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Eles ajudam a desenvolver a personalidade e são mais comuns do
que se pensa. Conheça (ou relembre) estes companheiros invisíveis
por Juliana Cunha
Os amigos Mac e Blu se conhecem desde pequenos. O primeiro é
mais quieto, o outro mais travesso - se Mac matar aula, pode apostar que
foi coisa do Blu. Mac tem 7 anos e cabelos castanhos; Blu é azul e não
existe. Convencido pela mãe a largar o amigo imaginário, Mac busca ajuda
especializada. Nada de psicólogo: Blu é levado para uma feira de adoção
em que crianças vão encontrar um companheiro invisível pra chamar de
seu. Pelo menos é assim que acontece no desenho animado Mansão Foster
para Amigos Imaginários. Na vida real, a coisa é um pouquinho diferente.
A amizade imaginária não é exclusividade da criança mais solitária do
playground. Eles estão presentes entre os 3 e os 7 anos da maioria das
infâncias - "dois terços", afirma a psicóloga Marjorie Taylor, que
estuda o assunto na Universidade do Oregon, nos Estados Unidos, e
garante que o terço restante também experimenta o que ela chama de "dose
saudável de esquizofrenia, fundamental para a construção da
personalidade".
"Antes de ter um amigo de carne e osso, a criança precisa treinar a
experiência da amizade", diz o psicanalista Enrique Mandelbaum,
especialista no tema. "Se as ações forem simuladas antes de realizadas, o
desafio de conviver é facilitado." Pesquisas mais recentes indicam que
aquelas crianças que convivem com companheiros invisíveis desenvolvem
antes suas capacidades psicológicas e linguísticas, e tendem a ser
melhores alunos. Em alguns casos - OK, agora estamos falando dos
solitários do playgroud -, o parceiro inventado exerce a função de
confidente e conselheiro, preenchendo a função que a psicologia chama de
"muro de elocubração" - ou, como canta o Oasis, wonderwall.
Diálogo interior
Amigos imaginários costumam surgir assim que passamos a ter algum
domínio da linguagem oral. Seja para organizar pensamentos, seja para se
entreter, a criança desata a falar consigo mesma. Filhos únicos e
primogênitos são mais propensos a esse tipo de comportamento, já que
tendem a passar os primeiros anos de vida sem um companheiro real de sua
faixa etária por perto.
Nesses primeiros anos, os amigos imaginários são como rodinhas para a
bicicleta do monólogo interior. Ele opina, claro, em nossas primeiras
reflexões de fôlego. Afinal, se antes a criança só pensava em maneiras
de dizer "tô com fome" e "mãe, olhe pra mim", agora ela precisa eleger a
comida preferida e decidir se é melhor pedir para a mãe ou o pai, e
necessita da opinião de um especialista.
Outra função importante do amigo inventado é o treino para diálogos
reais. Esse, aliás, é um hábito que ultrapassa a infância: adolescentes
são capazes de planejar uma conversa inteira ao telefone, e quem
simplesmente vai até a mesa do chefe pedir um aumento? Quando percebe
que a forma de dizer altera a resposta, a criança escala o parceiro
invisível como companheiro de palco e ensaia a cena que vai representar
diante de quem pode satisfazer o seu desejo.
O amigo imaginário pode ser outra criança, um personagem de ficção e até
Deus (ver quadros). Mas dificilmente tem presença física, como no conto
Tio Wiggily em Connecticut, de J.D. Salinger, em que ele come, brinca,
assiste à TV e até dorme com uma menina - que se espreme em um canto da
cama para não esmagá-lo. No entanto, esse não é o tipo mais comum.
"Quando perguntamos a fundo, a criança costuma concluir que sente a
presença do amigo, mas não exatamente o enxerga. Pleitear um lugar à
mesa costuma ser uma forma de exigir que a família o reconheça", diz
Mandelbaum.
