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segunda-feira, 16 de maio de 2016

AS ESTRUTURAS CLÍNICAS NA VISÃO DA PSICANÁLISE

A Psicanálise afirma a existência de três estruturas clínicas: a neurose; a psicose e a perversão. A neurose, de longe a mais comum, atua no sujeito através do recalque: há um conflito com recalque. A psicose, com o mecanismo da forclusão, reconstrói, para o sujeito, uma realidade delirante ou alucinatória. Já a perversão, mantida através da denegação ou desmentido, faz com que o sujeito, ao mesmo tempo, aceite e negue a realidade, com uma fixação na sexualidade infantil.




Sigmund Freud ergueu o edifício da Psicanálise em alguns pilares, sendo o Complexo de Édipo talvez sua pedra angular. Como nascemos de um casal, formamos com ele um triângulo. Nesta configuração, cada elemento exerce uma função específica. A mãe é o primitivo objeto de amor. O pai, o representante da lei do desejo e responsável para que a lei seja aplicada. A criança transitará entre um e outro, atravessando diversas fases em seu desenvolvimento até que possa (ou não) constituir-se como sujeito desejante e de linguagem, inserido na cultura.
As estruturas clínicas, portanto, irão depender da atuação das figuras parentais, sendo que o pai, por sua presença ou ausência, por sua atuação ou omissão, terá um papel predominante. É função paterna provar à criança que tem desejo e palavra, autoridade e comunicação. Quando há falha na função paterna, as consequências sempre são devastadoras para a prole. O que determina cada estrutura clínica é, pois, como o sujeito encena, apreende e interpreta sua história diante das funções materna e paterna. Logicamente, podem estar implicadas tendências genéticas ou hereditárias, mas o que faz com que seja escolhida esta ou aquela estrutura é o modo como nossa história se desenrola diante de nossos olhos interiores.
Aquele (mas também pode ser aquela) que exerce a função paterna deve operar no filho o que a Psicanálise chama de “castração”. A castração separa o filho da mãe na unidade simbiótica primitiva. Sempre leva o sujeito à angústia da perda e da separação, mas também abre o caminho para a linguagem, a cultura, o desejo, o amor, a vida em toda a sua plenitude. Contra a angústia e o sofrimento causados por tal operação, a criança reagirá com mecanismos de defesa variados. É a predominância do mecanismo utilizado que determinará sua estrutura. Como apontado acima, os mecanismos são o recalque; a forclusão e a denegação ou desmentido.
Dito de modo simplificado, a neurose é uma patologia cujos sintomas simbolizam um conflito infantil recalcado. É uma maneira do sujeito se defender da castração a que foi submetido, numa fixação edipiana. Pode ser através da histeria; da fobia ou da neurose obsessivo-compulsiva. Na histeria, o conflito se mostra de modo dramático ou teatral, sob forma de simbolização através de sintomas no corpo: ataques ou convulsões; paralisias ou contraturas; cegueira ou outras conversões somáticas. Na fobia, que também pode ser vista como um sintoma histérico, o sujeito traduz a angústia primitiva da castração num pânico imotivado, frente a algo que, de fato, não oferece perigo. Difere, assim, do medo racional e objetivo. Já a neurose obsessivo-compulsiva é caracterizada por um conflito infantil e por uma fixação da libido na chamada fase anal do desenvolvimento.Freud, ao contrário de alguns psicanalistas mais modernos, acreditava na possibilidade de mudança de estrutura a partir do tratamento. Embora possa haver polêmica em torno deste assunto, o que se percebe, na clínica, é uma possível variação ou trânsito entre as neuroses, mas nunca na psicose ou na perversão. Há abrandamentos ou a chegada a certo equilíbrio. A escolha da estrutura, porém, não depende da vontade consciente do sujeito. O psicanalista francês Jacques Lacan afirmará que a linguagem é que nos determina. Porque tudo dependerá de como a criança integra os acontecimentos de linguagem que ocorrem à sua volta. Essa reação é pessoal, subjetiva, intransferível e insondável, uma vez que inclui nossas fantasias inconscientes desde o nascimento ou talvez até antes dele.
O termo psicose, em Freud, designa uma reconstituição delirante ou alucinatória, por parte do sujeito que não consegue chegar á simbolização e à linguagem. Freud sempre rejeitou a organogênese da psiquiatria e tentou esclarecer as motivações inconscientes que levam a essa estrutura. Podemos classificar as psicoses em: esquizofrenia; paranóia e psicose maníaco-depressiva. Na primeira, há incoerência de pensamento, do afeto e da ação, o “ensimesmamento” (ou autismo) e delírio/alucinação. Já a paranoia enfatiza um modo de compreender a realidade equivocado, caracterizado por um delírio sistemático, completo e a inexistência de deterioração intelectual. O maníaco-depressivo, hoje dito portador de “transtorno bipolar”, alterna momentos de grande agitação maníaca e outros de extrema melancolia, tristeza ou depressão.
O conceito de perversão sofreu modificações do início freudiano aos nossos dias. Não devemos confundir a estrutura perversa psicanalítica com as perversões listadas pela psiquiatria ou outras ciências e mesmo religiões. A perversão é, assim, uma renegação da castração, com fixação na sexualidade infantil. O sujeito aceita a realidade da castração paterna, que, para ele, é inegável; mas, ainda assim, diferente do neurótico, tenta desmenti-la e negá-la. Para Lacan, a perversão será detectada no discurso de cada um. O perverso se dá o direito de transgredir a lei e viver segundo seus próprios requisitos, enganando as pessoas. Numa linguagem popular, o perverso é um mal-intencionado.
O tratamento psicanalítico depende do diagnóstico por parte do Analista. Este deverá, após algumas sessões preliminares, determinar a estrutura do sujeito e como se dará a sua Análise a partir disso. Ater-se a tais estruturas é, portanto, uma ferramenta e um recurso importantes para o clínico. Todo o sucesso ou fracasso do tratamento depende, em grande parcela, do diagnóstico.


