Mostrando postagens com marcador Crianças. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crianças. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de março de 2016

Filhos abandonados dentro da própria casa


Encontrar filhos abandonados emocionalmente pelas famílias é uma dura realidade

Hoje, vivemos um tempo de grande transformação nos relacionamentos sociais. Em pouco tempo, evoluímos enormemente nas possibilidades de comunicação pessoal a distância. Eu, por exemplo, peguei a época em que só existia telefone fixo (com fio) e “orelhões” de rua (sem celular ou internet), e a comunicação escrita era feita por carta. Na minha adolescência, passei muitas horas (todos os dias!) brincando e conversando na rua com os amigos, e em casa com a família. Quando alguém estava presencialmente com outra pessoa, havia muito pouca distração. Tínhamos de investir no relacionamento “ao vivo”, demonstrar sentimentos, conquistar a simpatia dos outros. Mas os tempos mudaram e estima-se que o brasileiro passa, aproximadamente, de três a quatro horas por dia conectado, interagindo via internet, o que reduz muito sua convivência física com amigos e familiares.
Filhos abandonados dentro da própria casa
Foto: Daniel Mafra/cancaonova.com

Estamos esquecendo como amar

Fico impressionada quando vejo o desenvolvimento de formas de demonstrar emoções via internet (desenhos, “se sentindo…”, carinhas de todos os tipos). As pessoas estão se tornando ótimas no marketing emocional externo, mas estão esquecendo como amar, como fazer carinho físico, como olhar nos olhos e dar atenção a quem está perto. Será que isso não é reflexo da dificuldade de nos abrirmos aos laços emocionais reais e fortes na nossa intimidade?

Medo de expor traumas e fraquezas

Será que não é medo de expor nossos traumas e fraquezas? Digo isso, porque, apesar da internet ser um meio real de conhecimento pessoal e uma forma de diálogo, há um fator limitante que tendencia essa experiência a ser uma ilusão: eu mostro somente o que quero mostrar. Já no convívio concreto, não tenho tanto o domínio sobre a exposição, porque meus gestos, minha entonação de voz, a linguagem corporal, a resposta imediata frente aos estímulos e minhas atitudes reais tornam-me muito mais vulnerável a ser realmente conhecido de maneira mais completa, inclusive naquilo que ainda não está bem equilibrado em mim.

Consequências da ausência dos pais

Claro que essa desconexão dos relacionamentos concretos é um problema. Ele se torna muito mais grave (e com fortes repercussões) quando a conexão enfraquecida é o laço familiar com uma criança ou adolescente. A criança nasce completamente dependente da atenção dos pais. À medida que vai crescendo, vai aprendendo a ter autonomia e tornando-se mais independente. Porém, a atenção real dos pais é indispensável para o saudável desenvolvimento emocional dos filhos. Vários estudos mostram que as consequências da ausência dos pais são graves e podem causar agressividade, tristeza, desenvolvimento de tiques e problemas na escola.

Presentes e ausentes ao mesmo tempo

A questão que quero levantar é que, hoje, muitos pais estão presentes e ausentes ao mesmo tempo. Em corpo estão ali, mas envolvidos com outras coisas. A criança se sente ignorada emocionalmente. Celular, Ipad, notebook, TV… Corpo presente, mente e atenção em outro lugar, com outro foco. Essa falta de atenção gera o sentimento de não ser importante, de não ser amado, de não ser suficiente para atrair a mãe e pai. Os filhos precisam sentir que há envolvimento dos pais, que eles sentem prazer em estar em sua companhia, que estão se divertindo ao brincar com eles. O contato físico e o carinho representam estabilidade e segurança para que eles aprendam o que é um relacionamento afetivo.

Degraus do amadurecimento humano

Sei que a vida é corrida, por isso mesmo é preciso que o tempo designado para estar com os filhos seja de grande qualidade. São preferíveis trinta minutos de exclusividade do que mais tempo ao lado deles, porém fazendo uso das redes sociais. Um dos grandes degraus do amadurecimento humano é aprender a dar importância ao que é importante. Sei que seus filhos e sua família são importantes para você; então, simplesmente esteja ali, de verdade, por inteiro onde estiver. O amor de Deus age por meio de nós, para nos ensinar novas formas de demonstrar o que nós sempre sentimos, o amor que temos aos que nos são preciosos. Você vai se surpreender com a resposta dos seus filhos ao se conectarem com você de verdade.

Coragem! #offlinevaleapena

Roberta Castro

Roberta Castro é Ginecologista e especialista em terapia familiar. Coordenadora do Ministério de Música e Artes da Renovação Carismática Católica no Estado do Espírito Santo.
Escritora pela editora Canção Nova

http://formacao.cancaonova.com/familia/pais-e-filhos/filhos-abandonados-dentro-da-propria-casa/

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Falar a Verdade - Françoise Dolto



sexta-feira, 18 de setembro de 2015

CineFreudiano: Mary e Max / Um vidro de lágrimas e o poder da transferência.

