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domingo, 14 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
CineFreudiano: Mary e Max / Um vidro de lágrimas e o poder da transferência.
do site CineFreudiano
de Mirelle Araújo
Pra começar preciso dizer que é impressionante como a gente esquece, logo após os primeiros minutos de filme, que é um desenho, que é um filme de animação em stop motion.
Quis pensar esse filme com vocês pela sutileza com que ele trata de assuntos tão graves, tão violentos: solidão, depressão, sexualidade, suicídio, desamparo, compulsão, drogadição, bullying, fobia, síndrome de asperger. E as descobertas infantis de como funciona o mundo.
Cometi o ato filosoficamente esperançoso de lançar mão dele numa atividade em sala de aula para crianças agitadas de 10 anos, numa certa escola de ensino fundamental em Goiânia; foi um desastre. Aquilo podia até parecer desenho animado, e por isso achei que os capturaria, mas foi no só depois que percebi o quanto era “des-animado”, no melhor sentido do termo, se é que me entendem. Aquilo não era coisa pra criança(?). Um filme praticamente todo narrado, com alguns poucos diálogos, com um humor nada convencional e profundamente filosófico. Coisa talvez exigente demais pra quem está mergulhado no automaton do dia a dia, ainda mais para aqueles jovenzinhos tão jovens, tão touchscreen, contando os segundos para o sinal bater e saírem correndo e alvoroçados da sala de aula, onde tinham uma professora metida a criação de Ziraldo “professora maluquinha”. Fiquei murchinhaaaa depois que eles se foram. Pensando o quanto aquilo era bonito de se ver e de se entender… E não tinha funcionado.
“De onde vêm os bebês?”, é o que Mary pergunta em uma das cartas que envia ao novo amigo desconhecido “sorteado” no catálogo telefônico… É claro que essa pergunta infantil vai nos remeter a todas aquelas curiosidades infantis tão exploradas por Freud ao analisar os pequenos, fonte de boa parte da construção da psicanálise. Mas esse é um filme pintado com os tons da Melancolia e que vai falar, à primeira vista, de amizade e da força desse laço. A ‘amizade diferente’, como é intitulada, enlaçada via cartas nos remete à comparações com o que vivemos hoje na nova forma virtual de nos relacionarmos ou na nova forma virtual que inventamos de não nos relacionarmos.
Mary e Max também nunca se viram, se não por cartas e objetos enviados, e por duas décadas se corresponderam dando bastante tijolo e cimento ao imaginário. Talvez o que tenha me frustrado tanto é que as crianças da sala de aula do ensino fundamental 2 ainda não podiam ver o que a minha criança crescida via ali, à segunda vista: um verdadeiro tratado sobre a solidão.
Mas antes de qualquer coisa, e foi o que me capturou, é um filme que vai nos falar da necessidade de falar de si e do que isso realiza enquanto processo, o que vai sempre nos remeter àquilo em que está a nossa principal crença enquanto analistas, a talking cure, a cura pela fala. A saber, a fala ao analista, aqui ausente. Apesar disso, lá estavam eles, associando livremente.
Então temos a australiana de 8 anos e o novaiorquino de 44. Sépia e Cinza. E o que faz a história ainda mais curiosa é a improbabilidade desta conexão, mas que acha encaixe, faz encontro, quando esbarram no que lhes é comum, a falta, personificada ali pelo que estou chamando de solidão. Acabaram encontrando um no outro o apoio que precisavam para serem aceitos como são, em sua alteridade.
Isso vai comparecer para os dois personagens, apesar das estruturas psíquicas distintas (neurose e psicose) como um espelhamento, e aí estamos mesmo falando de identificação. E é Impossível que também nós não nos identifiquemos com eles, porque estão ali falando é do nosso buraco, de temas conhecidos e experimentados na subjetividade de cada um. Mas não é sempre isso que a arte nos propõe? Que você esteja ali diante dela com o seu UM e que se perca nisso e, ao mesmo tempo, se encaixe. Cada um com sua manchinha de cocô menor ou maior, com os seus quadris implicados, suas compulsões, medos e desejos etc e tal. Assim, essa amizade se consolida em 20 anos por cartas que atravessam mares, cheias de questões existenciais… e muitos doces.
