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quinta-feira, 2 de abril de 2015

Os vários tons do gozo e do prazer

Revista Psique, edição 84

Freud reconhece que há algo para "além do prazer", que seria exatamente aquilo que nomeou de pulsão de morte, tendo a compulsão à repetição como uma de suas principais expressões para a construção do conceito de gozo por Lacan

Por Arthur Figer


Acrescento que a oposição entre o prazer e o gozo é essencial. O princípio do prazer aparece, de algum modo, como uma barreira natural ao gozo e, portanto, a oposição se estabelece entre a homeostase do prazer e os excessos constitutivos do gozo (Miller, 2012, p. 14)

Arthur Figer é psicanalista e mestrando em
Psicologia Clínica pela PUC-Rio.
Atende em consultório
particular no centro do Rio de Janeiro.
Site: www.arthurfiger.psc.br
Temos observado na atualidade um tipo de exigência de satisfação irrestrita, que reflete bem a tônica da nossa chamada “sociedade do consumo” contemporânea, ou “sociedade do excesso”. O “supérfluo”, o “descartável”, o “excesso” e o “ilimitado” são marcas características da nossa cultura. Ipod, Ipad e Iphones 1, 2, 3 e 4 ilustram bem o que queremos dizer. O equivalente desse fenômeno cultural tão atual, pensado a partir da teoria e da clínica psicanalíticas, nos remete ao conceito de “gozo”, teorizado pelo psicanalista francês Jacques Lacan a partir, pasmem, do final da década de 1950.
“Goze!” Sim, segundo Lacan, é isso o que ouvimos, tanto externamente (voz da cultura) quanto internamente (voz do supereu). Não amanhã, não daqui a pouco, não parcialmente, mas sim aqui, agora e integralmente, até o limite (ou além). O que importa é o prazer imediato e ilimitado, sem contenção e sem barreira. O que se busca é gozar a qualquer preço. “Por que resistir às tentações?”, pergunta um cartaz afixado em um restaurante a quilo no centro da cidade. “Pecado é tentar resistir...”, afirma uma faixa na entrada de uma loja de doces. Ou seja, “goze!”.
Para o Marquês de Sade, o gozo se trata apenas de usufruto, e não de propriedade. Para ele, apesar de não haver o direito de propriedade sobre o corpo, há o direito usufruí-lo, durante o tempo que isso lhe der prazer
É como se hoje em dia o gozo estivesse levando vantagem sobre o prazer. O triunfo do gozo sobre o prazer: podemos inferir que está aí uma das possíveis razões por trás do estrondoso sucesso da trilogia erótica 50 tons, também conhecido como “o pornô das mamães”. O primeiro volume de 50 tons de cinza passou de 10 milhões de livros vendidos nas seis primeiras semanas do lançamento. A narrativa descreve, em ricos detalhes, as aventuras eróticas de uma jovem estudante de 21 anos, com um magnata sedutor mais velho. Como se não bastasse para cativar os leitores, dois ingredientes picantes especiais são adicionados neste relacionamento: ela é virgem e ele adepto de práticas sadomasoquistas. Tendo êxito em mesclar, tão bem, a inocência da moça virgem com a perversão do rapaz sadomasoquista, a autora consegue exercer um verdadeiro fascínio em seus leitores, principalmente da ala feminina. Sem nos estender muito nessa questão, que não é foco deste artigo, uma das explicações possíveis para a predominância das mulheres dentre os leitores deste romance, em nossa opinião, diz respeito mais a certas características do feminino que as levam a preferir algo mais sutil e discreto, quando o assunto é pornografia, do que qualquer outra coisa.
• Precursor do sadismo •Marquês de Sade foi um aristocrata francês e escritor libertino. Muitas das suas obras foram escritas enquanto estava na Prisão da Bastilha, encarcerado diversas vezes, inclusive por Napoleão Bonaparte. De seu nome surge o termo médico sadismo, que define a perversão sexual de ter prazer na dor física ou moral do parceiro ou parceiros. Foi perseguido tanto pela monarquia (Antigo Regime) como pelos revolucionários vitoriosos de 1789 e depois por Napoleão.
O empuxo ao gozo na atualidade é forte e cada um se vira como pode. Parecendo captar bem esse fenômeno cultural, a autora do best-selleraborda, com linguagem simples e acessível, um relacionamento recheado de práticas sadomasoquistas, conduzindo seus leitores, de forma sutil, quase imperceptível, ao fascinante campo do gozo, do proibido e da transgressão. As práticas sadomasoquistas, para a Psicanálise, pertencem ao campo das perversões e do gozo. Isso, sem dúvida, exerce forte atração, principalmente naquelas mulheres acostumadas com a rotina, com o prazer limitado, com o “socialmente aceito” e o “politicamente correto”. Mais de 20 orgasmos em apenas três semanas é o que experimenta a jovem protagonista do livro. Esta é a contabilidade do gozo em 50 tons de cinza. Quem não se interessaria?
Em seu uso cotidiano, o termo gozo reveste-se, principalmente, de uma dimensão jurídica e outra sexual. No vocabulário jurídico remete à noção de usufruto, ou seja, ao direito de gozar de um bem, gozar de férias etc. Essa conotação jurídica do termo gozo opõe claramente gozo e propriedade. Oposição esta que o Marquês de Sade reforça quando afirma “tenho o direito a gozar do teu corpo”, porém “somente durante o tempo que isso me der prazer”, ou seja, trata-se apenas do gozo e não da propriedade do corpo. Em sua conotação sexual, gozo e gozar tornam-se sinônimos de prazer, mais especificamente da expressão máxima do prazer sexual. Não por acaso, o psicanalista francês Jacques Lacan escolheu o termo “gozo” (jouissance, em francês), palavra que possui conotação sexual, tanto em português quanto em francês, para nomear o conceito psicanalítico que inventara. Para ilustrar a importância do caráter sexual do gozo lacaniano, o termo jouissance foi utilizado sem tradução na maioria das edições inglesas da obra de Lacan. Isso se deve ao fato de não haver, na língua inglesa, um significante capaz de expressar tal aspecto sexual do conceito psicanalítico de gozo. A palavra inglesa que mais se aproximaria seria enjoyment. Como contribuição psicanalítica à língua inglesa, o termo jouissance passou a figurar no tradicional dicionário Oxford.