do site CineFreudiano

de  Mirelle Araújo
Pra começar preciso dizer que é impressionante como a gente esquece, logo após os primeiros minutos de filme, que é um desenho, que é um filme de animação em stop motion.
Quis pensar esse filme com vocês pela sutileza com que ele trata de assuntos tão graves, tão violentos: solidão, depressão, sexualidade, suicídio, desamparo, compulsão, drogadição, bullying, fobia, síndrome de asperger. E as descobertas infantis de como funciona o mundo.
Cometi o ato filosoficamente esperançoso de lançar mão dele numa atividade em sala de aula para crianças agitadas de 10 anos, numa certa escola de ensino fundamental em Goiânia; foi um desastre. Aquilo podia até parecer desenho animado, e por isso achei que os capturaria, mas foi no só depois que percebi o quanto era “des-animado”, no melhor sentido do termo, se é que me entendem. Aquilo não era coisa pra criança(?). Um filme praticamente todo narrado, com alguns poucos diálogos, com um humor nada convencional e profundamente filosófico. Coisa talvez exigente demais pra quem está mergulhado no automaton do dia a dia, ainda mais para aqueles jovenzinhos tão jovens, tão touchscreen, contando os segundos para o sinal bater e saírem correndo e alvoroçados da sala de aula, onde tinham uma professora metida a criação de Ziraldo “professora maluquinha”. Fiquei murchinhaaaa depois que eles se foram. Pensando o quanto aquilo era bonito de se ver e de se entender… E não tinha funcionado.
“De onde vêm os bebês?”, é o que Mary pergunta em uma das cartas que envia ao novo amigo desconhecido “sorteado” no catálogo telefônico…   É claro que essa pergunta infantil vai nos remeter a todas aquelas curiosidades infantis tão exploradas por Freud ao analisar os pequenos, fonte de boa parte da construção da psicanálise. Mas esse é um filme pintado com os tons da Melancolia e que vai falar, à primeira vista, de amizade e da força desse laço. A ‘amizade diferente’, como é intitulada, enlaçada via cartas nos remete à comparações com o que vivemos hoje na nova forma virtual de nos relacionarmos ou na nova forma virtual que inventamos de não nos relacionarmos.
Mary e Max também nunca se viram, se não por cartas e objetos enviados, e por duas décadas se corresponderam dando bastante tijolo e cimento ao imaginário. Talvez o que tenha me frustrado tanto é que as crianças da sala de aula do ensino fundamental 2 ainda não podiam ver o que a minha criança crescida via ali, à segunda vista: um verdadeiro tratado sobre a solidão.
Mas antes de qualquer coisa, e foi o que me capturou, é um filme que vai nos falar da necessidade de falar de si e do que isso realiza enquanto processo, o que vai sempre nos remeter àquilo em que está a nossa principal crença enquanto analistas, a talking cure, a cura pela fala. A saber, a fala ao analista, aqui ausente. Apesar disso, lá estavam eles, associando livremente.
Então temos a australiana de 8 anos e o novaiorquino de 44. Sépia e Cinza. E o que faz a história ainda mais curiosa é a improbabilidade desta conexão, mas que acha encaixe, faz encontro, quando esbarram no que lhes é comum, a falta, personificada ali pelo que estou chamando de solidão. Acabaram encontrando um no outro o apoio que precisavam para serem aceitos como são, em sua alteridade.
Isso vai comparecer para os dois personagens, apesar das estruturas psíquicas distintas (neurose e psicose) como um espelhamento, e aí estamos mesmo falando de identificação. E é Impossível que também nós não nos identifiquemos com eles, porque estão ali falando é do nosso buraco, de temas conhecidos e experimentados na subjetividade de cada um. Mas não é sempre isso que a arte nos propõe? Que você esteja ali diante dela com o seu UM e que se perca nisso e, ao mesmo tempo, se encaixe. Cada um com sua manchinha de cocô menor ou maior, com os seus quadris implicados, suas compulsões, medos e desejos etc e tal. Assim, essa amizade se consolida em 20 anos por cartas que atravessam mares, cheias de questões existenciais… e muitos doces.
Na tentativa de dar sentido às próprias angústias de inadequação, cada qual em um contexto, é o desejo de cada um que os move, comparecendo como causa do encontro de suas vivências. Impossível também não fazer um paralelo com a contemporaneidade onde todos estão conectados e cada vez mais solitários. Se o imaginário é também o paraíso das idealizações, não só das identificações, o que “quebra o espelho” de Max é a transformação de Mary que, ao deixar de ser criança, profissionaliza-se, escreve um livro sobre “ele”, ou sobre a “doença dele” e o envia. Para ela, um ato de amor, para ele uma pedra arremessada neste espelho, um insulto, uma queda, uma decepção, um corte.
Nesse momento, para Max, Mary deixa de estar à frente, para estar de fora, na vitrine, produzindo um estudo sobre o outro que ele é. Neste ato ele é deslocado do lugar de melhor amigo, daquele que corresponde, o “correspondente”, para estar no lugar de objeto de estudo. Aparece um terceiro que vem como discurso da mestre Mary. E isto é o que não estava “combinado”. E sabemos como isso pode perturbar um Aspie, como pode ser perigoso o que está fora da margem de controle dele, o que está fora do ritual, o que desorganiza o “seu método”.
E quem é Mary? Mary é um “acidente”. É assim que é dita pela mãe. Cansada de ser ignorada pelos seus genitores, cada um afundado em seu manjar de drogas, é ela quem inaugura esta conexão ao escolher aleatoriamente, em um catálogo telefônico, o endereço de Max. Resolve que será para esse sujeito, de quem nada sabe, pra quem irá demandar suas dúvidas e confiar seus medos e segredos. Todos eles. Tão tal e qual fazemos quando elegemos um analista, para quem vamos levar o nosso vidrinho (de lágrimas).
Max está às voltas com seu Asperger, com sua maneira particular de perceber o mundo e consequente entrave em fazer laços sociais, vai se arranjando com seus chocolates também em um mundinho particular, mas é tocado por Mary (essa que apareceu para perguntar e para lhe “escutar”) de tal forma que isso passa a ser o centro de sua vida isolada. E nada o define melhor que sua própria definição: “A vida de todo mundo é como uma longa calçada. Algumas são bem pavimentadas, outras são como a minha: têm fendas, cascas de banana e bitucas de cigarro”. Ele sabe o que é ser um Max e diz: “Eu gosto de ser um Aspie.”
Mas o encontro de Mary e Max, que é um encontro de amor, é uma batida tão violenta que leva Max à loucura, literalmente. Ao mesmo tempo que o salva. Até o problema das lágrimas, Mary deu um jeito de “resolver”. Alguém consegue imaginar uma cena mais poética do que essa, quando ela o envia suas lágrimas em pote de vidro? Lágrimas doadas para Max, que não podia chorar… É o real, ali tentando se ajeitar em gesto. Esta é uma cena que eu chamei de “paralisante”. Poderia até terminar o filme ali. Mas ele segue…
E se amar é dar o que não se tem, como nos diz Lacan, foi isso que fez Max. No final, ao se aproximar literalmente, fisicamente dele, Mary fica estarrecida com a foto dela no espelho (uma bela metáfora do que lhes falei – o que chamei de espelhamento) e depois percebe que ela está por toda casa, por todos os espaços. Menos na máquina de escrever, veículo que possibilitou o encontro entre os dois, que teve um M arrancado, marcando assim de forma tão rigorosa a falta. A falta como presença daquilo que não cansa de se repetir.
No final ao encontrá-lo ali morto, Mary chora também de alegria. Ali são dois encontros. O encontro com Max e consigo mesma. O encontro de uma vida. Vale a pena ver essa obra, nem que seja pela carta final que Max escreve à Mary.
E o autor encerra com essa frase “Deus nos dá familiares…Graças a Deus que podemos escolher nossos amigos”.  E todos nós dizemos baixinho : “amém”.
“A Psicanálise é, em essência, uma cura pelo amor.” Freud
“O resto é sempre no destino humano, fecundo.” Lacan
“É preciso poder compartilhar sua lata de leite condensado.” Mirelle Araújo
Trailer Oficial