Na tentativa de dar sentido às próprias angústias de inadequação, cada qual em um contexto, é o desejo de cada um que os move, comparecendo como causa do encontro de suas vivências. Impossível também não fazer um paralelo com a contemporaneidade onde todos estão conectados e cada vez mais solitários. Se o imaginário é também o paraíso das idealizações, não só das identificações, o que “quebra o espelho” de Max é a transformação de Mary que, ao deixar de ser criança, profissionaliza-se, escreve um livro sobre “ele”, ou sobre a “doença dele” e o envia. Para ela, um ato de amor, para ele uma pedra arremessada neste espelho, um insulto, uma queda, uma decepção, um corte.
Nesse momento, para Max, Mary deixa de estar à frente, para estar de fora, na vitrine, produzindo um estudo sobre o outro que ele é. Neste ato ele é deslocado do lugar de melhor amigo, daquele que corresponde, o “correspondente”, para estar no lugar de objeto de estudo. Aparece um terceiro que vem como discurso da mestre Mary. E isto é o que não estava “combinado”. E sabemos como isso pode perturbar um Aspie, como pode ser perigoso o que está fora da margem de controle dele, o que está fora do ritual, o que desorganiza o “seu método”.
E quem é Mary? Mary é um “acidente”. É assim que é dita pela mãe. Cansada de ser ignorada pelos seus genitores, cada um afundado em seu manjar de drogas, é ela quem inaugura esta conexão ao escolher aleatoriamente, em um catálogo telefônico, o endereço de Max. Resolve que será para esse sujeito, de quem nada sabe, pra quem irá demandar suas dúvidas e confiar seus medos e segredos. Todos eles. Tão tal e qual fazemos quando elegemos um analista, para quem vamos levar o nosso vidrinho (de lágrimas).
Max está às voltas com seu Asperger, com sua maneira particular de perceber o mundo e consequente entrave em fazer laços sociais, vai se arranjando com seus chocolates também em um mundinho particular, mas é tocado por Mary (essa que apareceu para perguntar e para lhe “escutar”) de tal forma que isso passa a ser o centro de sua vida isolada. E nada o define melhor que sua própria definição: “A vida de todo mundo é como uma longa calçada. Algumas são bem pavimentadas, outras são como a minha: têm fendas, cascas de banana e bitucas de cigarro”. Ele sabe o que é ser um Max e diz: “Eu gosto de ser um Aspie.”
Mas o encontro de Mary e Max, que é um encontro de amor, é uma batida tão violenta que leva Max à loucura, literalmente. Ao mesmo tempo que o salva. Até o problema das lágrimas, Mary deu um jeito de “resolver”. Alguém consegue imaginar uma cena mais poética do que essa, quando ela o envia suas lágrimas em pote de vidro? Lágrimas doadas para Max, que não podia chorar… É o real, ali tentando se ajeitar em gesto. Esta é uma cena que eu chamei de “paralisante”. Poderia até terminar o filme ali. Mas ele segue…
E se amar é dar o que não se tem, como nos diz Lacan, foi isso que fez Max. No final, ao se aproximar literalmente, fisicamente dele, Mary fica estarrecida com a foto dela no espelho (uma bela metáfora do que lhes falei – o que chamei de espelhamento) e depois percebe que ela está por toda casa, por todos os espaços. Menos na máquina de escrever, veículo que possibilitou o encontro entre os dois, que teve um M arrancado, marcando assim de forma tão rigorosa a falta. A falta como presença daquilo que não cansa de se repetir.
No final ao encontrá-lo ali morto, Mary chora também de alegria. Ali são dois encontros. O encontro com Max e consigo mesma. O encontro de uma vida. Vale a pena ver essa obra, nem que seja pela carta final que Max escreve à Mary.
E o autor encerra com essa frase “Deus nos dá familiares…Graças a Deus que podemos escolher nossos amigos”. E todos nós dizemos baixinho : “amém”.
“A Psicanálise é, em essência, uma cura pelo amor.” Freud
“O resto é sempre no destino humano, fecundo.” Lacan
“É preciso poder compartilhar sua lata de leite condensado.” Mirelle Araújo
Trailer Oficial
Mirelle Araújo é Psicanalista membro do NAEPP -Núcleo de Atendimento, Estudo e Pesquisa em Psicanálise, Goiânia-Go- Graduada em Psicologia pela Puc Goiás; pós-graduada em Psicanálise pela Universidade Santa Úrsula-RJ; pós-graduação em Neuropsicologia pela USP; pós-graduada em Psicodiagnóstico Infantil pelo Instituto Persona, Goiânia-Go. Site: www.naepp.com.br
Postado por
Andréia Miglioranza Marin (CRP: 06 / 107356)
às
08:00
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quarta-feira, 9 de setembro de 2015
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segunda-feira, 31 de agosto de 2015
Vídeo Explicativo sobra A Depressão do canal minutos psíquicos.