Jacques Lacan escolheu o termo “gozo”, palavra que possui conotação sexual, para nomear o conceito psicanalíticoque inventara

O princípio de prazer é um dos dois princípios do funcionamento mental apresentados por Freud em seus escritos metapsicológicos (o outro é o princípio de realidade), sendo caracterizado, resumidamente, pela evitação da dor, do desprazer, e a busca pelo prazer, visando manter a excitação do aparelho psíquico no menor nível funcional possível. Prazer, para Freud, está relacionado à diminuição da quantidade de excitação no psiquismo, enquanto que o desprazer adviria do aumento desta quantidade.
Arte de transgredir Segundo Lacan, o conceito de gozo remete à ideia de um excesso, de uma transgressão (da lei), de um “ir além dos limites” ou “além do prazer”, como preferiu Freud ao dar título ao seu texto de 1920, “Além do princípio de prazer”. Este é considerado um divisor de águas na teoria psicanalítica que, até então, considerava o “princípio de prazer” como princípio regulador do aparelho psíquico, o qual conduziria o indivíduo à busca pelo prazer e à evitação da dor. A partir da publicação deste trabalho, Freud reconhece que há algo para “além do prazer”, que seria exatamente aquilo que nomeou de pulsão de morte, tendo a compulsão à repetição como uma de suas principais expressões.
O princípio de prazer, segundo Freud, é caracterizado, resumidamente, pela evitação da dor, do desprazer, e a busca pelo prazer, mantendo a excitação do aparelho psíquico no menor nível funcional possível
Pode-se dizer que a pulsão de morte e a compulsão à repetição representam as principais bases teóricas referenciais na obra de Freud que serviram de matéria- prima para a construção do conceito de gozo por Lacan. O gozo, portanto, é aquilo que está para além do princípio de prazer, que é da ordem do excesso, da transgressão, e que, segundo Lacan, é causa de sofrimento.
Fazendo coro à importância do tema em questão, tanto na teoria como na clínica, a psicanalista Ana Maria Rudge, em seu artigo “Pulsão de morte como efeito de supereu” (2006, p. 79), diz que a questão da constituição desta força que empurra o homem para a dor e para o sofrimento constitui o tema central na obra freudiana. “Pela irresistível atração pelo sofrimento que as caracteriza, essas manifestações clínicas foram o estopim para a maior reformulação da teoria freudiana, aquela que introduziu a segunda tópica e, no seio da nova teoria pulsional, a pulsão de morte, noção tão ambígua, controvertida e com frequência recusada, explicitamente ou não, por tantos psicanalistas.”
Para nos auxiliar na compreensão deste conceito-chave da obra lacaniana, o gozo, vejamos como este se relaciona com o princípio de prazer de Freud.
Fronteiras do prazer Pode-se dizer que o princípio de prazer funcionaria como uma espécie de limite ao gozo. De acordo com o princípio de prazer, o sujeito deveria “gozar apenas o possível”, para que não adviesse o desprazer. Sendo o conflito psíquico a base da teoria freudiana, e considerando- -se a impossibilidade de compatibilidade harmoniosa entre pulsão e cultura, o sujeito insistentemente almeja transgredir as proibições impostas ao seu gozo para ir “além do princípio de prazer”. Entretanto, o resultado desta transgressão ao princípio de prazer não é mais prazer, senão dor, pois o que é prazer por um lado, por outro é desprazer. Além deste limite, o prazer é acompanhado de dor, e este “prazer dolorido” é o que Lacan nomeou de gozo. Serge Cott et (1989, p. 21) coloca a questão da seguinte forma: “(...) há uma zona do prazer que é perigosa, essa zona que tende a ir para o gozo e que o princípio do prazer bloqueia”.
Percebemos, assim, que o princípio de prazer pode ser encarado como uma espécie de “guardião” de um estado de homeostase e constância, o qual o gozo insistentemente ameaça romper. Essa insistência é descrita por Freud através do fenômeno que nomeou de compulsão à repetição e que pode ser designado como uma espécie de retorno de um excesso (gozo), que insiste em retornar, visando transgredir os limites impostos pelo princípio de prazer.