Mirelle Araújo é Psicanalista membro do NAEPP -Núcleo de Atendimento, Estudo e Pesquisa em Psicanálise, Goiânia-Go- Graduada em Psicologia pela Puc Goiás; pós-graduada em Psicanálise pela Universidade Santa Úrsula-RJ; pós-graduação em Neuropsicologia pela USP; pós-graduada em Psicodiagnóstico Infantil pelo Instituto Persona, Goiânia-Go. Site: www.naepp.com.br

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A importância da rotina para seu filho

A forma como a vida do seu filho está organizada se torna fundamental para que ele tenha um crescimento tranquilo e feliz. Especialistas explicam o por quê!

22/10/2014 11:39
Texto Adriana Fonseca
Educar
Foto: Aline Casassa
Foto: importância da rotina
As repetições ajudam a criança a lidar com o desconhecido
A maneira como as crianças pequenas lidam com a rotina, com a quebra dela e com os desafios de crescer em um mundo desconhecido merecem atenção dos pais. Quando planejar a rotina ideal para seu filho, é muito importante cuidar para não introduzir, desde cedo, o costume de uma vida atribulada, com tempo escasso para as relações e para os momentos de interação e troca.
Da mesma forma, para os pais, quanto mais a vidinha do filho estiver organizada, melhor! Vera Tschiptschin Francisco - psicanalista, pedagoga e membro-fundadora da Gesto Psicanálise - explica que o "o bebê e a criança pequena vivem uma certa fragmentação interna. Cada sentimento é muito intenso, por exemplo, a sensação de fome é uma sensação avassaladora. Por isso, garantir um tanto de cadência, de ritmo, de previsibilidade e de continuidade àquilo que já sentiu antes, àquilo que se repete, frente a toda surpresa inerente ao desenvolvimento é fundamental". Ressalta também a importância da rotina para a mãe: "a rotina acalma e diminui a angústia da mãe, que aperfeiçoa o contato e passa a se comunicar com bebê e com a criança pequena muito melhor".Muitas vezes, nós, adultos, sentimos necessidade de quebrar a rotina, variar o nosso dia a dia, fazer tudo diferente, pois nos entediamos com as repetições. Com as crianças pequenas, acontece justamente o contrário! As repetições são muito importantes para que elas consigam lidar com o desconhecido.
Por outro lado, Vera também aponta a necessidade de se manter uma flexibilidade nessa programação diária e não cometer exageros: "corre-se o risco de se apresentar um mundo para o bebê que é artificial, que é supercontrolado, onde não há variação. Consequentemente, lidar com as surpresas da vida se torna complicado, tanto para o bebê como para a mãe". A rotina do dia deve ser tratada com uma importante referência e não como uma regra extremamente rígida. Cada família deve encontrar a medida que combina com seu perfil. "Para famílias extremamente organizadas o desafio é abrir o espaço para essa flexibilidade e para as famílias mais flexíveis em relação à rotina o desafio é se organizar!".
A rotina mais estruturada é importante para o bebê nos primeiros meses de vida mas, gradualmente, ela vai sendo flexibilizada pelos pais para ajudar a criança a entender e aceitar as transformações decorrentes do seu crescimento.
Além disso, como lembra Sonia Madi - psicopedagoga e coordenadora das Olimpíadas de Língua Portuguesa do Cenpec - é importante deixar de lado o medo de colocar limites para seu filho: "Dizer não é muito importante! Muitas vezes, se pensa que se está protegendo seu filho evitando o "não", mas isso é um engano! Assim se está impossibilitando um entendimento maior que ele possa fazer sobre o funcionamento do mundo!". Por isso, não sinta pena de tirá-lo de uma situação em que está aparentemente aproveitando e seguir a rotina. Estender, por exemplo, a brincadeira e atrasar a hora de dormir pode desorganizar a vida de todos da casa.
Veja algumas dicas que podem ajudá-lo a organizar a vida de seu filho.
1. O espaço
Prepare um espaço em casa (qualquer cantinho serve!) com objetos, cores e sons adequados, propício para que seu filho vá descobrindo o mundo a sua volta. Ele deve perceber esse mundo, que não deve assustá-lo, e sim atraí-lo! Cuidado com a hiperestimulação. Certos momentos devem ser de contemplação e de relaxamento apenas. A psicanalista Vera Tschiptschin Francisco lembra que assim como os adultos, a criança pequena tem a necessidade de viver momentos de não fazer nada, sem nenhuma atividade, de estar sozinha, apenas "observando" o mundo a sua volta.
2. Os horários
