por semana.
Idealizadora do projeto trabalha há 20 anos com pet terapia  (Foto: Rafaella Mendes/G1)Idealizadora do projeto trabalha há 20 anos com pet
terapia (Foto: Rafaella Mendes/G1)
A dona do animal, Victoria Girardelli, idealizadora do Dr. AuAu, trabalha com pet terapia há 10 anos, sempre em ambiente hospitalar. Há pouco mais de um mês, no entanto, decidiu atuar em um espaço onde as famílias enfrentam o sentimento de perda, mesmo a raça schauzer não sendo muito utilizada neste tipo de trabalho, por conta do seu temperamento.
“A atuação do Freud vem sendo super elogiada. Ele chega de mansinho e logo vai ganhando seu espaço. O legal é que ele sempre traz uma mensagem e as pessoas logo se agacham para saber do que se trata. Explico que ele faz parte do projeto de terapia e, sem perceber, a pessoa já está se distraindo e conseguindo amenizar um pouco da sua dor”, comenta Victoria.
Diretor Comercial aprova projeto que tem trazido bons resultados  (Foto: Rafaella Mendes/G1)Diretor comercial aprova projeto, que tem trazido
bons resultados (Foto: Rafaella Mendes/G1)
A terapeuta explica que é preciso haver uma sintonia com o cachorro para que ele obedeça, mesmo com uma personalidade difícil.  “É um trabalho totalmente gratificante. O Freud também gosta muito quando eu o coloco na sacola. Ele já sabe para onde vamos e fica todo feliz. O trabalho de amenizar a dor gera um prazer ímpar”, relata.
A técnica de enfermagem Verônica Camilo presenciou a atuação de Freud e acredita que ele pode ajudar a distrair as famílias e pessoas que passam pelo momento de perda de um ente querido. “É muito legal encontrar um animal nesse momento. Isso ameniza muito a nossa dor”, ressalta.
Para o diretor comercial do grupo Memorial, Marco Ricardo Africano, o projeto tem trazido bons resultados e várias pessoas têm enfrentado com mais facilidade o momento difícil da perda. “Existe aquela troca de sentimentos e sensações”, conclui.
Freud desperta carinho e alegria mesmo em dias mais díficieis  (Foto: Rafaella Mendes/G1)Freud desperta carinho e alegria, mesmo em dias mais difíceis (Foto: Rafaella Mendes/G1)
Fonte: O Globo

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Distimia: um embrulho só

Vale muito a leitura!
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A mais grave consequência dessa mudança ideológica da criação de novos diagnósticos ocorreu nos transtornos do humor. Nesse item, a DSM-IV e, em um grau quase imperceptivelmente menor na CID-10, sob a capa de uma suposta cientificidade, produziram uma involução diagnóstica. Na fúria para eliminar o termo ‘neurose’, as classificações fundiram os diagnósticos de neurose depressiva e personalidade depressiva em uma única categoria clínica: a distimia. Na psicopatologia geral, a palavra distimia referia-se a um sintoma, o da quebra súbita do controle do humor, como, por analogia, disbulia refere-se à quebra súbita do controle da vontade. Contrariamente a sua origem etimológica, o termo distimia foi elevado de sintoma à categoria de diagnóstico. Ao mesmo tempo, o novo uso do termo distimia o tornou impreciso em relação a sua fronteira com o diagnóstico de transtorno depressivo maior.
Na neurose depressiva ou depressão neurótica, temos um quadro de hipotimia, surgido a partir de um tempo preciso ou não, mas que nitidamente não existia antes, pelo menos em gravidade. Um quadro clínico que, em sua maioria, não é incapacitante para a vida social e para o trabalho. Na neurose, a ‘depressão’ surgiu há um tempo determinado, incomoda seu portador, muitas vezes com a mescla de ansiedade e depressão ansiosa, e o paciente procura pelo tratamento. As pessoas à volta do paciente podem ou não sofrer com seu transtorno, mas é bem claro que ele sofre muito mais. Certamente trata-se mais de um sintoma subjetivo do que de um sintoma social (aqui nos referimos aos sintomas sociais como transtornos socialmente desagregadores, desde os conflitos intersubjetivos até legais, e não ao conceito psicanalítico de laço social). A experiência clínica mostra como tais pacientes não reagem ou reagem mal aos antidepressivos. Entre pesquisas que classificam taxas altíssimas de incidência e prevalência da ‘depressão’, os pacientes com neurose depressiva constituem um dos grandes mercados para tratamentos psicoterápicos de todos os tipos. Até a CID-9 o diagnóstico de depressão neurótica fora mantido.