O princípio de prazer é um dos dois princípios do funcionamento mental apresentados por Freud em seus escritosmetapsicológicos

• Homeo similar ou igual •Homeostase é a propriedade de um sistema aberto, seres vivos especialmente, de regular o seu ambiente interno para manter uma condição estável, mediante múltiplos ajustes de equilíbrio dinâmico controlados por mecanismos de regulação interrelacionados. O termo foi criado em 1932 por Walter Bradford Cannon, a partir do grego homeo similar ou igual, stasis estático.
Uma vez que o princípio de prazer está relacionado à proibição, à lei e à regulação, podemos posicioná-lo no registro do simbólico, enquanto que o gozo encontra-se do lado do real. A partir do momento em que a lei é instaurada, instituída, toda transgressão implicará um gozo – porque goza-se na transgressão –, e isso acarreta uma dívida; em outras palavras, gozar tem seu preço. E este preço, frequentemente, é pago com a própria vida. Vejamos o que diz Cott et (1989, p. 29): “(...) aí, a partir desse momento, o sujeito pode preferir o gozo à vida, e é por isso que temos um complexo do gozo compatível com a aceitação da morte, isto é, de um imperativo de gozo mais forte do que a vida”.
Trechos extraídos de algumas notícias veiculadas sobre a morte de uma estudante de 20 anos em um cruzeiro universitário, em 2008, servem para ilustrar e trazer a teoria para o dia a dia: “Amostras de sangue do corpo da estudante de 20 anos, que morreu a bordo de um cruzeiro universitário, foram levadas para serem analisadas pelo Instituto Médico-Legal (IML). (...) afirmaram que houve consumo de drogas durante a viagem. (...) O delegado da Polícia Federal em Santos, no entanto, não descarta a possibilidade de que a passageira tenha morrido por ingestão conjunta de álcool e drogas. A estudante morreu em consequência de asfixia por aspiração de líquido – vômito – segundo o laudo do IML”.
A entrada do sujeito na ordem simbólica (linguagem) é condicionada a uma certa renúncia inicial de gozo (castração), quando o sujeito desiste de ser o falo imaginário da mãe. Com efeito, o princípio de prazer é a proibição do incesto, o que regula a distância entre o sujeito e a Coisa (Das Ding).
Ao se abrir mão do desejo, mais precisamente do desejo incestuoso, ingressamos definitivamente no campo do gozo, uma vez que há uma traição do desejo – ou seja, uma sublimação. Sobre isso, Lacan diz o seguinte (1991, p. 386): “Sublimem tudo o que quiserem, é preciso pagar com alguma coisa. Essa alguma coisa se chama gozo”. Além disso, abrir mão do desejo incestuoso significa que a lei se instaurou para o sujeito e, a partir daí, há o que se transgredir (a própria lei). Toda proibição faz surgir o desejo de transgressão, e o gozo é fundamentalmente transgressivo.

Referências
BRAUNSTEIN, N. Gozo. São Paulo: Escuta, 2007.
COTTET, S. O paradoxo do gozo. Salvador: Fator, 1989.
LACAN, J. Kant com Sade. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
_______ (1959-60) O seminário. Livro 07: a ética da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar,1991.
MILLER, J. A. Os seis paradigmas do gozo. In: Opção Lacaniana online nova série. Ano 3 - n. 7, 2012.
RUDGE, A. M. Pulsão de morte como efeito de supereu. In: Ágora (PPGTP/UFRJ), Rio de Janeiro, v. IX, n. 1, p. 79-90, 2006.

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segunda-feira, 27 de maio de 2013

O trânsito na contemporaneidade- psicanálise.


No trânsito, para realizar ou buscar um prazer, "quebramos" algumas regras, inclusive podendo chegar à morte. Parece nítido que, quando esse é o assunto, tendemos a priorizar a satisfação e o gozo, e não a vida