Organize uma rotina que seja possível de seguir e mantenha os horários para as etapas do dia a dia acontecerem regularmente: hora de comer, brincar, tomar banho e dormir. A constância da programação traz segurança à criança, que passará lidar de maneira mais equilibrada ao movimento diário. Entretanto, Vera Tschiptschin Francisco ressalta novamente que cada família pode ajustar suas possibilidades internas e externas para organização dessa rotina. Dá o exemplo do sono da tarde: ele precisa acontecer, porém há pais que estabelecem esse horário e seguem um ritual de levar o bebê para o berço em determinada hora, independente da sua manifestação de cansaço. Outros pais aguardam até que surjam os sinais de sono, antes de colocá-lo para dormir. Não existe uma forma correta. Existe o que funciona para aquela família!
3. As refeições
A alimentação ganha na qualidade com a regularidade do horário e a forma que acontece. É importante com seu filho coma no mesmo lugar e no mesmo horário. Se um dia tem a opção de comer brincando ou sentado no sofá na frente da televisão, não entenderá porque não pode fazer isso todos os dias. Portanto, esse tipo de situação não é recomendável. Reserve essas variações para quando estiverem fora de casa, por exemplo. Caso a rotina seja alterada, é recomendável que se deixe bem claro para a criança o motivo dessa variação naquele dia e se preparar com uma dose extra de paciência para acompanhar os efeitos que essa variação pode causar em seu filho. Mesmo ele seja um bebê, deve-se conversar com ele: "estamos na casa da vovó de noite porque é o aniversário dela!". Por outro lado, cuidado para não exigir da criança um comportamento à mesa que não tem estrutura para aguentar. Se precisar sair da mesa para dar uma voltinha na sala e retornar com mais paciência para o ritual da refeição, não há problema nenhum.
4. O sono
O horário de dormir, o ritual de como adormecer e a quantidade de horas dormidas são fundamentais para um dia seguinte tranquilo. O sono é reparador. O corpo da criança necessita dessas horas para se recuperar de tudo que aconteceu no dia anterior. O ritual de ir para cama deve ser claro para a criança. Deve ser precedido de brincadeiras tranquilas, de uma história contada e de uma música relaxadora. Assim, essa hora não será tão terrível. Mesmo porque, o ritual esclarece para a criança que irá se repetir no dia seguinte (brincadeira calma antes de dormir).

Por vários os motivos inerentes ao nossa vida atribulada, eventualmente, não será possível cumprir o ritual de dormir da criança. Faz parte! Nesses casos, porém, você precisa se munir de uma dose extra de paciência, pois, provavelmente, seu filho demonstrará seu desagrado. Estará no direito dele! Essas situações acabam surgindo como um treino para que seu filho experimente lidar com mudanças e que vá se abrindo para elas.
5. Os cuidados
Cuidar de si e do outro faz parte da rotina das pessoas da casa. Mostre isso a ele! Diga em voz alta: "Vou preparar um banho bem gostoso para você!" ou "Papai vai ler uma história para você dormir!". Conforme seu filho vai crescendo, vá, gradualmente, transferindo para ele algumas responsabilidades. Peça, por exemplo, para que ele mesmo guarde brinquedos e arrume o quarto. Confie na capacidade dele de cuidar dos seus pertences e de si mesmo. Passe a auxiliá-lo no banho, ao invés de fazer tudo por ele. Sonia Madi, também lembra da importância de incentivar a criança a fazer conquistas. "é importante perceber que tipo de apoio ela precisa para ganhar confiança se arriscar a ir além, sem riscos". Dê dicas, acompanhe de longe e faça apenas o que ele não conseguir. Com isso, você o estará preparando para assumir outro papel na sua própria rotina.
6. As escolhas
Aos poucos, vá dando a ele a oportunidade de fazer pequenas escolhas. Se até certo dia, você separava toda a roupa para ele vestir após o banho, chegará a hora de passar para ele a decisão de que camiseta vestir e qual sapato calçar. Esteja preparado porém, para aceitar as escolhas equivocadas. Ele pode escolher usar uma camiseta de manga comprida em pleno dia de verão. Mas, isso faz parte desse aprendizado. Isso dá mais trabalho, mas é fundamental para seu desenvolvimento e para a criança ir se percebendo com sujeito do mundo e consiga incorporar essa nova tarefa à sua rotina com mais naturalidade. Essas pequenas escolhas darão embasamento para que seu filho passe a fazer escolhas maiores na sua rotina: desenhar ou descer para brincar no parquinho.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