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segunda-feira, 27 de julho de 2015
Documentário A Invenção da Psicanálise
terça-feira, 2 de abril de 2013
Porque a gagueira não tem graça! parte 1 e 2
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quarta-feira, 13 de março de 2013
Drogas e psicanálise
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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Matéria do site cinema com rapadura sobre o filme A Casa Silenciosa
Um filme interessante para se avaliar psicologicamente.
CURTAM NOSSA PÁGINA NO FACEBOOK: http://www.facebook.com/ChaComSig
EQUIPE CHÁ COM SIG PARA ATENDIMENTO: 11 969828869 OU 1173988811A Casa Silenciosa (2011): terror não aproveita o potencial da trama
Refilmagem americana do longa uruguaio traz
roteiro inteligente, mas não consegue manter as discussões propostas e
cai em um desfecho raso e desinteressante.
“Se você cobrir, quem irá saber?”,
diz Sarah (Elizabeth Olsen) referindo-se ao buraco na parede da casa
enquanto seu pai John (Adam Trese) e seu tio Peter (Eric Sheffer Steves)
pensam em um modo de consertar o problema. A metáfora se torna
(desnecessariamente) mais clara em outra cena, onde a protagonista diz
que parece ter buracos na cabeça, queixando-se por não se lembrar de
Sophia (Julia Taylor Ross), uma suposta amiga de infância.
Neste cenário de representações, mergulhamos no terror (quase)
psicológico de “A Casa Silenciosa”. O silêncio da casa é o silêncio de
Sarah, que quer “tapar o buraco”, quer esquecer o passado, pois este é
terrível e inaceitável. Mas um dia, ele volta para firmar uma resolução,
satisfazendo um desejo contido à força por muito tempo.
Esta é claramente a ideia da sequência de abertura do filme, onde a protagonista se encontra pensativa em frente ao mar e depois caminha até a casa. Assim como o mar, o inconsciente é vasto e desconhecido, e assim como Sarah, algo mal resolvido precisa se manifestar, emergindo e reclamando seu lugar, tomando a forma que for (a casa). Dessa maneira, o longa demonstra um ótimo trabalho simbólico, pouco comum em produções do gênero.
Como na versão original uruguaia de 2010, “A Casa”, a premissa não poderia ser mais simples e aberta. Sarah ajuda seu pai e seu tio a organizar a antiga casa da família para posterior venda. Durante o processo, coisas estranhas e ameaçadoras começam a acontecer. O roteiro de Laura Lau – que também dirige o filme ao lado de Chris Kentis – procura evitar o didatismo, trabalhando a personagem principal por meio de diálogos e situações banais, mas que guardam pistas sutis a respeito do que realmente se trata a história.
Além do enredo, o filme também importa a estética do original: a câmera na mão, a fotografia sombria e dessaturada, os enormes planos sequência e a montagem com cortes pontuais e “escondidos”, simulando uma filmagem contínua. A direção de Kentis e Lau resolve muito bem a mise-en-scène – o que é bastante complicado em planos sequência –, elaborando uma coreografia entre os movimentos dos personagens e a câmera de Igor Martinovic que resulta em uma dinâmica narrativa eficiente.
A partir do segundo ato, o longa mostra suas falhas, a começar pela atriz Elizabeth Olsen (irmã mais nova das famosas gêmeas Ashley e Mary-Kate). Se no início Olsen tinha uma atuação carismática e naturalista, quando começa a correr e a chorar já não convence mais. Algumas expressões de horror contido – para não chamar a atenção de quem a persegue – chegam a ser risíveis de tão forçadas. Isso quebra o grande vínculo que havia entre o espectador e a personagem, tornando-a distante apesar dos constantes planos fechados.
Além disso, boa parte do mistério e suspense construídos no primeiro ato é perdida quando a fonte do terror é revelada cedo demais. No momento em que há uma identificação visual, sabemos com o que estamos lidando e reagimos de acordo com isso. Perde-se uma boa oportunidade de gerar dúvidas e inseguranças sobre a natureza da figura em questão: real ou sobrenatural? Ainda que mais adiante esta identificação seja repensada, ela prejudica consideravelmente a atmosfera do filme até lá, repetindo o mesmo erro da versão uruguaia.