Por Eduardo Lucas Andrade e Alexandre Aurélio Chaves


Estamos a par daquilo que Freud chamou de "futuro de uma ilusão". Entretanto, nossa ênfase aqui não é um construto fantasmagórico sobre o Desejo. E sim um Desejo na plataforma da Ciência, ou a Ciência na plataforma do Desejo, como queiram. A Ciência da Psicanálise destacada pela ética e pelo comprometimento. Devemos ousar e avançar com ética.
É preciso traçar o caminho sobre o saber, teoria e prática já adquiridos pela Psicanálise, ao longo destes anos. Devemos nos propor a escutar o sujeito desejante em sua complexidade, dinamismo e multiplicidade. Devemos entendê-lo como um ser demandante, inserido em uma cultura, no caso deste artigo, inserido em um trânsito. Nele, por exemplo, devemos escutar além, não se escuta um acidente entre dois carros, e sim entre duas ou mais pessoas. Nesse ponto, cabe um aprofundamento reflexivo em que muitos percebem o próprio veículo como um corpo estendido ou, então, como uma nova funcionalidade adaptada às suas exigências e se esquecem que são seres humanos em fl uente movimento. Veem-se os veículos como instrumentos extensivos de sua própria existência. Com isso, quando ocorrem os acidentes, voltam-se os olhares para os veículos. O próprio discurso cai sobre a matéria concreta que, ao mesmo tempo, é um representante das faculdades psíquicas investidas em si. Cada um o vê de uma forma. A Psicanálise nos chama a atenção para escutarmos as formas de linguagem a fim de atingir o inconsciente e as pulsões credenciadas ao Desejo. Dessa forma, pode-se intervir e fazer que (re)surja o insight que é a base da elaboração.
A Psicanálise nasceu da metapsicologia dos estudos freudianos, nasceu da clínica e a partir daí ganhou desmedidos ares. Surgiu junto com as demandas, possibilidades e necessidades de aplicá-la em outros âmbitos. Porém, a clínica sempre esteve ali, mesmo que esquecida por muitos, sendo a base da teoria, o alicerce da prática e o Chapolin do conjunto, ou seja, ela é aquela que responde à grande pergunta: "E agora, quem poderá nos defender?" Para entendermos o contexto do trânsito devemos recorrer à clínica, à Psicanálise por excelência.
O sistema capitalista oferece soluções rápidas que não promovem nem a saúde nem a vida, e sim, por vezes, criam tamponações e ilusões, como os usos que se fazem dos medicamentos para acabar com o sofrimento
Choque entre desejos
Acontecimentos trágicos no trânsito encontram-se registrados desde a mitologia. Lembremo-nos que Édipo matou o próprio pai em uma encruzilhada. Dessa forma, definiremos, aqui, o que chamamos de trânsito, para que possamos prosseguir. "Segundo o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), trânsito é a movimentação e imobilização de veículos, pessoas e animais nas vias terrestres" (CTB, 1997). Nos últimos anos, o trânsito evoluiu e cresceu drasticamente e, no século atual, exerce enorme infl uência na sociedade brasileira e mundial. Dentre essas infl uências encontra-se o amplo mal-estar na civilização que está em um "perigoso" processo de desenvolvimento.
Devemos nos propor a escutar o sujeito desejante em sua complexidade, dinamismo e multiplicidade
Buscamos, enquanto militantes da Psicanálise, adaptar-nos, ou melhor, acompanharmos a demanda contemporânea que nos cerca e que gera o mal-estar da atualidade. O trânsito é uma delas. Falta-nos algo e é exatamente por faltar que buscamos. É preciso ter coragem e Desejo, ou seja, algo que nos impulsione para além da falta. Coragem e Desejo para encarar esses novos desafios ao qual estamos condenados a vê-los. Não devemos fugir, e sim saber manejá-los frente a frente.
A Psicanálise tem sido chamada para suprir exigências típicas do mundo capitalista. No entanto, esse mundo se destaca pela brevidade e rapidez em seus processos de desenvolvimento. Não se sabe ao certo qual rumo estamos tomando, sabe-se que cada vez mais rápido estamos tomando um rumo. Por vezes, acabamos nos perdendo, e a ancoragem ofertada, hoje, cai no campo do próprio sistema capitalista, onde se ofertam soluções rápidas que não promovem nem a saúde nem a vida, e sim, por vezes, criam tamponações e ilusões. Os usos que se fazem dos medicamentos são exemplos disso: soluções em apoios químicos, que desfazem o direito de elaboração, para acabar com o sofrimento, como se fôssemos proibidos de sofrer, como se isso fosse pactuado entre todos os adeptos dessa sociedade. O uso que se faz do trânsito também é outro exemplo disso - utiliza-se da potência do inconsciente e de seus princípios para atuar-se "narcisicamente" navegando no princípio de prazer. Economiza-se assim tempo, e mostram-se as máscaras da alegria em rostos e vidas tristes.
As fases de Eros
Eros: na mitologia grega é o deus do Desejo. Eros na filosofia é o Eros do provei, gostei e quero mais. Na poesia é o Eros do erotismo, do amor de um desejo voltado para a paixão, muitas vezes de cunho sexual. Já na Psicanálise Eros é pulsão de vida, isto é, energia psíquica daquela que preserva, dá continuidade, que faz liga, que faz a união acontecer, um vínculo entre as coisas, entre os Outros. Diz-se, portanto, que o objetivo triunfal de Eros é estabelecer a preservação.
A Psicanálise tem que aprofundar e descobrir o que mais o social esconde, o que mais o trânsito esconde. Essa é uma perspectiva, ir na contramão do capitalismo utilizando novas estratégias para atuar com eficácia, sem sair do capitalismo. Difícil, né? Pois é, o capitalismo existirá, compete-nos saber utilizá-lo em prol do ser humano. Aprender a viver em sociedade demanda exigências que não podem ser alcançadas através do emprego da força. O impacto com o outro, humaniza. Mas quando representa perigo aos demais, propõe-se uma tentativa de conciliar Desejos, e isto não é nada afável.