Escrito por: 
Paulo Emanuel Machado é psicanalista, escritor e professor. Tem dois romances publicados: A TEMPESTADE (Editora Scortecci, 2014) e VOCÊ NÃO PODE SER O OCEANO (Edição independente, 2015), ambos baseados em relatos de pacientes e alunos. O primeiro sobre abuso sexual; o segundo sobre a travessia difícil da adolescência. Também possui artigos publicados e contos em antologias. É de Salvador, Bahia, nascido a 10 de janeiro de 1960.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Depressão e culpa: Freud estava certo? Por Tiago Azevedo



Sigmund Freud dizia que a depressão pode resultar de expressões exageradas de culpa.

Uma pesquisa com imagens cerebrais mostra que os cérebros de pessoas depressivas respondem diferente à sentimentos de culpa – mesmo após o desaparecimento dos sintomas. O estudo da Universidade de Manchester foi publicado na revista Archives of General Psychiatry.

Os pesquisadores descobriram que as varreduras do cérebro de pessoas com um histórico de depressão diferiram, de indivíduos que nunca ficam deprimidos, nas regiões associadas com a culpa e conhecimento do comportamento socialmente aceitável.

A prova concreta apresentada por ressonância magnética funcional mostra como o cérebro responde nas pessoas com diagnóstico de depressão.