Amigos com benefícios
Para os pais, flagrar o filho no meio de um "monólogo exterior" pode
surpreender, mas os especialistas garantem: é normal, saudável e
aconselhável. Inclusive, Roberto Andersen, educador brasileiro membro da
Academia de Ciências de Nova York, adverte que limitar a imaginação (o
que inclui dizer "acabou esse tal de amigo imaginário!") é um incentivo
ao déficit de atenção, déficit de cognição e memória parcial. Se você
achou a opinião de Roberto muito radical, saiba que Freud, pai da
psicanálise, e Piaget, papa da pedagogia, também defendiam que, por via
das dúvidas, era melhor que o companheiro invisível participasse do
jantar.
Tanto amigos particulares quanto aqueles mais coletivos, como Papai
Noel, Coelho da Páscoa e vampiros, ajudam no desenvolvimento mental.
Essa fantasia ajuda a capacidade de abstração, o que vai trazer
benefícios em futuros boletins. Uma pessoa condicionada a acreditar
somente no que enxerga sente mais dificuldade para entender o que é um
átomo ou uma raiz quadrada, por exemplo.
Além de defender que 2 entre 3 crianças têm amizades imaginárias,
Marjorie Taylor sugere que, por confrontarem constantemente suas
opiniões com a do amigo, sacam mais cedo que as outras pessoas têm
crenças, desejos e intenções próprias. Outros cientistas descobriram que
crianças de 4 a 8 anos que têm amigos imaginários produzem frases mais
complexas do que as que não têm.
E tem mais: o trabalho dos psicólogos Evan Kidd e Anna Roby, da
Universidade de Manchester, na Inglaterra, sugere que os amigos dos
amigos imaginários trabalham melhor em equipe. Atenção, re-crutadores de
RH: a pesquisa mostra que as crianças com companheiros invisíveis são
melhores na hora de fornecer informações que podem ajudar alguém - em
outras palavras, ver o problema do ponto de vista do outro. É como se a
criança quisesse dar um bom exemplo ao amigo imaginário na hora em que
lembra ao pai que a TV está ligada ou que a vovó ligou. A dupla de
pesquisadores acredita que os amigos imaginários são como que
terapeutas, que dão ao pequerrucho egocêntrico uma nova perspectiva da
mesma situação que antes passaria batido.
Como lembra o pediatra Mário Cordeiro, autor do Livro da Criança, a
esperteza desencadeada pelas amizades imaginárias pode, eventualmente,
se voltar contra os pais. No meio da brincadeira, podem de vez em quando
surgir declarações como: "Não diz isso, amiga! Não diga assim, a mamãe
não está gorda". Ué, foi a amiga imaginária quem disse.
Gêmeo mau
Até aqui tudo muito fofo. Mas o fato é que muitas vezes o amigo
imaginário é também bode expiatório, leva a culpa pelo que a criança fez
sabendo que não deveria. "A mente da criança trabalha por oposições.
Rapidamente, ela divide o mundo entre bons e maus e, evidentemente, quer
se filiar ao lado bom. Quando suas atitudes não agradam, não podem ter
partido dela: precisam ser do outro", diz Mandelbaum.
A criança também utiliza o companheiro inventado para fazer perguntas
que não tem coragem de fazer em seu próprio nome, chamar atenção, dizer
palavrão - atitudes que provavelmente serão repreendidas pelos
responsáveis. Também serve para justificar atitudes: pode ser aquele que
disse que era legal bater no colega ou o que insiste no presente fora
de hora.
Se isso é feito com comedimento, pode ser positivo. Permite, por
exemplo, que a criança faça as perguntas que quer com menos
constrangimento. Em um caso de divórcio familiar, o amigo imaginário
pode fazer perguntas sobre o futuro da família que a criança não teria
coragem de fazer "sozinha". No entanto, quando o amigo imaginário passa a
ser um inimigo imaginário, que incita atitudes ruins e fora do padrão,
está na hora de levar imaginador e imaginado para o psicólogo, ou pelo
menos para o serviço de orientação da escola.