O terceiro ato apresenta algo que compensa muitos defeitos do longa, mas o desfecho desta ideia é bastante aquém de seu potencial. Um exemplo disso é Sophia, uma personagem introduzida de forma interessante no começo, mas que é muito mal aproveitada durante a resolução da trama, não tendo sua função justificada. Além disso, o conflito que era interno e sugestivo se torna puramente físico, desvirtuando mais uma vez a atmosfera tenebrosa da obra.
“A Casa Silenciosa” trabalha com simbolismos interessantes – o mar, o buraco, os espelhos, a lareira, a cor vermelha e a própria casa –, mas apresenta o mesmo problema de boa parte dos filmes de gênero: começa bem, mas o final deixa muito a desejar. O medo de perder o grande público caso desenvolva melhor as discussões propostas limita a obra apenas à metade de seu potencial. A utilização de clichês e convenções torna tudo mais fácil de fazer e de agradar, deixando os espectadores mais exigentes com o gosto amargo do comércio hollywoodiano.
___
Thiago César é formado em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), mas aspirante a cineasta. Já fez cursos na área de audiovisual e realiza filmes independentes.
Link da reportagem: http://cinemacomrapadura.com.br/criticas/277917/a-casa-silenciosa-2011-terror-nao-aproveita-o-potencial-da-trama/
Esta é claramente a ideia da sequência de abertura do filme, onde a protagonista se encontra pensativa em frente ao mar e depois caminha até a casa. Assim como o mar, o inconsciente é vasto e desconhecido, e assim como Sarah, algo mal resolvido precisa se manifestar, emergindo e reclamando seu lugar, tomando a forma que for (a casa). Dessa maneira, o longa demonstra um ótimo trabalho simbólico, pouco comum em produções do gênero.
Como na versão original uruguaia de 2010, “A Casa”, a premissa não poderia ser mais simples e aberta. Sarah ajuda seu pai e seu tio a organizar a antiga casa da família para posterior venda. Durante o processo, coisas estranhas e ameaçadoras começam a acontecer. O roteiro de Laura Lau – que também dirige o filme ao lado de Chris Kentis – procura evitar o didatismo, trabalhando a personagem principal por meio de diálogos e situações banais, mas que guardam pistas sutis a respeito do que realmente se trata a história.
Além do enredo, o filme também importa a estética do original: a câmera na mão, a fotografia sombria e dessaturada, os enormes planos sequência e a montagem com cortes pontuais e “escondidos”, simulando uma filmagem contínua. A direção de Kentis e Lau resolve muito bem a mise-en-scène – o que é bastante complicado em planos sequência –, elaborando uma coreografia entre os movimentos dos personagens e a câmera de Igor Martinovic que resulta em uma dinâmica narrativa eficiente.
A partir do segundo ato, o longa mostra suas falhas, a começar pela atriz Elizabeth Olsen (irmã mais nova das famosas gêmeas Ashley e Mary-Kate). Se no início Olsen tinha uma atuação carismática e naturalista, quando começa a correr e a chorar já não convence mais. Algumas expressões de horror contido – para não chamar a atenção de quem a persegue – chegam a ser risíveis de tão forçadas. Isso quebra o grande vínculo que havia entre o espectador e a personagem, tornando-a distante apesar dos constantes planos fechados.
Além disso, boa parte do mistério e suspense construídos no primeiro ato é perdida quando a fonte do terror é revelada cedo demais. No momento em que há uma identificação visual, sabemos com o que estamos lidando e reagimos de acordo com isso. Perde-se uma boa oportunidade de gerar dúvidas e inseguranças sobre a natureza da figura em questão: real ou sobrenatural? Ainda que mais adiante esta identificação seja repensada, ela prejudica consideravelmente a atmosfera do filme até lá, repetindo o mesmo erro da versão uruguaia.
O terceiro ato apresenta algo que compensa muitos defeitos do longa, mas o desfecho desta ideia é bastante aquém de seu potencial. Um exemplo disso é Sophia, uma personagem introduzida de forma interessante no começo, mas que é muito mal aproveitada durante a resolução da trama, não tendo sua função justificada. Além disso, o conflito que era interno e sugestivo se torna puramente físico, desvirtuando mais uma vez a atmosfera tenebrosa da obra.