Roland Zahn, médico da Escola de Ciências Psicológicas da Universidade, disse: "Nossa pesquisa fornece o primeiro mecanismo do cérebro que poderia explicar a observação clássica por Freud de que a depressão se distingue de tristeza normal pela propensão a sentimentos exagerados de culpa. Pela primeira vez, nós traçamos as regiões do cérebro que interagem para conectar o conhecimento detalhado sobre o comportamento socialmente adequado - o lóbulo temporal anterior - com sentimentos de culpa - a região subgenual do cérebro - em pessoas propensas à depressão"

Pesquisadores utilizaram ressonância magnética funcional para escanear o cérebro de um grupo de pessoas após a remissão da depressão maior por mais de um ano, e um grupo de controle com pessoas que nunca tiveram depressão. Ambos os grupos foram convidados a se imaginar agindo mal, por exemplo: sendo "mesquinhos" ou "mandões" com seus melhores amigos. Eles, então, relataram seus sentimentos para a equipe de pesquisa.

"Os exames revelaram que pessoas com um histórico de depressão não “casaram” as regiões do cérebro associadas com culpa e conhecimento do comportamento apropriado com tanta força como o grupo de controle nunca deprimido fez, disse Zahn.

"Curiosamente, esta "dissociação" só ocorre quando pessoas propensas à depressão se sentem culpadas ou culpam a si mesmas, mas não quando sentem raiva ou culpam os outros. Isso pode refletir uma falta de acesso a detalhes sobre o que exatamente era inadequado sobre seu comportamento quando se culpavam, estendendo assim para si a culpa de coisas pelas quais que não são responsáveis".

Cientistas acreditam que a descoberta é importante porque revela mecanismos cerebrais subjacentes à sintomas específicos de depressão, que podem explicar por que algumas pessoas reagem ao estresse com depressão em vez de agressão.

Os investigadores estão agora estudando se os resultados do estudo podem ser usados para prever o risco de depressão após a remissão de um episódio anterior. Especialistas dizem que, se houver sucesso, a ressonância magnética funcional pode ser uma ferramenta para medir o risco de depressão no futuro.
Fonte: Universidade de Manchester

Tiago Azevedo – Psicoativo.com
Nosso Colaborador e mais Novo convidado a postar aqui com a equipe do Psicoativo!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O que é ego, id e superego?


por Katia Abreu | Edição 128
per-128-superego-id-ego
São as três estruturas do aparelho mental, segundo o psiquiatra austríaco Sigmund Freud. Cada uma delas cuidaria de algum aspecto da nossa personalidade e regeria nossa interação com outras pessoas. Ele apre- sentou essa teoria em 1923, no texto O Ego e o Id. Freud foi um revolucionário:ele acreditava que pacientes com dis- túrbios psicológicos eram capazes de lidar melhor com seus conflitos con- versando com o terapeuta. Ele propôs ainda a interpretação de sonhos e a livre associação como métodos para acessar camadas mais profundas da mente e buscar ali a cura.
FRODO EXPLICA
Personagens de O Senhor dos Anéis são boas representações das estruturas psíquicas
O Ego

Comandada pelo “princípio da realidade”, essa parte é aquela que mostramos aos outros. Fortalecido pela razão, o ego está “preso” entre os desejos do id (tentando encontrar um jeito adequadode realizá-los) e as regras ditadas pelo superego. Do mesmo modo,Frodo se vê tentando conciliar as necessidades de Gollum e Sam em sua jornada.
O Id

A ânsia selvagem de Gollum pelo “precioso” anel é um bom símbolo para essa parte da nossa psique, responsável pelos nossos impulsos mais primitivos: as paixões, a libido, a agressividade... O id (“isso” em alemão) está conosco desde que nascemos e é norteado pelo “princípio do prazer”, mas seus desejos são frequentemente reprimidos.
O Superego

Também chamado de “ideal do ego”, tem a função de conter os impulsos do id. Suas regras sociais e morais não nascem com a gente: nós a aprendemos na sociedade para que possamos conviver nela corretamente. Em O Senhor dos Anéis, esse é o papel de Samwise, a bússola moral de Frodo, que o impede de ser seduzido pelo diabólico Um-Anel.