A hora da independência

CURTAM NOSSA PÁGINA NO FACEBOOK:http://www.facebook.com/ChaComSig
EQUIPE CHÁ COM SIG PARA ATENDIMENTO: 11 969828869

Revista Psique , Edição 111.
Um dos momentos mais difíceis na criação dos filhos é quando crescem e passam a reivindicar o direito de frequentar festas e baladas noturnas sem a presença dos pais. A fase é importante, mas requer cautela


Por Júlio Furtado

Shutterstock
Uma grande amiga ligou-me angustiada dizendo que seu filho de 13 anos estava pressionando para começar a sair sozinho com os colegas à noite. A angústia se revelou, principalmente, pelo tom de sua pergunta: "E agora, o que eu faço?". Tentei acalmá-la, perguntando se ela nunca havia cogitado que esse dia iria chegar.
Uma das mais difíceis constatações para os pais é a de que seus filhos estão crescendo. Talvez essa dificuldade se justifique pela fantasia de que filhos são propriedade dos pais e, como tais, deveriam se manter crianças para serem mais facilmente manipulados. A chegada da adolescência se enche de expectativa exatamente porque é nessa fase que o recém-jovem ou a ainda criança começa a dar sinais de que quer ser independente e de que não tolera mais o excesso de cuidados nos moldes que vinham sendo aplicados.
Nesse contexto, chega o dia da temida pergunta: "Posso ir à festa com meus amigos? Todos vão e eu não posso ficar de fora!". Em geral, é por volta dos 12 anos que começam a surgir os primeiros convites para festas de aniversário em que pai e mãe não são bem-vindos. Encarar o momento como um passo natural para a evolução do adolescente é fundamental para encarar a situação com a serenidade que ela exige.
Festas, bailes e outras saídas noturnas cumprem um papel essencial no processo de construção e conquista da autonomia para os jovens. Embora seja difícil, é imprescindível entender que os filhos precisam se afastar para construir autoconfiança e experimentar a vida de outra forma.
É normal, nessa fase, que eles se soltem dos pais e não queiram conviver tanto quanto ocorria durante a infância. Isso não significa que não gostem ou gostem menos dos pais. Representa, apenas, uma forte busca por independência e autonomia. É claro que não dá para "liberar geral", mas se deve permitir que os adolescentes tenham experiências novas, em função das quais vão construir sua identidade.
Ainda em relação à angustiante questão inicial, de permitir ou não que os filhos adolescentes comecem a frequentar "baladas" sozinhos, o mais indicado é dialogar com eles desde a infância. Isso para se chegar a acordos para determinar a idade em que poderão começar a sair sem os pais. Nesse momento, outra pergunta aparece: "Como saber se meu filho está maduro ou não para sair sozinho?".
É preciso entender que esse amadurecimento não é algo que acontece da noite para o dia e é fundamental ir preparando o terreno desde cedo. Esse processo será muito mais fácil se há confiança nele. As atitudes do adolescente que demonstram que já se pode confiar nele para sair sozinho são aquelas que demonstram responsabilidade e que já se apresentam a partir da infância. Ao dormir na casa de colegas ou de familiares ele cuidava bem dos seus pertences? Ligava para você nas horas combinadas? Avisava sobre mudanças nos planos com antecedência? Se a resposta a essas perguntas for sim, há grande chance de não ter problemas nessa nova fase.
É fundamental observar o comportamento do adolescente nas primeiras vezes. Ele está esperando quando os pais vão buscá-lo na hora e local combinados? Atende ao telefone quando os pais ligam ou telefona quando é combinado? Além disso, é sempre importante checar qual é o tipo de festa, se há consumo de bebidas alcoólicas, idade das pessoas que estarão lá etc. Agir preventivamente sem exageros é papel dos pais.
Também é preciso ter cuidado para não demonstrar desconfiança. É preciso se certificar de que o filho está em segurança, o que é bem diferente de vigiá-lo. A sensação de ser vigiado aborrece o adolescente e pensar que os pais não confiam nele faz com que ele se descomprometa com o bom comportamento. Afinal, ele pensa, os pais vão desconfiar dele de qualquer maneira. Uma boa saída nesses casos é dizer que os pais querem se assegurar que ele estará em segurança, mas não se deve agir às escondidas. Outro fator a ser ressaltado é a necessidade de se combinar o horário de volta para casa e acordar, antecipadamente, quais serão as punições caso o combinado não seja cumprido e, se preciso for, cumprir a punição sem culpas.
Festas, bailes e outras saídas noturnas cumprem um papel essencial no processo de construção e conquista da autonomia para os jovens. Embora seja difícil, é imprescindível entender que os filhos precisam se afastar para construir autoconfiança e experimentar a vida de outra forma
É importante fixar um horário para o retorno e, em geral, deve ser proporcional à idade. Quanto mais jovem, mais cedo. É essencial, também, que os pais vinculem a possibilidade de estender o horário de volta ao cumprimento do que foi combinado e, a medida que se comportem com responsabilidade, ganham, digamos, bônus de mais liberdade. Quando os filhos são mais novos, levar e buscar é outra questão conflituosa, mas que exige análise e ponderação. Se o local da festa for desconhecido, não hesite em levar e buscar. Caso seja conhecido, vale combinar rodízio de carona solidária com os pais dos colegas.
O início da vida social autônoma do adolescente precisa ser encarado como uma fase natural, necessária e importante no desenvolvimento. É fundamental que os pais se mostrem parceiros, mas é igualmente essencial que negociem com firmeza questões inerentes a essa nova fase. É exatamente isso que eles esperam de nós.