“A Casa Silenciosa” trabalha com simbolismos interessantes – o mar, o buraco, os espelhos, a lareira, a cor vermelha e a própria casa –, mas apresenta o mesmo problema de boa parte dos filmes de gênero: começa bem, mas o final deixa muito a desejar. O medo de perder o grande público caso desenvolva melhor as discussões propostas limita a obra apenas à metade de seu potencial. A utilização de clichês e convenções torna tudo mais fácil de fazer e de agradar, deixando os espectadores mais exigentes com o gosto amargo do comércio hollywoodiano.
___
Thiago César é formado em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), mas aspirante a cineasta. Já fez cursos na área de audiovisual e realiza filmes independentes.
Link da reportagem: http://cinemacomrapadura.com.br/criticas/277917/a-casa-silenciosa-2011-terror-nao-aproveita-o-potencial-da-trama/
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Indicação e análise do filme: Sombras da noite
Sombras da noite
Em "Dark shadows", de Tim Burton, atores personificam pulsões e sentimentos presentes em nosso dia a dia
por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
Em "Dark shadows", de Tim Burton, atores personificam pulsões e sentimentos presentes em nosso dia a dia
por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
| Texto retirado da Revista Psique Ed. 81 - 2012 |
Mais uma vez Tim Burton volta aos cinemas trazendo
seu eterno e fiel representante: Johnny Depp faz Barnabas Collins
(Thomas McDonell faz o personagem quando mais jovem). Sua esposa Helena
Bonham Carter também veio, mais uma vez, junto, compor essa produção.
Parceria Depp/Burton que deu certo em outros sete filmes (Edward
Mãos de Tesoura, Ed Wood, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, Sweeney Todd –
O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, A Fantástica Fábrica de Chocolate,
Alice no País das Maravilhas e na animação A Noiva Cadáver).
Para os fãs do diretor e do ator, o filme foi um belo presente. Um
resgate quase histórico de duas carreiras. Deep se mostrou um
aficcionado dessa história criada para tv por Dan Curtis nos anos 60,
interessante a delicadeza de Burton ao trazer, em uma cena, a da festa
com a presença do grande Alice Cooper, o ator que representou Barnabas
na produção mais antiga. Marca de Tim Burton, com toda certeza.
Ao longo do filme, nos vemos tocados pelo tema
envelhecimento, presente de maneira sutil, mas insistentemente.
Impossível não notar a presença de Michele Pfeifer nesta filmagem e não
lembrar de sua corajosa atuação em outro filme já abordado por nós aqui
nesta coluna, e que trata justamente desse tema, o “Chéri”.
Com uma fotografia próxima a do Sleppy Hollow (Cavaleiro Sem Cabeça) e com o estilo de conteúdo de Big Fish, Dark Shadows
tem o roteiro de John August e Seth Grahame-Smith. Danny Elfman assina a
trilha de canções originais. O filme traz à tona o mesmo tipo de humor
estranho e sinistro, ao mesmo tempo “gentil”, que consagrou Burton. Um
humor que leva às lágrimas e ao riso em alguns segundos, ou ao mesmo
tempo. Traz mensagens fortes que levam a reflexões importantes, mesmo
mascaradas pelas supostas cenas de terror e vampirismo. Embora tenha
pretendido ser uma homenagem à série que esteve no ar de 1966 a 1971, no
canal ABC, atualiza de forma brilhante algumas das não elaboradas
questões que atravessam o sujeito em sua trajetória de vida.
O filme
traz o mesmo tipo de humor estranho e sinistro, ao mesmo tempo “gentil”,
que consagrou burton – humor que leva às lágrimas e ao riso em segundos
O susto de Barnabas Collins diante das marcantes
mudanças da década de 70, como a impagável cena do seu contato com a tv,
nos faz pensar em nossa trajetória e na angústia que atravessa a
atualidade, frenético tempo modificado por geringonças tecnológicas que
aproximam e afastam os vínculos humanos. Pela mais do que nunca
enaltecida “juventude”, que é prolongada por descobertas de toda ordem,
dessas que aumentam a expectativa de vida e a possibilidade de manter a
máquina corpo jovem.