FONTES O Ego e o ID e Outros Trabalhos, de Sigmund Freud, e sites psychology.about.come tvtropes.org

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Carta de Freud para a mãe de um homossexual

Carta de Freud para a mãe de um homossexual

Certa vez, a mãe de um jovem homossexual escreveu uma carta a Freud com a intenção de que seu filho fosse “curado” pelo psicanalista. Eis a resposta que – apesar de ter mais de 80 anos – parece ainda igualmente válida para os nossos dias:
19 de abril de 1935
“Minha querida Senhora,
Lendo a sua carta, deduzo que seu filho é homossexual. Chamou fortemente a minha atenção o fato de a senhora não mencionar este termo na informação que acerca dele me enviou. Poderia lhe perguntar por que razão? Não tenho dúvidas que a homossexualidade não representa uma vantagem, no entanto, também não existem motivos para se envergonhar dela, já que isso não supõe vício nem degradação alguma.
Não pode ser qualificada como uma doença e nós a consideramos como uma variante da função sexual, produto de certa interrupção no desenvolvimento sexual. Muitos homens de grande respeito da Antiguidade e Atualidade foram homossexuais, e dentre eles, alguns dos personagens de maior destaque na história como Platão, Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci, etc. É uma grande injustiça e também uma crueldade, perseguir a homossexualidade como se esta fosse um delito. Caso não acredite na minha palavra, sugiro-lhe a leitura dos livros de Havelock Ellis.
Ao me perguntar se eu posso lhe oferecer a minha ajuda, imagino que isso seja uma tentativa de indagar acerca da minha posição em relação à abolição da homossexualidade, visando substituí-la por uma heterossexualidade normal. A minha resposta é que, em termos gerais, nada parecido podemos prometer. Em certos casos conseguimos desenvolver rudimentos das tendências heterossexuais presentes em todo homossexual, embora na maioria dos casos não seja possível. A questão fundamenta-se principalmente, na qualidade e idade do sujeito, sem possibilidade de determinar o resultado do tratamento.
A análise pode fazer outra coisa pelo seu filho. Se ele estiver experimentando descontentamento por causa de milhares de conflitos e inibição em relação à sua vida social a análise poderá lhe proporcionar tranqüilidade, paz psíquica e plena eficiência, independentemente de continuar sendo homossexual ou de mudar sua condição.”
Sigmund Freud
A_Letter_from_Freud_to_a_mother_of_a_homosexual_-_1935_-_1

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

MAIS LOUCOS E PERVERSOS DO QUE NOS IMAGINAMOS


POR: CLARIANA ZANUTTO  /  28/02/2014
FOTOS RODRIGO BRAGA/3FILMGROUP
Foi com seu mestre, o psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981), que Contardo Calligaris aprendeu que 
o transtorno mais grave que uma pessoa pode ter é ser, digamos, “normal”. Consequentemente, aprendeu também o pupilo que, para ser saudável, o ser humano necessita ter, ao menos, uma neurosezinha aqui e outra ali. Assuntos como esses fascinam tanto Contardo que, aos 65 anos, o psicanalista italiano, nascido em Milão, mas radicado no Brasil desde os anos 1980, assume continuamente o seu maior gosto: trabalhar. Não é fora do comum, portanto, encontrá-lo em seu consultório durante 12 horas diárias e saber que, no tempo restante, além de poucas horas dedicadas ao sono, ele ainda faz exercícios, lê três livros por semana, produz uma coluna semanal para a Folha de S.Paulo e ainda preserva suas idas a cinema, teatro e restaurante. Quer mais? De um ano para cá, ele vem se dividindo entre os roteiros e as gravações da série Psi, que estreia dia 23 deste mês no canal HBO Brasil – e simultaneamente em mais 22 países da América Latina –, e é baseada em seus livros O conto do amor e A mulher de vermelho e branco. Em foco estão as aventuras de Carlo Antonini (vivido por Emílio de Mello), psicólogo, psiquiatra e psicanalista que tem a vida fora do consultório destrinchada junto com a história de outras personagens que exemplificam diferentes perfis psicológicos.