Existem muitas formas de praticar análise infantil - exatamente como
existem muitas formas de praticar análise em adultos. Uma das mais
consagradas é o método da psicóloga Melanie Klein, que efetivamente
trouxe a brincadeira (e, consequentemente, os amigos imaginários) para o
trabalho psicanalítico com crianças. Segundo Mandelbaum, "as crianças
vêm ao consultório e trazem os amigos imaginários". Através da "voz" dos
companheiros invisíveis, é possível entender o que está se passando.
Para a especialista em educação especial e em psicopedagogia Maria Irene
Maluf, os amigos imaginários são importantes e estimulam a imaginação,
mas os pais precisam permanecer atentos. "Se a criança deixa de brincar
com as outras, se ela se fecha em um mundo só dela e do amigo que ela
criou, está na hora de interferir." Amigos imaginários são importantes,
mas jamais devem ser a relação prioritária.
A hora do adeus
A celebridade das revistas de celebridade. A anti-celebridade dos
quadrinhos. O menino mais bonito do colégio. A ex a quem mentalmente
submetemos nossas atitudes. O desconhecido que seguimos no Twitter. São
muitas as figuras que passam temporadas no que já foi o lar do amigo
imaginário.
Se o diálogo com um interlocutor imaginário nunca desaparece, é fato que
ele sofre drásticas transformações e perda de espaço com o passar da
idade, seja porque pega mal na escola, seja porque foi substituído por
amigos reais. Mais ou menos aos 7 anos, ele já não é tão comum. Aos 10
já é estranho. Se ele sobreviver até os 12, é algo preocupante - bem
mais que a "dose saudável de esquizofrenia" receitada pela doutora
Taylor.
Mas vamos nos deter na média: para o português Mário Cordeiro, após os 6
anos de idade os pais já podem dar um empurrãozinho para a despedida,
para que a criança realmente entenda o amigo como ficção. "Uma boa ajuda
seria pedir que a criança fizesse um desenho ou escrevesse uma história
com esse personagem. Esse será o momento em que ela vai enviar os
amigos para o mundo da fantasia, em paz e com as contas saldadas",
afima.
Geralmente, a gente deixa os amigos imaginários assim como esquece os
amigos da escola antiga. Sem se dar conta, conversa cada vez menos com
eles até que caem no esquecimento - a ponto de alguns nem se lembrarem
que um dia tiveram um companheiro invisível. Por isso mesmo, ficar o
tempo inteiro interrogando a criança para saber se o tal fulano que não
existe ainda existe só vai atrapalhar o processo de desapego e
esquecimento.
Os pesquisadores de Manchester contam o caso de um menino que encontrou
uma maneira exótica e serena de lidar com o problema. Aos 5 anos, ele já
pretendia se livrar do amigo imaginário, mas não sabia como fazê-lo sem
ferir os sentimentos de Shrek - "não o Shrek do filme; eles só têm o
mesmo nome", esclareceu. Pois calhou de o garoto ser levado pela
primeira vez a um funeral, que ele interpretou como uma forma
socialmente aceita de se despedir de alguém. No dia seguinte, pediu que a
mãe lhe vestisse com roupas escuras e foi para um canto do jardim. No
jantar, anunciou: "O Shrek morreu. O funeral foi hoje. Tem
refrigerante?"
O outro
O tipo mais comum de amigo secreto é outra criança, geralmente para
suprir a ausência de um irmão ou de um amigo da mesma idade. Em casos
mais extremos, é um membro da família, com vontades e lugar à mesa.
Muitas vezes, a criança nem concebe sua aparência física.
Amigo da moda
Geralmente personagem do cinema ou da TV. (Não são os brinquedos, cuja
vida intelectual é só um recurso na hora de brincar.) Pode ser o Mickey,
o Ben 10 ou um dos Backyardigans, muito populares entre os pequenos. O
posto é rotativo, conforme a popularidade do personagem. Se ele cair no
ibope, deixa de ser amigo - aliás, é como agem certos adultos.
Se eu quiser falar com Deus
Ele está em toda a parte, mas não é visto. Por que não pode ser amigo
imaginário? No papel de Grilo Falante, não deixa de ser uma versão
infantil da doutrina que recomenda aos jovens americanos sempre
perguntar: "O que Jesus faria?"