Em paralelo, na mesma classificação anterior, entre os transtornos de personalidade, era incluído o transtorno afetivo de personalidade, no qual podiam ser englobados, também, os diagnósticos de personalidade depressiva e de personalidade ciclotímica. Ainda existia em tratados de psiquiatria um termo mais remoto: a personalidade hipomaníaca. Em todos esses diagnósticos, o sintoma é muito mais social que subjetivo. O paciente sofre menos que os outros a sua volta ou, então, simplesmente não sofre. Raramente o portador de um transtorno de personalidade busca tratamento. E, como em todos os outros transtornos de personalidade, aqueles associados com a afetividade também não respondem à medicação. Caricaturalmente, a personalidade depressiva é rotulada por muitos de síndrome da hiena, em referência a um antigo desenho animado infantil, em que a personagem, eternamente queixosa e pessimista, sempre repetia: ó vida, ó azar! Quando associado a queixas hipocondríacas, o diagnóstico é facilmente identificável para o leigo: aquelas pessoas que você se arrepende de perguntar – como vai?
A distinção de neurose e transtorno de personalidade é equivalente na obra de Freud à distinção entre neurose transferencial e neurose de caráter, que culminou possuindo por fulcro a distinção psicanalítica entre ego-distônico e ego-sintônico, diferença estrutural básica para a clínica. Curiosamente, os mentores do DSM-IV, em sua ojeriza à Psicanálise, esqueceram de retirar esse conceito, revelando como mesmo a mais descritiva das classificações torna-se incompreensível sem alguma compreensão dinâmica. Na DSM-IV, lemos (2002, p. 642): “(...) as características que definem um Transtorno de Personalidade podem não ser consideradas problemáticas pelo indivíduo (i.e., os traços são ego-sintônicos)”.
A classificação atual manteve a categoria genérica dos transtornos de personalidade, mas retirou qualquer diagnóstico referente aos transtornos afetivos de personalidade. Além do transtorno depressivo de personalidade, também foram suprimidos os transtornos de personalidade ciclotímico e hipomaníaco. Tratou-se de uma exclusão específica e notória, uma vez que todos os outros transtornos de personalidade antigos foram mantidos: obsessivo-compulsivo, histriônico, paranoide, esquizoide, antissocial. Sendo assim, todo e qualquer transtorno do humor foi considerado ego-distônico, portanto sempre necessitando de tratamento, medicamentoso, é claro.
Neurose depressiva e personalidade depressiva foram fundidas sob a égide da distimia. E nessa um pequeno item, se considerados todos os outros diagnósticos da seção de transtornos do humor, antigamente considerados ‘psicóticos’. Qualquer leigo com acesso à internet ou médico de formação precária em Psiquiatria irá ler hoje a distimia não entre as neuroses e os transtornos de ansiedade – ‘mais leves’ –, mas ao lado da antiga psicose maníaco-depressiva e dos atuais transtornos bipolar e depressivo maior – ‘muito mais graves e sérios’.
Movida por uma ideologia declaradamente antipsicanalítica, a redução de todos os quadros de depressão não psicótica no diagnóstico de distimia, embasa a idéia de que todas as depressões são medicalizáveis. A aliança da psiquiatria organicista com a terapia comportamental, que também se expressa com grande intensidade no Brasil, reflete a luta pelo mercado do tratamento das depressões diante de todas as outras formas de psicoterapia, principalmente a psicanalítica. A crítica de que a maioria das depressões neuróticas e das personalidades depressivas não reage ou reage mal à medicação ficou obscurecida pela criação do diagnóstico atual de distimia.