Membro da Escola Freudiana de Paris há quase quatro décadas, Contardo Calligaris não se importa em chocar seus colegas freudianos e lacanianos ao revelar que gostaria de fazer um ano de pscioterapia junguiana, assim como também não tem problema algum em encarar a sociedade ao expressar que a infância é uma idade totalmente idealizada e que as crianças são seres extremamente cruéis. Completa a descrição dizer que ele é encrenqueiro, intervencionista, gosta de se meter em brigas – claro que não como há 30 anos – e de resolver problemas sobre os quais não foi pedida sua opinião. Enfim, o psicanalista está bem longe de ser a pessoa normal que tanto abomina. Sorte a nossa! Afinal, Lacan não estava errado em dizer que a vida é realmente mais interessante quando há uma neurosezinha aqui e outra acolá.

Por muito tempo você teve oportunidades, mas optou por não adaptar os livros 
O conto do amor e A mulher de vermelho e branco para o cinema ou TV. O que, dessa vez, fez com que você mudasse de ideia? 
É uma pergunta interessante. Primeiro, porque, claro, é uma mudança de ofício, mas, enquanto romancista, eu sou um contador de histórias. Não sou fascinado por nenhum experimentalismo. Então, um seriado é uma maneira de contar uma boa história e, sobretudo, construída ao redor de personagens que têm de ser sólidos, porque eles têm de durar de alguma forma, pelo menos o personagem principal. Isso, no fundo, não é muito afastado do trabalho do narrador e do romancista. Tem uma grande diferença que é de ser um trabalho coletivo; então, é preciso, realmente, se acostumar a isso, porque o romancista é Deus e todo mundo. Não tem problema, mas o escritor de cinema, sobretudo do Brasil, é inserido em um processo muito mais complexo. Agora, ainda por cima do ponto de vista da televisão brasileira, foi uma coisa relativamente nova. Aliás, na verdade, absolutamente nova como tipo de seriado brasileiro. Acho que nunca foi feito algo parecido. Não tem! Então, nasceu essa ideia, e procurei alguém que escrevesse comigo, porque é uma tarefa hercúlea. O roteiro de uma série de 13 episódios tem 800 páginas, não menos do que isso, em várias versões e andando em companhia. Mas, rapidamente, me encontrei com Thiago Dottori, que é o roteirista com quem, aliás, eu continuo trabalhando a segunda temporada.

O que as pessoas que já conhecem o personagem Carlo Antonini vão encontrar de diferente em Psi? 
Várias coisas. Primeiro, os amores e os amigos são completamente diferentes, porque ele não mora mais em Nova York, voltou para São Paulo. Mas, no fundo, espero que eles encontrem certa permanência que é ele: essa figura um pouco bizarra, um cara que é psiquiatra, psicólogo, psicanalista – geralmente existem casos famosos, mas são poucos. Na maioria das vezes, alguém é ou psiquiatra e psicanalista, ou psicólogo e psicanalista, mas as três coisas são mais raras juntas. E um cara que tem um espírito, pelo menos aventureiro, tanto na sua prática quanto com poucas obediências de qualquer tipo, inclusive, de alguma forma, morais. Não por isso ele seria um devasso – não é nada disso, ao contrário. Mas digo “morais” no sentido em que acha que as escolhas morais são questões próprias, singulares de cada um. E um fascínio com essa profissão. Fascínio no bom sentido, não no sentido de ficar boquiaberto – é um pouco burro –, mas um interesse muito grande pela diferença extrema que, na verdade, é sempre muito menos extrema do que parece. É muito mais próxima, muito mais parecida com a gente. E essa relação com a diversidade da vida acontece na clínica, mas acontece também na sua vida cotidiana, na sua vida amorosa, por exemplo. É um cara que se aventura, faz escolhas amorosas que podem parecer um pouco bizarras.