| Enredo para grande elenco: uma família amaldiçoada há gerações, mas que se mantém por um único e forte vínculo - o nome |
Michelle Pfeiffer vive a matriarca dos Collins,
Elizabeth. Sua sina é ser de uma familia amaldiçoada e seu traço forte é
a questão da maternidade. Fará de tudo para defender seu rebanho, com
todas as forças. Trazendo também, no elenco, Jackie Earle Haley, Bella
Heathcote (Josette e Vick), Eva Green (a bruxa Angelique), Jonny Lee
Miller, Chloe Moretz (Carolyn) e o novato Gulliver McGrath (que esteve
no belo A Invenção de Hugo Cabret e faz aqui o jovem sobrinho que vê
fantasmas). Cada personagem vai compor uma delicada fotografia de alguns
dos mais intensos dramas vivenciados pelo ser, sempre com um toque de
humor que nos lembra o quanto a saída dos conflitos exige de cada um de
nós, a nossa capacidade de não nos levarmos tão à sério. Há um toque de
ridículo e cômico em qualquer sofrimento, como nos lembra, sempre, de
outra maneira, Almodóvar, outro diretor das estocadas em cócegas. Temas
dolorosos tratados por ângulos que nos fazem encarar o assombro com
algum humor, trazer para perto questões que costumamos varrer para os
porões de nossa consciência. Entre personagens que ganham aspectos de
fábulas, Tim Burton vai nos contando uma história que acorda fantasmas,
como foi acordado o, antes doce, Barnabas.
Família e amor
O personagem de Johnny Depp conta a história de uma família que enriqueceu, de um jovem cheio de bons sentimentos e amor, tendo sempre como ponto principal o vínculo familiar. Uma bruxa obcecada por ele, mata seus pais e sua amada Josette, quando então Barnabas Collins se lança à morte e é interrompido pela maldição que Angelique o marca, deixando-o para sempre nesse limite entre o que vive e o que está morto, transformado em vampiro é enterrado com correntes que amarram seu esquife. Será desenterrado nos anos 70 do século XX, muitos séculos depois da primeira parte da trama, em decorrência de escavações feitas por um empreendimento imobiliário, aliás característico da corrida na década em que o filme se passa. Nasce nessa década um modelo de vida urbana que hoje mostra mais do que nunca suas garras.
O personagem de Johnny Depp conta a história de uma família que enriqueceu, de um jovem cheio de bons sentimentos e amor, tendo sempre como ponto principal o vínculo familiar. Uma bruxa obcecada por ele, mata seus pais e sua amada Josette, quando então Barnabas Collins se lança à morte e é interrompido pela maldição que Angelique o marca, deixando-o para sempre nesse limite entre o que vive e o que está morto, transformado em vampiro é enterrado com correntes que amarram seu esquife. Será desenterrado nos anos 70 do século XX, muitos séculos depois da primeira parte da trama, em decorrência de escavações feitas por um empreendimento imobiliário, aliás característico da corrida na década em que o filme se passa. Nasce nessa década um modelo de vida urbana que hoje mostra mais do que nunca suas garras.
Uma família amaldiçoada há gerações, mas que se
mantém por um único e forte vínculo: o nome. Isso nos remete à
importância dos laços familiares básicos de pertencimento. Este mesmo
vínculo forte mantém nosso personagem principal e faz dele um vampiro
“do bem”. Bonzinho, sim. Bonzinho porque sofre por ser assim, por ter
sido amaldiçoado, desejaria ser aquele que era antes de lançar-se ao
precipício. Barnabas foi uma criança que aprendeu com seu pai o
verdadeiro valor e significado de família e carrega isso consigo por
centenas de anos. Um valor tão atrelado à formação de sua personalidade,
que nem mesmo a maior das maldições consegue tirar isso dele. A família
está acima de tudo, até mesmo do próprio bem estar e sentimentos.
De uma
parte da história surge a importante pergunta: que amor moderno e
vampiresco é esse que, sem pestanejar, destroi o objeto amado?
Ele reaparece depois de centenas de anos para
resgatar sua família, tão maltratada por uma questão um tanto comum e
presente nos dias de hoje: o tal amor vampiresco, o amor sem limites,
compulsivo e obcecado. Amor destrutivo, fruto da pulsão de morte que
outras vezes mencionamos em artigos aqui. Há no amor sempre seu par, há
na paixão e na sexualidade seu tempero da agressividade, tempero que
pode perder sua peneira e invadir totalmente o lugar de Eros, dos
vínculos que agregam e constroem.