Júlio Furtado é diplomado em Psicopedagogia pela Universidade de Havana, Cuba. Graduado em Pedagogia, mestre em Educação, doutor em Ciências da Educação e pós-graduado em Orientação Educacional. É palestrante e escritor.
www.juliofurtado.com.br


http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/111/artigo342588-1.asp

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Vítimas da pedofilia


As consequências do abuso sexual infantil apresentam sintomas que podem aparecer em várias fases da vida

por Remo Rotella Jr.



Na edição anterior foram abordados os aspectos psíquicos e comportamentais dos indivíduos predadores, que abusam sexualmente de crianças e adolescentes, e como eles conseguem, habilmente, ludibriar a confiança daqueles que convivem de perto com as vítimas, a fim de conseguir seu intento. Este artigo colocará em discussão os danos psíquicos e emocionais decorrentes do abuso sexual infantil, com sintomas que podem aparecer na infância, adolescência ou na idade adulta.
É fato muito raro que as crianças ou os adolescentes, que tenham sido ou estejam sendo molestados sexualmente por um adulto, demonstrem ter a consciência do que está ocorrendo e procurem a ajuda de um adulto, seja um familiar, educador ou alguém com quem tenham um vínculo, com o intuito de denunciar os abusos de que estão sendo vítimas. Comumente tendem a guardar segredo, principalmente se o pedófilo for um parente, tal como pai, irmão, primo, padrasto ou um amigo que mantenha um forte vínculo de confiança com os pais.
Na mente infantil, que ainda está em desenvolvimento, o fato traumático, consequente do abuso sexual, e a necessidade da manutenção do segredo acarretam uma situação de forte angústia e alterações do comportamento. Isso acontece devido à incapacidade de um psiquismo em desenvolvimento, que é o da criança, poder elaborar o trauma emocional causado pela situação do abuso de que foi vítima.
O trauma emocional, não elaborado, aparecerá mais tarde, na vida dos indivíduos que foram vítimas desse tipo de abuso, sob a forma de sintomas e alterações do funcionamento psíquico das mais variadas formas, tais como:
• Acentuado rebaixamento da autoestima, que se expressa sob a forma de descrença em si mesmo e grande dificuldade para reconhecer e valorizar seus potenciais afetivos e intelectuais.
• O rebaixamento da autoestima abre caminho para o surgimento de sintomas de depressão emocional, o que aumentará a descrença do indivíduo em si mesmo.
• A pessoa descrente de si mesma e, por consequência, descrente dos outros, desenvolve um profundo sentimento de desamparo afetivo, que, quando associado a sintomas depressivos, tende a gerar sentimentos de desesperança e ansiedade.
• Os sentimentos de desesperança, desamparo e ansiedade, frequentemente, ocasionam crises de Ansiedade tipo Pânico ou, em muitos casos, a Síndrome do Pânico, que leva esses indivíduos a procurarem por ajuda psiquiátrica e ou psicoterápica, para resolverem o drama interno e o sofrimento psíquico de que são vítimas.
Além do que foi descrito, o trabalho psíquico com adultos que foram sexualmente abusados na infância, tem mostrado, com frequência, o fato de que essas pessoas, apresentando dificuldades para estabelecerem vínculos afetivos, tendem a se ligar a pessoas com graus de sadismo, que, de alguma maneira, reproduzem nos relacionamentos afetivos situações de violência física ou psíquica, humilhação, desprezo e desconsideração, para falar das mais frequentes, o que nos leva à indagação: Até que ponto esses adultos de que estamos falando, que sofreram com essa prática, ao se ligarem a pessoas que os maltratem, cometendo, inclusive, atos de abuso, não estão tentando resolver, psiquicamente, a situação da qual foram vítimas um dia, ou seja, o próprio abuso sexual?
Remo Rotella Jr. é médico psiquiatra e psicanalista. Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria e da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

 http://portalcienciaevida.uol.com.br/esps/Edicoes/89/artigo290529-1.asp

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Amigos imaginários



CURTAM NOSSA PÁGINA NO FACEBOOK: http://www.facebook.com/ChaComSig
EQUIPE CHÁ COM SIG PARA ATENDIMENTO: 11 969828869 OU 1173988811

Eles ajudam a desenvolver a personalidade e são mais comuns do que se pensa. Conheça (ou relembre) estes companheiros invisíveis

por Juliana Cunha
Os amigos Mac e Blu se conhecem desde pequenos. O primeiro é mais quieto, o outro mais travesso - se Mac matar aula, pode apostar que foi coisa do Blu. Mac tem 7 anos e cabelos castanhos; Blu é azul e não existe. Convencido pela mãe a largar o amigo imaginário, Mac busca ajuda especializada. Nada de psicólogo: Blu é levado para uma feira de adoção em que crianças vão encontrar um companheiro invisível pra chamar de seu. Pelo menos é assim que acontece no desenho animado Mansão Foster para Amigos Imaginários. Na vida real, a coisa é um pouquinho diferente.

A amizade imaginária não é exclusividade da criança mais solitária do playground. Eles estão presentes entre os 3 e os 7 anos da maioria das infâncias - "dois terços", afirma a psicóloga Marjorie Taylor, que estuda o assunto na Universidade do Oregon, nos Estados Unidos, e garante que o terço restante também experimenta o que ela chama de "dose saudável de esquizofrenia, fundamental para a construção da personalidade".