Uma das atuais intervenções das "forças maiores" é dentro do capitalismo. Na Lei Seca, por exemplo, multa-se e apreendem-se as carteiras podendo até mesmo prender o sujeito. A sociedade está pedindo ajuda. Mas essa mesma sociedade que ofusca é a que pulsa no trânsito, o trânsito pulsa. Será que essa é a solução? Prender gentes, carros e carteiras junto de uma multa? Um preço pelo Desejo deve ser pago. Sabe-se que misturar bebida ao volante é perigo constante e pagar com vidas pode sair mais caro. Aqui temos o pulsar do Desejo contra o enigma da morte, ou seja, a eterna luta de Eros contra Tânatos se presentifica no trânsito escancaradamente, será que a potencialidade de Eros nos levará ao encontro de Tânatos? Retornaremos mais adiante neste ponto.
A contemporaneidade
Estamos em uma transição, não só em modelos topográficos como ocupações estranhas às sociedades anteriores, formas e lugares ocupados ineditamente. Estamos conhecendo o novo, e quando este novo vai se tornar conhecido e mais velho, nasce um novo "novo". Uma nova subjetividade, novas formas de sintomas, novas estratégias de vida, novas saídas, novas buscas, novas ilusões de promessas e novas aplicações do Desejo. Novos carros e novas formas de se transitar; novas formas de nos tornarmos civilizados, afinal, o trânsito pulsa na civilização, no encontro com o outro. O Desejo promove o encontro, o vínculo, o relacionar-se, lembremo-nos disso.
A civilização das últimas décadas tem como uma das características a evolução desmedida e a transformação gigantesca de suas relações com o meio, apresentando algumas dificuldades inerentes a isso, tais como a adaptação, inserção e controle do contexto de evolução, que se expande em todo o social. Um descompasso do Desejo que balança o corpo e a vida cotidiana, que afinal acontece em grande parcela no trânsito.
A Psicanálise tem que aprofundar e descobrir o que mais o social esconde, com especial análise ao trânsito, utilizando novas estratégias em prol do ser humano
Muitos percebem o próprio veículo como um corpo estendido ou, então, como uma nova funcionalidade adaptada às suas exigências
Dessa forma, no trânsito não é diferente: nele, deparamo-nos com relações intrapessoais e também com altas tecnologias voltadas para essa evolução que, por sua vez, exige-nos rapidez e agilidade perante as variadas opções de escolhas oferecidas por essas transformações. O que elegemos daquilo que nos é ofertado? Essa oferta toca na necessidade de economia de tempo que é um dos inúmeros problemas encontrados no trânsito, tendo seus refl exos muitas vezes em estresse e outros sintomas, gerados por "inesperados" atrasos em congestionamentos.
A economia existe nos princípios do aparelho psíquico, mas o tempo não. O aparelho psíquico é atemporal e econômico. Outro refl exo disso, dessa economia de tempo, relaciona-se aos limites de velocidade, que por repetidas vezes não são respeitados, resultando em inúmeros acidentes com mortes, deficiências, traumas, abalos e transtornos psíquicos que se perpassam, não só em quem está diretamente envolvido no acidente, como também em famílias e amigos dos envolvidos.
Na Lei Seca multa-se e apreendem-se as carteiras. É um sinal inequívoco de que a sociedade, a mesma que ofusca e que pulsa no trânsito, está pedindo ajuda
A necessidade de manipular e persuadir a população se tornou essencial para que o marketing consiga vender, e isso no trânsito tornou-se "perigoso", pois tem infl uência em alguns acidentes, incômodos ou acontecimentos trágicos. Considerando a alta velocidade desenvolvida pelos carros, e a velocidade máxima permitida nas rodovias (que é por volta de 110 km/h, 80 km/h e em alguns trechos menor que esses valores), para que existem veículos com o potencial de chegar a mais de 200, 300 km/h? A não ser pelo marketing e sua persuasão, não vejo outra explicação para o mesmo. Essa persuasão cai como ilusão assim como explicita Freud: "Uma ilusão não é a mesma coisa de um erro, tampouco é necessariamente um erro"; ela é fruto de um Desejo.
O mal-estar causado no trânsito atinge todas as fases da vida, a começar pela infância
Para comprovar a infl uência e o estrago causados pelo trânsito, destacam- se aqui algumas estatísticas no Brasil. De acordo com a seguradora que administra o DPVAT ou, como é mais conhecido, seguro obrigatório, em uma estatística de abril de 2011, o trânsito deixou em média 160 mortos por dia no país. Já o Portal do Trânsito, em uma estatística de 2010, diz que as formas das notificações e dos relatos comprometem o resultado final das estatísticas que afirmam não passar das 35 mil mortes causadas pelo trânsito em um ano, porém contabilizam só as pessoas que morrem no local do acidente. Mesmo que a vítima morra na ambulância não será contabilizada. Os especialistas acreditam que esses números ultrapassam 50 mil mortes ao ano. De acordo com as estatísticas de 2005, segundo o Detran e BHTRANS, o total de vítimas deste ano, em Belo Horizonte, foi de 17.636. Em outra estatística disponibilizada pelo site do jornal Gazeta do Povo, o número de mortes de motociclistas aumentou 754% em 10 anos no Brasil.
PARA SABER MAIS
O Desejo e o trânsito
Enfatiza-se aqui a potencialidade do Desejo, grande descoberta freudiana. Freud, em seu talvez mais genial texto, "O inconsciente", postula que "o núcleo do Ics é composto de representantes pulsionais (triebrepräsentanzen) desejosos de escoar sua carga de investimento - em outras palavras, é composto de impulsos de Desejo (Wunschregungen)". Assim, o inconsciente freudiano, ao meu ver, é estruturado como energia, como Desejos e pulsões, energias psíquicas que pulsam por toda a vida.