Angelique Bouchard, a bruxa,
personifica este sentimento tão presente nos dias de hoje. um suposto
sentimento de amor no qual se esconde uma pulsão de morte, em sua
capacidade destrutiva, capaz de aniquilar o objeto amado caso não seja
seu. Quantos casos vemos nos dias de hoje, seja no consultório, seja na
mídia, nos quais o afeto se confunde com posse do objeto, em um
narcisismo incontornável, e se transforma em ódio em uma questão de
segundos. Que amor moderno e vampiresco é esse que, sem pestanejar,
destroi o objeto amado? Será que é somente isso o que chamamos de amor
na modernidade, será o modelo eleito? E caso seja predominante o que ele
revela dos nossos tempos, que leitura histórica podemos fazer da
relação do homem com seu mundo, com seus investimentos?
| Johnny Deep, um aficcionado: ator tornou-se fã da série que deu origem ao filme em perfeita parceria com Tim Burton |
Como contraponto, um aspecto interessante, é a
leitura do “amor como maldição”. Barnabas se sente amaldiçoado por amar e
isso o faz sofrer por séculos. Seu amor é puro, em contraste ao amor de
Angelique, que é vampiresco, doentio, obcecado, destrutivo e
patológico. Algo tão atual que mesmo que não fossem os personagens,
vampiros, entenderíamos seu grau em desvio, em anormalidade mórbida.
Ética e dinheiro
Helena Bonham Carter brinda-nos com mais um de seus papéis hilários, sempre controversos, mas tão marcantes. Nos apresentará a uma médica que abusa de medicamentos e é totalmente anti-ética. Nem tão distante assim dos dias de hoje, trazendo o próprio abuso no contato com os fármacos como uma das questões que cercam nosso conceito de bem estar na atualidade. Também marca com falas importantes a questão da juventude como uma busca incessante que carregamos, mais do que nunca, como amor, longevidade, maldição e busca desmedida.
Helena Bonham Carter brinda-nos com mais um de seus papéis hilários, sempre controversos, mas tão marcantes. Nos apresentará a uma médica que abusa de medicamentos e é totalmente anti-ética. Nem tão distante assim dos dias de hoje, trazendo o próprio abuso no contato com os fármacos como uma das questões que cercam nosso conceito de bem estar na atualidade. Também marca com falas importantes a questão da juventude como uma busca incessante que carregamos, mais do que nunca, como amor, longevidade, maldição e busca desmedida.
Teremos ainda a típica adolescente e suas questões
completamente centradas em suas necessidades, mas que é quem Barnabas
enxerga que pode aconselhá-lo, talvez até por sua capacidade de ver de
forma cortante as questões críticas que permeiam sua família. O pai que
larga seus filhos em troca de uma polpuda quantia, e que nos faz pensar
nesse valor maior que colocamos em algo, que se tornou símbolo humano
para acesso à felicidade, dinheiro, modo de produção que atravessa o
Inconsciente determinando valores que constroem nossos caminhos de vida.
Esse pai troca afeto por dinheiro, sem hesitar,
duas vezes. E quantas cenas semelhantes adaptadas vemos nos dias de
hoje? Quantas crianças são tratadas como moeda de troca em processos de
separação, sem sequer levarem em conta suas subjetividades? Não podemos
esquecer da importância da infância no processo de construção da
personalidade, uma infância que é onde tudo pode ser mutável, tão
necessária e determinante na construção da subjetividade.
Barnabas Collins traz para sua família a riqueza
escondida, tanto em seus aspectos materiais, quanto como um resgate de
um conceito do nome de família que foi sendo perdido através dos
séculos, ponto que trouxe algumas modificações bastante positivas e
outros que teriam aspectos mais desagregadores e com os quais tentamos
nos equilibrar ainda. Se hoje o nome de família não determina tanto ou
mais as divisões sociais de opressão, por outro deixa a angústia dessa
opressão sem nome, como lei frouxa, na ausência de uma determinação mais
patriarcal. A mãe representada por Pfeifer, confusa, mas que em última
instância ainda tenta desempenhar seu papel de proteção e de agregar,
unir em torno de algo sua família.
| Vínculo familiar: troca de afeto por dinheiro é no círculo de familiares é também um dos pontos abordados pela filmagem de Burton |
Marca dos tempos
Deliciosa a festa na qual Alice Cooper marca a indiferenciação de gênero, tão característica na moda que se inaugura nos anos setenta e que marca o “unissex”, estilo que lança uma leitura bastante interessante sobre um tempo no qual a diversidade passa a ser encarada como algo que nos constroi, e não que ameaça os grupos. Obviamente que isso muito mais enquanto ideia – na prática ainda estamos nos espartilhos. Barnabas diz, ao avistar o cantor: “Nunca vi uma mulher tão feia!” Risos!