"Antes de ter um amigo de carne e osso, a criança precisa treinar a experiência da amizade", diz o psicanalista Enrique Mandelbaum, especialista no tema. "Se as ações forem simuladas antes de realizadas, o desafio de conviver é facilitado." Pesquisas mais recentes indicam que aquelas crianças que convivem com companheiros invisíveis desenvolvem antes suas capacidades psicológicas e linguísticas, e tendem a ser melhores alunos. Em alguns casos - OK, agora estamos falando dos solitários do playgroud -, o parceiro inventado exerce a função de confidente e conselheiro, preenchendo a função que a psicologia chama de "muro de elocubração" - ou, como canta o Oasis, wonderwall.

Diálogo interior
Amigos imaginários costumam surgir assim que passamos a ter algum domínio da linguagem oral. Seja para organizar pensamentos, seja para se entreter, a criança desata a falar consigo mesma. Filhos únicos e primogênitos são mais propensos a esse tipo de comportamento, já que tendem a passar os primeiros anos de vida sem um companheiro real de sua faixa etária por perto.

Nesses primeiros anos, os amigos imaginários são como rodinhas para a bicicleta do monólogo interior. Ele opina, claro, em nossas primeiras reflexões de fôlego. Afinal, se antes a criança só pensava em maneiras de dizer "tô com fome" e "mãe, olhe pra mim", agora ela precisa eleger a comida preferida e decidir se é melhor pedir para a mãe ou o pai, e necessita da opinião de um especialista.

Outra função importante do amigo inventado é o treino para diálogos reais. Esse, aliás, é um hábito que ultrapassa a infância: adolescentes são capazes de planejar uma conversa inteira ao telefone, e quem simplesmente vai até a mesa do chefe pedir um aumento? Quando percebe que a forma de dizer altera a resposta, a criança escala o parceiro invisível como companheiro de palco e ensaia a cena que vai representar diante de quem pode satisfazer o seu desejo.

O amigo imaginário pode ser outra criança, um personagem de ficção e até Deus (ver quadros). Mas dificilmente tem presença física, como no conto Tio Wiggily em Connecticut, de J.D. Salinger, em que ele come, brinca, assiste à TV e até dorme com uma menina - que se espreme em um canto da cama para não esmagá-lo. No entanto, esse não é o tipo mais comum. "Quando perguntamos a fundo, a criança costuma concluir que sente a presença do amigo, mas não exatamente o enxerga. Pleitear um lugar à mesa costuma ser uma forma de exigir que a família o reconheça", diz Mandelbaum.

Amigos com benefícios
Para os pais, flagrar o filho no meio de um "monólogo exterior" pode surpreender, mas os especialistas garantem: é normal, saudável e aconselhável. Inclusive, Roberto Andersen, educador brasileiro membro da Academia de Ciências de Nova York, adverte que limitar a imaginação (o que inclui dizer "acabou esse tal de amigo imaginário!") é um incentivo ao déficit de atenção, déficit de cognição e memória parcial. Se você achou a opinião de Roberto muito radical, saiba que Freud, pai da psicanálise, e Piaget, papa da pedagogia, também defendiam que, por via das dúvidas, era melhor que o companheiro invisível participasse do jantar.

Tanto amigos particulares quanto aqueles mais coletivos, como Papai Noel, Coelho da Páscoa e vampiros, ajudam no desenvolvimento mental. Essa fantasia ajuda a capacidade de abstração, o que vai trazer benefícios em futuros boletins. Uma pessoa condicionada a acreditar somente no que enxerga sente mais dificuldade para entender o que é um átomo ou uma raiz quadrada, por exemplo.

Além de defender que 2 entre 3 crianças têm amizades imaginárias, Marjorie Taylor sugere que, por confrontarem constantemente suas opiniões com a do amigo, sacam mais cedo que as outras pessoas têm crenças, desejos e intenções próprias. Outros cientistas descobriram que crianças de 4 a 8 anos que têm amigos imaginários produzem frases mais complexas do que as que não têm.

E tem mais: o trabalho dos psicólogos Evan Kidd e Anna Roby, da Universidade de Manchester, na Inglaterra, sugere que os amigos dos amigos imaginários trabalham melhor em equipe. Atenção, re-crutadores de RH: a pesquisa mostra que as crianças com companheiros invisíveis são melhores na hora de fornecer informações que podem ajudar alguém - em outras palavras, ver o problema do ponto de vista do outro. É como se a criança quisesse dar um bom exemplo ao amigo imaginário na hora em que lembra ao pai que a TV está ligada ou que a vovó ligou. A dupla de pesquisadores acredita que os amigos imaginários são como que terapeutas, que dão ao pequerrucho egocêntrico uma nova perspectiva da mesma situação que antes passaria batido.

Como lembra o pediatra Mário Cordeiro, autor do Livro da Criança, a esperteza desencadeada pelas amizades imaginárias pode, eventualmente, se voltar contra os pais. No meio da brincadeira, podem de vez em quando surgir declarações como: "Não diz isso, amiga! Não diga assim, a mamãe não está gorda". Ué, foi a amiga imaginária quem disse.

Gêmeo mau
Até aqui tudo muito fofo. Mas o fato é que muitas vezes o amigo imaginário é também bode expiatório, leva a culpa pelo que a criança fez sabendo que não deveria. "A mente da criança trabalha por oposições. Rapidamente, ela divide o mundo entre bons e maus e, evidentemente, quer se filiar ao lado bom. Quando suas atitudes não agradam, não podem ter partido dela: precisam ser do outro", diz Mandelbaum.