O excesso do uso de antidepressivos tem conduzido a uma revisão crescente de sua eficácia e de seus efeitos colaterais (bem compreensíveis, se considerarmos a psicodinâmica dos transtornos de humor), como o aumento de suicídios, assim como os estudos sobre a cessação de seus efeitos após certo tempo. As críticas se tornaram ainda mais agudas nos últimos anos. Se forem reais as hipóteses do aumento da incidência dos quadros de esclerose múltipla e de doença de Alzheimer nos países industrializados do Ocidente, além de causas ambientais como a poluição, o uso excessivo e continuado de medicações psiquiátricas terá de ser pesquisado seriamente como uma das possíveis causas. Mas a ‘era do Prozac’ baseia-se em mais do que em um conflito de interesses de mercado.



terça-feira, 14 de abril de 2015

Distimia e Psicanálise

Ia escrever pessoalmente sobre distimia e psicanálise a pedido de uma Leitora, porém, encontrei esse texto que considerei digno de compartilhamento por ser completo e bem elucidativo! 
Por favor curtam em curtir e compartilhem!



Vanda C.Pignataro Pereira


Antes de tudo, gostaria de agradecer o convite feito pela AMP para falar deste tema e expor, no que diz respeito ao tratamento, o que a Psicanálise pode trazer como contribuição para um assunto tão relevante e atual.
Começo dizendo com Freud que a psicanálise é um método terapêutico e como os demais tem seus triunfos, suas derrotas, suas dificuldades e suas indicações.
Com algum bom humor poderíamos até dizer que a Psicanálise e a Psiquiatria compartilham, nos seus resultados, da impossibilidade de competir com os resultados do Padre Cícero por exemplo, posto que devem ser mais numerosas as pessoas que crêem em milagres do que as que crêem no inconsciente ou na serotonina... Contudo, se além de método terapêutic, a Psicanálise puder ser reconhecida pelas verdades que contém, pelas informações que nos proporciona a respeito daquilo que mais interessa ao ser humano_ a sua própria natureza_ e pelas conexões que ela desvenda, já terá justificado o fato de ser um método impar.
No mais atual das diretrizes diagnosticas em psiquiatria, deparamo-nos na seção dedicada aos transtornos persistentes do humor, com o diagnóstico denominadoDistimia. Em sua descrição, surpreendemo-nos ao encontrar a seguinte observação "os pacientes se descrevem como estando bem, mas na maior parte do tempo, por freqüência meses, sentem-se cansados,deprimidos, nada é desfrutável e portanto tem muito em comum com os conceitos de neurose depressiva ou depressão neurótica".
Freud nunca trabalhou com esta categoria diagnostica_ a Distimia. A neurose, a psicose e a perversão são os diagnósticos, de estrutura com os quais a Psicanálise trabalha. Assim manter-se fiel a Freud implica levar isso em consideração.
Sabemos, por experiência clínica, que um neurótico é incapaz de aproveitar a vida e ser eficiente. Incapaz porque sua libido não se dirige a nenhum objeto real e ineficiente porque despende sua energia para manter a libido sob recalcamento e repelir seus assaltos. Sua libido acha-se então comprometida com seus sintomas, sua única satisfação substitutiva possível. Obviamente isto visto na prática, tem conseqüências, uma vez que teremos sempre que considerar que, se o sintoma leva o sujeito a procurar ajuda e se essa solicitação se refere a uma certa harmonia que se viu quebrada, o sentido etimológico da palavra -sintoma- é mesmo " o que se produz junto", "o que coincide". Esta é a conotação medica que o sintoma tem. Entretanto, se o abordamos do viés psicanalitico, o sintoma muda radicalmente de valor_ decisiva contribuição de Freud. No discurso analítico o sintoma já não se articula a uma harmonia , antes pelo contrário, a uma desarmonia, e só daí podemos extrair o sujeito como um ser falante do sintoma.