Deliciosa a festa na qual Alice Cooper marca a indiferenciação de gênero, tão característica na moda que se inaugura nos anos setenta e que marca o “unissex”, estilo que lança uma leitura bastante interessante sobre um tempo no qual a diversidade passa a ser encarada como algo que nos constroi, e não que ameaça os grupos. Obviamente que isso muito mais enquanto ideia – na prática ainda estamos nos espartilhos. Barnabas diz, ao avistar o cantor: “Nunca vi uma mulher tão feia!” Risos!
Sem dúvida Angelique amarra toda a narrativa e a
atriz imprime uma força a sua personagem, que auxilia naquilo que o
personagem de Johnny Depp poderia deixar a desejar, em seus aspectos que
misturam uma agressividade mal elaborada, um tanto difusa e cômica. O
encontro dos dois promove sexualidade sempre anárquica, na qual o desejo
destrói onde toca, como o quarto todo destruído após o encontro dos
dois.
Crônica do
tempo: durante todo o filme, nos vemos tocados pelo tema do
envelhecimento, presente de maneira sutil, mas insistentemente a ponto
de notarmos sua presença
Talvez o filme não seja mesmo um dos mais
magníficos do diretor, como acusaram alguns críticos: às vezes é um
tanto confuso, pelo que tenta abordar, mas não deixa de ser um bom
divertimento, que acaba por tocar em sentimentos e emoções do
desprevenido espectador, que ri, chora, se assusta e se recompõe, em
frações de segundo, na mágica da força das imagens tão bem construídas.
Saímos com perguntas a nos cutucar, como a questão
das novas configurações familiares, da abertura do conceito de família,
desse grupo que nos inaugura no mundo, e com questionamentos como o de
se nossas relações familiares hoje seriam tão fortes como a da familia
de Barnabas, a ponto de se manterem por séculos? Estamos passando para
as novas gerações esses sentimentos de pertencimento familiar, de uma
possibilidade de uma união em torno de uma preservação? Lançada ao
coletivo fica a pergunta se podemos ainda cuidar uns dos outros, guardar
do passado o que importa e abrir novos rumos com o processo de mudança
que fala de vida, de crescimento, de porvir? É preciso romper a
maldição, que vençam o amor e os vínculos que mantêm a vida “viva”, e
não sempre em suspensão, em estado de semi morte, vampiresca.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Freud + Jung + Cronenberg = possível filmaço
via Nerds Somos Nozes - Arte, Cultura e Opinião
de FiliPêra em 29/06/11
enviado pela leitora CLAUDIA MARIOTO
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| Viggo Mortensen |
Sempre achava que Psicologia se resumia a um paciente sentado num divã e um cara que desenhava manchas estilo Rorschach num caderno para fingir que anotava o que o paciente falava. Aí tive aulas de Psicologia Social e esse estereótipo barato caiu por terra de forma miserável. Nesse um ano que terminei de cursar a matéria, já li todos os livros disponíveis no Brasil de Robert Anton Wilson (de longe, meu psicólogo e filósofo moderno favorito), vários textos e vídeos de Timothy Leary, livros de Jung, Freud… e veio a vontade de um dia me graduar em Psicologia.
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| Keira Knightley |
Isso tudo só pra dizer que os dois últimos citados aí acima são os personagens centrais do novo filme do mestre David Cronenberg: A Dangerous Method. O filme se baseia na peça The Talking Cure, de Christopher Hampton, e acompanha a relação entre os dois mais proeminentes representantes da Psicanálise - Jung foi um aluno que depois rompeu com parte das idéias de Freud. Como não poderia deixar de ser, o filme deve ser “psicológico”. Ao menos é o que dá a entender a sinopse divulgada: “Uma bela mulher, elouquecida por seu passado. Um ambicioso médico com uma missão de vencer. Um estimado mentor com uma cura revolucionária. Que os jogos mentais comecem...".
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| Keira Knightley e Michael Fassbender |
No elenco, nomes como Viggo Mortensen, Michael Fassbender (o elogiado Magneto, de X-Men - Primeira Classe), Keira Knightley e Vincent Cassel. Abaixo o trailer, que passou aquele climão típico dos filmes de Cronenberg. O filme ainda não tem nome em português, distribuidora, ou data de estréia nacional.
A Dangerous Method - Official Trailer
sábado, 18 de junho de 2011
quinta-feira, 19 de maio de 2011
sábado, 7 de maio de 2011
domingo, 1 de maio de 2011
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Documentário Sigmund Freud
Pequeno documentário com uma breve idéia da vida e obra de Sigmund Freud
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3/3
Postado por
Anônimo
às
21:01
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