E você também acompanhou as gravações? 
Totalmente. Mas, em certos momentos, foi complicado... Na segunda temporada, acho que vou ter que levar isso mais a sério porque, fisicamente, a massa de trabalho foi superior, muito superior, ao que eu vagamente imaginava, como número de horas. As noturnas acabam às 4h30, 5h da manhã. Mas, tudo bem, digamos que, às 2h, eu desistisse, mas às 7h30 estava no consultório.

Não podia abandonar nem o consultório e nem as gravações... 
Claro, mas, na segunda temporada, certamente vou, durante a produção propriamente dita, suspender os atendimentos. Não tenha dúvida! Porque, se não, caso eu não suspenda, não tem como. Tem isso. E tem antes e tem depois. Porque você não para de escrever ao longo, sempre tem o “vamos mudar essa cena, vamos fazer aquilo, se muda aquilo tem que mudar o outro e companhia”. Participei muito ativamente de todo o processo de edição. E aí você realmente aprende! E olha que tenho um passado ligado ao cinema, digo, eu fui tudo, até figurante. Fui figurante muito cedo, de Barbarella [filme dirigido por Roger Vadim, em 1968] e de alguns outros horrores cujo título nem me lembro. Já fui gladiador romano, já fui várias coisas quando morava em Roma.

Essa curiosidade do Carlo por situações diferentes, de sair atrás de um problema e tentar resolvê-lo, também existe em você? Sim. Ou, então, quando não tem um problema, criá-lo (risos). Que também é outra maneira de ter que sair atrás de um problema. Sim, sou intervencionista, sou encrenqueiro, sou do tipo que, se tem uma briga, me meto. Sou briguento. Paguei a metade da minha faculdade com uma bolsa pelo boxe. Fui campeão suíço universitário. Só para dizer que sou encrenqueiro.

Nada como uma boa confusão então... 
Gosto de uma pequena confusão, sim. Muito menos agora do que há uns 25, 30 ou 40 anos. Mas ainda entro em alguma confusão. Compro briga, sim. Peito!

E você, assim como ele, também tem repulsa pelo que é normal? 
Também. Aprendi isso com o meu mestre, [Jacques] Lacan. Eu segui, durante muitos anos, as apresentações de pacientes que ele fazia a cada sexta-feira, ao meio-dia, no [Centre Hospitalier] Sainte-Anne, em Paris. Uma apresentação de paciente, você sabe o que é? Um paciente que foi internado, o residente que se ocupa desse paciente tem questões, então, ele é apresentado. Lacan apresentava-o para um público limitado, de pessoas convidadas, autorizadas, digamos que eram umas 70 pessoas, mais ou menos. Fiz isso no Hospital Raul Soares, na Clínica Pinel, em Porto Alegre, em Rosário. Existe cada vez menos, e é uma pena, porque é um instrumento pedagógico incrível. E também porque não existem mais hospitais psiquiátricos no sentido tradicional. Cada vez menos existem. Então, uma vez, Lacan disse sobre um paciente: “Qual é o problema dele?”. O residente falou: “Não consigo diagnosticá-lo”. E Lacan disse: “Ele é absolutamente normal”. Todo mundo deu uma risadinha, e Lacan acrescentou, o que deixou uma espécie de frio entre nós: “De todos os diagnósticos, a normalidade é o diagnóstico mais grave, porque ela é sem esperança”.



Então, a “normalidade” é um transtorno como outro qualquer...

Certamente. Não... Na verdade, é mais grave.