Ao partir do sintoma como interpretável Freud esbarra na reação terapêutica negativa, demonstrando-nos que ele deve ser abordado a partir de duas frentes: Como mensagem cifrada, a ser decifrada e como maneira de gozar o que implica, se no sintoma algo que se satisfaz de maneira fechada, em o sujeito não querer se ver assim tão facilmente livre dele.
Quanto ao humor, as investigações de Freud datadas de 1927, portanto quando já desenvolvera sua 2a. tópica, são no sentido de apontar que ele tem algo de liberador , alinhando-o ao chiste e ao cômico. Evidentemente Freud fala de um humor oposto ao humor distimico, aponta esta capacidade do aparelho psíquico de desviar do sofrimento , colocando-o _ o humor_ entre a série de métodos nobres que a mente humana construiu a fim de fugir da compulsão para sofrer. Se o chiste é a contribuição feita ao cômico pelo inconsciente, o humor seria a contribuição feita ao cômico pela intervenção do superego, como se o eu temporariamente, se colocasse sob a proteção daquele, ao invés de em oposição. Melhor dizendo, ser capaz de extrair graça das desgraças não é próprio do distimico, seria preciso humor , justo o que ele parece não ter.
Para pensar a questão depressiva, do ponto de vista psicanalítico, classicamente é o luto, desde Freud, que propicia o paradigma da depressão. O texto referencial, "Luto e Melancolia" serve de reflexão para essas duas condições clínicas, depressivas por excelência..
Apesar do luto envolver graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, perde-se o apetite, acontece a insônia, a tristeza domina o quadro, mas jamais nos ocorre considerá-lo como condição patológica e submetê-lo a tratamento. Freud se pergunta por que sendo uma condição natural diante da perda, seu processo se faz de forma tão dolorosa. Mas pensando bem, percebe-se que esse aspecto misterioso do luto está em acordo com um aparelho psíquico que se constitui às expensas de uma insatisfação ( a experiência de satisfação é mais uma experiência de insatisfação), de uma dor que nunca se extingue, põe-se no máximo em suspensão e de um campo alhures que se constitui_ o campo do Outro.
Acentua Freud que os traços distintivos da melancolia e do luto decorrem da grave perturbação da auto estima presente na primeira que encontra expressão no auto-envilecimento e auto-recriminação e culminam com uma expectativa delirante de punição. Conclui que há uma inibição e circunscrição do eu. Este é um ponto reafirmado em "Inibição Sintoma e Angústia"- onde vai distinguir duas categorias de inibição do eu_ uma como defesa para não entrar em conflito com o supereu e outra como empobrecimento de energia. É assim que Freud tratará da dor do luto e a depressão se caracterizaria por esse desinvestimento. O que entra em causa é o campo do Outro o que Freud chama de desinvestimento do mundo exterior. Nesse mesmo texto aponta para um luto que ele classifica como patológico, aproximando-o da condição obsessiva, pelo conflito ligado à ambivalência objetal, que o prolonga excessivamente.
Sabemos que o neurótico é aquele que cede sobre seu desejo, mantém-se aferrado à comodidade que seu fantasma lhe proporciona, e é também o covarde moral, que se resguarda da castração, gozando com sua impotência. A noção psiquiátrica de humor, encontra sua ressonância no texto freudiano com relação à teoria dos afetos. Quando dizemos afetos e sentimentos inconscientes, é por um abuso de linguagem. Da pulsão, o que cai sob o golpe do recalque, é o representante ideativo, vale dizer, o lado significante da pulsão é que permanece inconsciente. O afeto, este se desloca, é essa sua natureza _ desnaturalizar-se quanto à origem_ para se ligar a outros significantes. Por isso é preciso verificá-lo, devolvê-lo a sua verdadeira face. Esta é uma indicação clínica precisa no que diz respeito à condução do tratamento. Por exemplo, a tristeza com seu correlato suicida, pode muito bem esconder uma ânsia de matar. Quantos psiquiatras perplexos se mortificam ao se surpreenderem com o fato de que, apesar de estarem corretamente conduzindo o tratamento o paciente se mata ?