A criança também utiliza o companheiro inventado para fazer perguntas que não tem coragem de fazer em seu próprio nome, chamar atenção, dizer palavrão - atitudes que provavelmente serão repreendidas pelos responsáveis. Também serve para justificar atitudes: pode ser aquele que disse que era legal bater no colega ou o que insiste no presente fora de hora.

Se isso é feito com comedimento, pode ser positivo. Permite, por exemplo, que a criança faça as perguntas que quer com menos constrangimento. Em um caso de divórcio familiar, o amigo imaginário pode fazer perguntas sobre o futuro da família que a criança não teria coragem de fazer "sozinha". No entanto, quando o amigo imaginário passa a ser um inimigo imaginário, que incita atitudes ruins e fora do padrão, está na hora de levar imaginador e imaginado para o psicólogo, ou pelo menos para o serviço de orientação da escola.

Existem muitas formas de praticar análise infantil - exatamente como existem muitas formas de praticar análise em adultos. Uma das mais consagradas é o método da psicóloga Melanie Klein, que efetivamente trouxe a brincadeira (e, consequentemente, os amigos imaginários) para o trabalho psicanalítico com crianças. Segundo Mandelbaum, "as crianças vêm ao consultório e trazem os amigos imaginários". Através da "voz" dos companheiros invisíveis, é possível entender o que está se passando.

Para a especialista em educação especial e em psicopedagogia Maria Irene Maluf, os amigos imaginários são importantes e estimulam a imaginação, mas os pais precisam permanecer atentos. "Se a criança deixa de brincar com as outras, se ela se fecha em um mundo só dela e do amigo que ela criou, está na hora de interferir." Amigos imaginários são importantes, mas jamais devem ser a relação prioritária.

A hora do adeus
A celebridade das revistas de celebridade. A anti-celebridade dos quadrinhos. O menino mais bonito do colégio. A ex a quem mentalmente submetemos nossas atitudes. O desconhecido que seguimos no Twitter. São muitas as figuras que passam temporadas no que já foi o lar do amigo imaginário.

Se o diálogo com um interlocutor imaginário nunca desaparece, é fato que ele sofre drásticas transformações e perda de espaço com o passar da idade, seja porque pega mal na escola, seja porque foi substituído por amigos reais. Mais ou menos aos 7 anos, ele já não é tão comum. Aos 10 já é estranho. Se ele sobreviver até os 12, é algo preocupante - bem mais que a "dose saudável de esquizofrenia" receitada pela doutora Taylor.

Mas vamos nos deter na média: para o português Mário Cordeiro, após os 6 anos de idade os pais já podem dar um empurrãozinho para a despedida, para que a criança realmente entenda o amigo como ficção. "Uma boa ajuda seria pedir que a criança fizesse um desenho ou escrevesse uma história com esse personagem. Esse será o momento em que ela vai enviar os amigos para o mundo da fantasia, em paz e com as contas saldadas", afima.

Geralmente, a gente deixa os amigos imaginários assim como esquece os amigos da escola antiga. Sem se dar conta, conversa cada vez menos com eles até que caem no esquecimento - a ponto de alguns nem se lembrarem que um dia tiveram um companheiro invisível. Por isso mesmo, ficar o tempo inteiro interrogando a criança para saber se o tal fulano que não existe ainda existe só vai atrapalhar o processo de desapego e esquecimento.

Os pesquisadores de Manchester contam o caso de um menino que encontrou uma maneira exótica e serena de lidar com o problema. Aos 5 anos, ele já pretendia se livrar do amigo imaginário, mas não sabia como fazê-lo sem ferir os sentimentos de Shrek - "não o Shrek do filme; eles só têm o mesmo nome", esclareceu. Pois calhou de o garoto ser levado pela primeira vez a um funeral, que ele interpretou como uma forma socialmente aceita de se despedir de alguém. No dia seguinte, pediu que a mãe lhe vestisse com roupas escuras e foi para um canto do jardim. No jantar, anunciou: "O Shrek morreu. O funeral foi hoje. Tem refrigerante?"


O outro
O tipo mais comum de amigo secreto é outra criança, geralmente para suprir a ausência de um irmão ou de um amigo da mesma idade. Em casos mais extremos, é um membro da família, com vontades e lugar à mesa. Muitas vezes, a criança nem concebe sua aparência física.

Amigo da moda
Geralmente personagem do cinema ou da TV. (Não são os brinquedos, cuja vida intelectual é só um recurso na hora de brincar.) Pode ser o Mickey, o Ben 10 ou um dos Backyardigans, muito populares entre os pequenos. O posto é rotativo, conforme a popularidade do personagem. Se ele cair no ibope, deixa de ser amigo - aliás, é como agem certos adultos.

Se eu quiser falar com Deus
Ele está em toda a parte, mas não é visto. Por que não pode ser amigo imaginário? No papel de Grilo Falante, não deixa de ser uma versão infantil da doutrina que recomenda aos jovens americanos sempre perguntar: "O que Jesus faria?"

Para saber mais
O Brincar e a Realidade
Donald Winnicott, Editora Imago.

A Psicanálise de Crianças
Melanie Klein, Editora Imago.

Nove Estórias
Jerome David Salinger, Editora do Autor.

Náufrago
Direção: Robert Zemeckis. Por causa do Wilson.
Fonte: http://super.abril.com.br/cotidiano/amigos-imaginarios-611074.shtml