E o que é ser “normal”?
Pois é... Será que as pessoas querem ser normais? Normais ou não julgadas? Eu acho que o neurótico médio – que somos todos nós – sonha, idealiza o louco. Ele acha que o louco é “o cara”. E sonha em ser perverso. Ou seja, em ser alguém que realmente não teria todos os impedimentos que a neurose nos coloca, ou seja, os registros de culpa, as inibições. O que é uma pessoa normal? Uma pessoa realmente normal é uma que tem um registro de experiência miserável, extremamente pobre. Pode ser que seja relativamente pouco sofrido, mas é também dramaticamente desinteressante. Às vezes, quem pode ser normal são pessoas que têm ou tiveram uma insuficiência cultural-afetiva muito grande. Então, não conseguem... Não é elaborar a experiência no sentido de falar as suas experiências, mas sabe aquela coisa que você atravessa a vida, vê as coisas e isso não lhe evoca nada? Tudo acontece como está acontecendo e isso não me evoca nenhuma lembrança. Normal é quem não tem nada disso. É quem tem uma experiência miserável, no sentido de pobre. Um registro de experiência extremamente pobre.

Não tem interesse também? 
É a mesma coisa. Interesse muito limitado. Por exemplo, o sexo parece ser fisiológico. Ausência de fantasias sexuais. O sexo é: “23h30 a gente apaga a luz, está na cama, transa”. Está previsto.

E essa normalidade é atribuída ao quê?
De certo ponto de vista, aquilo pode ser considerado um tipo de saúde mental. Porque você, sem dúvida, tem um nível de tormento individual, de angústia, muito menor do que o neurótico médio. Mas, geralmente, aquele tipo de normalidade é construída de maneira extremamente sólida e eficiente em cima de um vulcão adormecido. 

Pensando dessa maneira, uma neurose é sempre interessante. 
Somos todos neuróticos, em tese. Graças a Deus, realmente normais são muito poucos. Somos todos neuróticos. Mais loucos do que nos imaginamos – loucos, digo psicóticos –, e em certo número, somos todos, enquanto neuróticos, capazes de ser perversos de vez em quando. O problema mais interessante não é o de viver tranquilo, é o de ter uma vida interessante. Isso que é importante. Inclusive, a que uma psicanálise se propõe? Se propõe a tornar a vida de alguém mais interessante. Não garanto que os meus pacientes venham, sei lá, a sofrer menos ou a ter uma vida mais tranquila. Aliás, o que eu espero é que tenham uma vida mais interessante.

Existe algo como uma cura ou alta, do ponto de vista da psicanálise, para os pacientes?
Existe, mas é uma transformação. Porque na medicina, em tese, curar significa trazer você ou levar você a uma espécie de volta à situação anterior. Quer dizer, você está com gripe, você quer ficar como antes da gripe. No campo “psi”, isso não existe. Você tem uma depressão, você não vai poder voltar ao que era antes da depressão. Pode se tornar outra coisa, que não é nem a depressão que você tem agora, nem o que você era antes. O processo é transformador. Então, “curar” é sempre um pouco problemático. E, além do mais, a apreciação é subjetiva, porque, afinal, é o paciente quem vai dizer que está melhor ou que está suficientemente bem para poder, por exemplo, parar um tratamento. A apreciação é dele. Posso verificar que você não tem mais febre, que você não tem mais um tumor. Tudo bem: não tem mais, não está lá. É muito diferente.
Quem faz análise geralmente fala que todo mundo tem que fazer. E quem não faz, fala que não é assim. Como é, na verdade? 
Acho que não é verdade que todo mundo tem que fazer. Acho que é um equilíbrio complicado, uma alquimia complexa. Não sei nem se a gente pode dizer que todo mundo pode fazer. “Poder”, do ponto de vista de ter, sei lá, isso a grande maioria pode, tem a possibilidade de fazer uma análise, mas é preciso uma predisposição subjetiva. É um equilíbrio curioso, porque é tempo, é uma complexidade na vida. Não é necessariamente penoso. Pode ser extremamente interessante; e deveria ser. Teve uma época em que estava na moda pensar que uma análise deveria ser necessariamente um processo penoso e angustiante. Que, aliás, se você não se angustiasse, isso demonstraria que você não estava tocando nas questões importantes. Pode ser um processo divertido – divertido, além de interessante, no sentido de que um paciente e um analista podem tranquilamente rir em uma série de circunstâncias. E não é raro que seja um processo em que o cara espera o dia da sua sessão ansiosamente.