Na frase que tem a palavra Desejo, só tem espaço para um sujeito, o eu. É eu Desejo, e não ele, ela Desejo. Quando se passa ao outro, o grande Desejo perde o seu espaço, desloca-se, desdobra-se e transforma-se semanticamente em pequena representação da classe do Desejo, tornando-se não mais o grande Desejo, e sim meros figurantes da família do mesmo. Surge o ela deseja, o ele deseja, nós desejamos e por aí vai, mas não reaparece, senão por via de si mesmo, o grande Desejo. A própria semântica nos apresenta a intimidade do desejo com cada um de nós. O que nos demonstra que aquele que é nosso grande Desejo é para o outro uma representação sem maior importância. Nesse sentido, uma das funções sociais do Desejo é o encontro, o vincular-se. O desejo promove o encontro. O encontro de dois Desejos no trânsito, cada qual com o seu, lutando pela afirmação, que provoca desencontros. A clínica da Psicanálise é aquilo que se ajusta, já que nasce da escuta do inconsciente do ser humano. Ela é única para cada um, é aplicável na transferência. Já o Desejo é aquilo que não se ajusta, é o pulsar por excelência. O Desejo está sempre nos colocando em movimento, em uma incessante busca e deixando o corpo ofegante. Por faces do Desejo, entende-se as manifestações transvestidas de seus conteúdos, de suas ideias (vorstellung), suas representações, pois o Desejo nunca se entrega como conteúdo completo e cristalino, ele se manifesta por faces. Compete à escuta clínica e suas pedras angulares acessá-lo e possibilitar o sujeito. O sujeito procura análise para encontrar-se consigo mesmo, ou melhor, para encontrar com o seu Desejo. Se o Édipo nos condena à pergunta: "quem sou eu?", já a clínica da Psicanálise nos coloca defronte da seguinte suscitação: "qual é o meu Desejo?". Interroguemo-nos; e no trânsito como este Desejo pulsa, ou, ainda, por qual Desejo somos guiados no trânsito?
O Desejo, por ser íntimo ao sujeito, é por excelência narcísico, podendo gerar no campo do pensamento e da consciência representantes ou faces egocêntricas, assim como o sonho é do sonhador o Desejo é do desejante. Afinal, não é o sonho a realização alucinada de um Desejo? E o trânsito não seria a realização acelerada desse Desejo?
A necessidade de manipular e persuadir a população se tornou essencial para que o marketing consiga vender, e isso no trânsito tornou-se "perigoso"
O mal-estar causado no trânsito atinge todas as fases da vida, a começar pelas crianças. Estas, para sua segurança, devem ser colocadas em cadeirinhas apropriadas presas aos bancos traseiros. A utilização da cadeirinha pode causar um desprazer na criança, pois algumas vezes ela perde a visão do pai ou familiar, podendo ter a sensação de estar isolada dentro do veículo ou "perda dos pais". Além disso, a situação pode promover um incômodo por terem de ficar mais quietas, pois a cadeira impõe limites de espaço e locomoção. Os pais devem ensinar as crianças desde pequenas para que estas não aprendam a burlar a lei do trânsito, e sim segui-las. Já na adolescência, o desprazer no trânsito volta a aparecer quando jovens dirigem sem habilitação ou, mesmo que a tenham, dirigem embriagados. Nos feriados, os números supracitados tendem a aumentar, o que confirma um pulsar do príncipio de prazer utilizado em desmedido grau sobre uma máquina com potencialidade mortífera sem considerar o princípio de realidade.
O excesso de oferta de veículos é uma tentativa de economizar tempo, considerado um dos inúmeros problemas da atualidade, tendo seus reflexos muitas vezes em estresse e outros sintomas
Toda educação é castradora e criadora do desprazer. De acordo com Freud, "buscamos realizar um desejo que jamais será realizado". Ainda de acordo com a Psicanálise freudiana, temos desejos inconscientes e conscientes. Alguns podem ser realizados, outros enveredam por distintas vicissitudes possibilitadas pelo ato de pulsar. No trânsito, para realizar ou buscar um prazer, "quebramos" algumas regras, inclusive podendo chegar à morte. Parece nítido que, quando o assunto é trânsito, tendemos a priorizar a satisfação e o gozo, e não a vida.
Agressividade no ar
A pulsão (trieb), termo empregado por Sigmund Freud a partir de 1905, tornou-se um grande conceito da doutrina psicanalítica. A pulsão está em todos os momentos ativos na vida do sujeito: pulsão de vida (EROS), pulsão de morte (TÂNATOS). As pulsões são de origem inconsciente do sujeito e difíceis de controlar; já as pulsões de morte (TÂNATOS) levam o sujeito a se colocar repetitivamente em situações dolorosas. No trânsito, percebem-se as pulsões de morte (TÂNATOS), que são pulsões agressivas, se não em todos os momentos, pelo menos na maioria deles, quando os motoristas e até mesmo pedestres apresentam grande nível de hesitação com ira e cólera.
Pulsão de morte
Tânatos - a pulsão de morte, ou de destruição, como queiram - é derivado da Filosofia do deus da morte, alhures, tomou outros ares na Psicanálise. Tânatos é muitas vezes injustiçado. Na Psicanálise seu entendimento dá-se como a energia, pulsão de destruição e agressividade, porém, vale destacar e explicitar sua importante participação para a vida. Ao alimentar-se, por exemplo, tritura-se o alimento. Eis, aí, uma das inúmeras participações para a vida da pulsão de morte. Por isso digo que a pulsão de morte não morra!
Ambas as pulsões supracitadas andam sempre de mãos dadas, "amigas" íntimas, ora uma pulsa com maior intensidade, ora outra. Um dos protótipos da pulsão de morte é a repetição, uma quebra de continuidade de algo, uma destruição de uma busca incessante do desejo. No entanto, mais uma vez, temos Eros com uma participação discreta, repete-se mas nunca o mesmo, damos uma continuidade mais estreita, quando ocorre a repetição o pulsar psíquico já é outro.
A Psicanálise deve ir na contramão do capitalismo, utilizando novas estratégias para atuar com eficácia, sem sair do capitalismo
Com isso, o poder da evolução das "máquinas" criadas pelo homem junto às pulsões de morte acarreta e favorece ainda mais acontecimentos trágicos. E quando se diz de pulsões, a questão da tentativa de controle e de precaução complica-se, ainda mais inseridas na velocidade ímpar em que o trânsito as colocam. Pulsares sobre um corpo de pulsões inquietantes. Enquanto Eros favorece o encontro, Tânatos mune a destruição. Isso me remete a pensar nos acidentes, que em geral são encontros (Eros) entre seres desejantes que resultam em destruição (Tânatos) corpórea, de vida, dentre outras. A questão que fica é: até quando EROS perderá adiantada essa "batalha" para TÂNATOS e o que fazer para aniquilar essa complexa situação?
Estamos numa sociedade em transição, com novas formas de sintomas, novas estratégias de vida, novas saídas, novas buscas, novas ilusões de promessas e novas aplicações do Desejo. São novas formas de nos tornarmos civilizados