O afeto embaralha as pistas , desvirtua a decifração simbólica e, exceto a angústia, é enganador. Daí a necessidade de clinicamente ser verificado.
Introduzir a clinica psicanalítica no campo dos distúrbios de humor em psiquiatria, tem conseqüências. Primeiro por que não há psicanálise sem transferê ncia, a transferência é uma estrutura e o que ordena a experiência é o discurso analítico. A escritura deste discurso, nos permite situar os fenômenos da transferência que sabemos não serem simples. Depois com muita relevância, sabemos que a clínica psicanalítica visa à estrutura do sujeito, o que nos remete rapidamente à pergunta de como ela a atinge. Fazendo emergir no cerne desta estrutura, um Outro lugar. Só existe sujeito em função do Outro. Isto é problemático quando pensamos que os distúrbios de humor são concebidos em psiquiatria no seio de um questionamento intrasubjetivo.
Dentro do referencial analítico, que tratamento dar a esses afetos: tristeza, raiva, etc... Lacan em " Televisão", fazendo ressonância com a teoria dos afetos em Freud, restaura a noção das paixões da alma, noção que tem sua origem em Aristóeles e Tomás de Aquino, para quem alma está indissociada do corpo, ou melhor "alma é a forma do corpo" apontando com isso menos a matéria e mais a imagem Assim, o afeto chega a um corpo habitado pela linguagem e quando aí não encontra alojamento, passa a chamar-se morosidade, mal-humor. Ao considerar o afeto fundamentalmente como pecado e tomar a tristeza, por exemplo como falta moral, qual seja falta ética, perante o dever de bem dizer, o que o sujeito mergulhado na tristeza está evitando é medir-se com o desejo do Outro e com o gozo que teria de sacrificar a ele. Desta perspectiva, a tristeza é uma maneira de ignorar que o desejo se fundamenta no Outro. Com isso a problemática da falta é evitada e substituída pela problemática do ter e da dádiva. O sujeito sempre esperando que deve haver alguma coisa que o cure de um mal-estar que é de estrutura, nada querendo saber de seu incurável, vale dizer de sua divisão, acaba levando-a um impasse do qual se recusa sair. As chamadas depressões refratárias ai estão a nos demonstrar isso à exaustão.
Como e porque, nesse sujeito dito deprimido, a organização significante que comanda seu discurso inconsciente, permanece tão distinta do gozo, porque ele faz tanta questão de ignorar o desejo do Outro, nos fica como questão.
Gostaria ainda, para finalizar, de dizer que se observarmos atentamente o manual "Programa Educacional sobre Distimia para Psiquiatras", somos forçados a perceber, que sintomatologicamente, ora o quadro se aproxima do que em Freud se chama melancolia, ora do que se descreve sob o nome de luto patológico. Neste ponto quero lembrar algumas de suas palavras ao examinar as relações da Psiquiatria com a Psicanálise: "É de se esperar que em futuro não muito distante, perceber-se-á que uma psiquiatria cientificamente fundamentada não será possível sem um sólido conhecimento dos processos inconscientes da vida mental"._ Nosso esforço.
Bibliografia
1) Freud, S. _Novas conferencias Introdutórias_ .XXXIV- ESB vol.XXII Imago,RJ,1976.
2) Ibdem - Conferencia Introdutória XVI - pag. 302
3)Freud, S.- "Luto e Melancolia"VOL. XIV
4Lacan , J.- Televisão ( mimeo)
5) Soler, S.- Artigos clinicos ED. Fator 1991, Salvador
6)André, S. -"A impostura perversa"Ed. JZE RJ !995, pag. 205
7)Freud, S -"Inibição,sintoma e angustia"
8) Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento- CID 10
9) Vidal, E A - Revista da letra Freudiana , no. 11/12/13/14/.- RJ
10) Cottet,S.- "Como se analiza hoy"- Ed. Manantial- Buenos Aires
11) Miller, J.A- "La envoltura formal del sintoma"- Ed.Manantial,B.Aires,1989