Fonte: http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/86/artigo279437-1.asphttp://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/86/artigo279437-1.asp

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

TOC

Comportamento compulsivo
Se no TOC o objetivo é aliviar a tensão e se desfazer da ansiedade, no TCI a ação obedece ao princípio do prazer: a pessoa reconhece os impulsos como seus e se lança a realizar o ato porque vai sentir prazer

Por Roberte Metring


Texto retirado da Revista Psique. Ed.82- 2012.


Imagem: Shutterstock

O impulso é uma percepção psíquica súbita de um desejo que impele o indivíduo à realização não planejada, de um ato que resulta no alívio da tensão ou uma satisfação prazerosa

Por acaso já se pegou puxando cabelos brancos do braço ou da cabeça para não delatar a idade? Já ruminou uma música por um tempo considerável, até que ela se tornasse chata em sua mente? Já voltou para ver se tinha mesmo fechado a porta da sua casa ou desligado a chama do fogão? Já brincou de colocar fogo em coisas quando era criança? Já apostou num inocente jogo de cartas de baralho com alguém? Já tentou se livrar de um pensamento que não o abandona? Já se viu praticando alguma mania como arrumar os óculos ou os cabelos várias vezes, mesmo sabendo que não era necessário, mas porque simplesmente parecia impossível controlar a vontade?
É bem possível que você tenha respondido sim a várias dessas perguntas. Calma! Isso não significa que você sofre de comportamento compulsivo ou transtorno de controle do impulso (TCI).
● Oneomania ●
(comprador compulsivo): do grego onéo, que significa comprar, a pessoa apresenta um excesso de preocupações e desejos relacionados com uma necessidade incontrolável de comprar e gasta mais do que pode, e/ou com coisas desnecessárias, ou seja, uma mania de comprar ou de gerar ônus. Essas preocupações perturbam o cotidiano do sujeito, pois consomem tempo significante e interferem no funcionamento social e laboral, resultando quase sempre em maiores problemas financeiros. Prevalência alta em mulheres (80% a 95% versus 5% a 20% em homens), sem distinção de escolaridade ou classe social.
A princípio, e de forma geral, um comportamento compulsivo (ou TCI) é classificado como uma falha da pessoa no controle de seus impulsos. Por isso, mesmo que você tenha respondido com vários sins às questões acima, se isso está totalmente controlado, você sabe o que está fazendo, não lhe causa problemas sociais, profissionais, relacionais, matrimoniais, financeiros etc., você não está sob efeito da compulsividade.
Atente ao fato de todo comportamento normal poder deslizar para um comportamento compulsivo, porém nenhum comportamento compulsivo é normal, a não ser entre aqueles que estão no mesmo contexto, no mesmo tipo de comportamento, que devem achar pouco normal viver uma vida sem muitos problemas de compulsividade.Pesquisas indicam que o comportamento compulsivo, de forma geral, se apresenta associado a transtornos de humor e de ansiedade. Também existem pesquisas que indicam o TCI como uma forma de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), embora não haja concordância plena sobre isso, já que no TOC os sintomas costumam provocar a ansiedade, gerando algum tipo de sofrimento para o indivíduo na execução do ato, que normalmente ele desejaria evitar mas que não consegue por ser a única forma encontrada para aliviar a tensão, a angústia e a ansiedade. Esse comportamento realizado no TOC é gerado por uma questão obsessiva, intrusiva, que é perfeitamente questionável pela pessoa, embora não controlável, portanto, considerado egodistônico - aquilo que não é dela, que vem de fora.
Um comportamento compulsivo (ou TCI) é classificado como falha da pessoa no controle de seus impulsos
Se no TOC o objetivo é aliviar a tensão e se desfazer da ansiedade, no TCI a ação obedece a outro princípio, o princípio do prazer. A pessoa não questiona se os impulsos são seus, ela os reconhece como seus - uma questão egosintônica - e se lança a realizar o ato porque vai sentir prazer naquilo e portanto para essa pessoa é fácil criar explicações para seus pensamentos ou comportamentos, mesmo que eles sejam nada adaptativos ao meio ou à sua posição. Essa pessoa não deseja neutralizar nada, deseja é sentir prazer realizando aquele ato.

Sintomas do TCI
Segundo o DSM-IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 4ª edição),a característica mais evidente do TCI é o fracasso da pessoa em resistir à tentação de praticar algum ato, seja de forma premeditada/planejada ou não.
Nos momentos anteriores ao ato há uma crescente sensação de tensão ou excitação e, durante a realização dele, uma experiência de prazer, gratificação ou alívio.
Após a realização do ato não é raro que sobrevenha o arrependimento, a autorrecriminação ou a culpa, porém não é condição imperiosa que esses sentimentos ocorram, podendo mesmo não ocorrer, e se ocorrem não impedem a pessoa de realizar tudo novamente, pelo prazer que sente com o comportamento.
Impulso, obsessão, compulsão
Por impulso, nos referimos à percepção psíquica súbita de um desejo que se energiza impelindo o indivíduo à realização urgente e experimental, não planejada, de um ato ou comportamento que deve ter, como resultado, o alívio da tensão ou uma satisfação prazerosa. Em condições normais é isso o que ocorre, e o aparelho psíquico, agora aliviado da tensão, de uma forma ajustada, está pronto para a geração de outro ato ou comportamento de acordo com as necessidades e circunstâncias de vida do indivíduo.
Pesquisas indicam que o comportamento compulsivo, de forma geral, se apresenta associado a transtornos do humor e de ansiedade
Porém, nem sempre é assim que as coisas acontecem. Por vezes, o processo foge do controle e os impulsos começam a se tornar irrefreados como se ganhassem vida própria. Inicia-se uma sequência descontrolada e desenfreada do par impulso-ação que se retroalimenta sem um fim em si mesmo, conduzindo ao que passamos a chamar de comportamento compulsivo.

Se no TOC o objetivo é aliviar a tensão e se desfazer da ansiedade, no TCI a ação obedece a outro princípio, o princípio do prazer
Na compulsão, o indivíduo é levado a praticar um ato por um impulso interno muito poderoso. A não realização do ato traz sentimento de angústia e aumento da pressão psíquica, que podem se tornar intoleráveis e desestruturantes do próprio psiquismo

● Automutilação ●
A agressão ao próprio corpo é intencional, sem no entanto desejar conscientemente chegar ao suicídio, com o uso de técnicas de baixa letalidade: cortar a pele (70%), bater em si mesmo (40%) e queimar-se de alguma forma (entre 15% e 35%). Estudos identificaram que pessoas abusadas emocional, física ou sexualmente na infância, que sofreram bulling na adolescência, que apresentam sintomas depressivos, ansiedade, impulsividade e baixa autoestima, que já tenham apresentado ideação ou tentativa de suicídio estão entre os que desenvolvem esse comportamento compulsivo.
Mas pode também ocorrer o contrário.
Essa sequência impulso-ação, por motivos vários, pode começar a interagir com mecanismos psíquicos de controle - os mecanismos de defesa do Ego. Esses mecanismos têm o objetivo de proteger o aparelho psíquico do sofrimento, da aflição ou da descompensação. Essa nova associação não consegue impedir a geração do impulso, já que o desejo emerge de camadas menos conscientes do aparelho psíquico, mas consegue impedir que seja gerado o ato ou o comportamento que aliviaria a tensão. Nesse caso não teremos como resultado um comportamento compulsivo, como no anterior, mas sim outros quadros neuróticos, como por exemplo as fobias, que delatam ao mesmo tempo o desejo e o medo de realizar alguma coisa, portanto para não cometer o proibido é melhor se afastar do lugar, da situação, das pessoas que possam eliciar esse ato.Obsessões referem-se a ideias, imagens, impulsos ou pensamentos intrusivos e repetitivos, indesejados e exagerados, que produzem ansiedade e desconforto para o indivíduo. A obsessão tem caráter egodistônico, e apesar de reconhecida como indesejável, a pessoa não consegue exercer controle sobre sua presença. A única forma de controle é gerar um comportamento que alivie a tensão, porém o próprio comportamento acaba por gerar ainda mais angústia e ansiedade, já que a pessoa reconhece que não deveria estar fazendo aquilo, que não é do seu desejo, ativando um circuito de retroalimentação que se torna, então, incontrolável pela pessoa, a não ser que se submeta a tratamento, normalmente psicológico e psiquiátrico. A obsessão é característica do TOC, tem classificação própria para diagnóstico, então não é estudada como um TCI.
A obsessão tem caráter egodistônico, e apesar de reconhecida como indesejável, a pessoa não consegue exercer controle sobre sua presença
O compulsivo, após a realização do ato, pode ficar ou não arrependido, mas, independentemente disso, nenhum sentimento o impedirá de realizar tudo novamente, pelo prazer que sente com o comportamento
Compulsão, etimologicamente, tem origem latina - compulsione, compellere - que significa compelir, constranger, forçar, obrigar. No vocabulário freudiano, compulsão refere-se a uma força interna que impera no indivíduo, compelindo-o a realizar frequentemente uma ação, produzir um pensamento, ou mesmo gerar uma operação defensiva, ou tudo isso junto. Clinicamente, compulsão refere-se a uma conduta - um ato, uma ação, um comportamento ou um pensamento - que o indivíduo é levado a praticar por um impulso interno muito poderoso, ou uma obsessão, dos quais perde o controle, já que a não realização do ato traz sentimento de angústia e aumento da pressão psíquica, que podem se tornar intoleráveis e desestruturantes do próprio psiquismo.
Quando o indivíduo cede à compulsão surge o comportamento compulsivo, uma forma de aliviar tensões psíquicas, que se torna viciada e descontrolada. Lembremo-nos que a diferença entre o TOC e o TCI se constitui basicamente no fato de o comportamento compulsivo no TOC ter origem egodistônica, ser ritualizado, visar a redução da ansiedade do sofrimento. No TCI, a origem é egosintônica e normalmente gera sensação de prazer ou satisfação na sua realização.
São exemplos de comportamento compulsivo, classificados no DSM-IV e na CID-10 (Classi cação Internacional de Doenças): transtorno explosivo intermitente, cleptomania, piromania, jogo patológico, tricotilomania (arrancar os de cabelo ou pelos do corpo), dermatotilexomania (causar lesões na própria pele), oneomania (comprar compulsivo), compulsão sexual, compulsão pela internet, amor patológico, entre outros.
Formas de tratamento
Há duas formas de tratamento possíveis para os casos de comportamento compulsivo: acompanhamento psicoterapêutico e acompanhamento psiquiátrico.
Compulsão tem origem latina - compulsione, compellere - que significa compelir, constranger, forçar, obrigar
A pessoa que apresenta um excesso de preocupações e desejos relacionados com necessidade incontrolável de comprar e gasta mais do que pode e/ou com coisas desnecessárias também sofre de um comportamento compulsivo
O acompanhamento psicoterapêutico vai trabalhar com a revisão e clarificação dos conteúdos subjetivos presentes nas manifestações compulsivas do comportamento. O psicólogo é o profissional que vai conduzir um processo, com base científica comprovada, para levar o paciente a compreender as causas do seu comportamento ou sofrimento, ajudando a encontrar formas de superá-los.
Todas as linhas psicoterapêuticas produzem resultados, mais efetivos e rápidos quando há empatia entre paciente e terapeuta, quando o paciente sinte-se à vontade para trabalhar suas questões utilizando os métodos e técnicas da linha escolhida. O paciente pode optar por atendimento individual ou em grupo.


 Fonte: http://portalcienciaevida.uol.com.br/esps/Edicoes/82/artigo271877-1.asp