Você faz análise?
Neste momento, não. Minha última análise foi nos Estados Unidos. Faz bastante tempo que não me reanaliso. Deveria acontecer daqui a pouco, aliás.

Como funciona com você?São situações assim, na verdade, na minha idade – não sei se tem muito a ver com idade, mas, enfim – 
houve pessoas com as quais eu fiquei a fim de fazer uma fatia de análise. Porque eu queria ver, queria ouvir uma coisa diferente do que já tinha ouvido. Pessoas que justamente não eram da minha formação. Hoje, provavelmente – coisa que vai chocar a maioria dos meus colegas –, acho que eu faria um ano de psicoterapia junguiana, me interessaria.
Eles ficariam chocados de que forma?
Ah, porque a maioria dos meus colegas freudianos – lacanianos nem se fala – não iria entender; é como se eu dissesse que vou me confessar com alguém de outra denominação. Tipo: “Vou parar de ir à missa. Agora vou à mesquita no domingo”. Ou, então, começo a frequentar a sinagoga no sábado. Em regra, é bem assim.

Você acredita ser mais flexível do que eles?
Não, não. Não é que acredito, eu sei que sou muito mais flexível. Mas eles não chamam isso de flexível, porque parece uma coisa positiva. Acho que eles consideram que tem uma dívida específica com a disciplina. Acho que eu tenho uma dívida com a psicanálise. Com o desejo, sem dúvida, de Freud muito mais do que com a doutrina de Freud. Me interessa tudo o que saiu do desejo de Freud, inclusive Jung, por exemplo. E mesmo coisas que não saíram do desejo de Freud, porque tem um monte de psicoterapeutas. Fiz psicoterapias rogerianas (método de Carl Ransom Rogers, 1902-1987) e companhia, que não são propriamente pós-freudianas, e achei superinteressante.


Uma, das muitas questões discutidas na série, é que ninguém gosta de ser mudado... 
Isso. A gente passa a vida inteira circundado por pessoas que têm o projeto de nos moldar. Na hora, pode até parecer normal, mas é um saco, né?!  E isso continua. Mas na infância e na adolescência é muito mais, inclusive depois, até no trabalho. Você se lembra daquele filme bonito, Mestre dos mares? É uma história de Russell Crowe, que é comandante, e tem esses dois meninos de 13 ou 14 anos que, na verdade, são oficiais a bordo do navio. É um deles que comanda as baterias de bombardeio do navio. Eles são oficiais da Marinha! Um deles perde um braço e fica lá sem braço. Sobrevive. O espectador médio hoje vê aquilo e não entende. Não processa como sendo normal. Você entrava na escola militar de guerra aos 12, 13 anos, fazia os seus cursos, passava, saía. Valeu. Um aprendiz saía de casa aos 7 anos, na França da Idade Média. Se eu era marceneiro, o meu filho se destinava à marcenaria – naquela época, o que se previa era a reprodução; então, aos 7 anos, o meu filho ia aprender a ser marceneiro. Mas não podia aprender comigo, porque eram inteligentes, eles entendiam que não era com os pais que se aprende. Então, eu tinha que mandá-lo para outro marceneiro dentro da confraria, mas não era na mesma cidade. Era 600 km, 700 km... Eu ia rever meu filho dez anos depois, formado. E ninguém morria. Você vai dizer isso para uma mãe hoje?
Você diz em relação à superproteção extrema, não? 
Nós somos totalmente infantólatras e a infantolatria é um dos grandes traços da contemporaneidade. E dizer que as crianças são capazes de grandes crueldades, isso é uma coisa que hoje é quase um escândalo. A criança pode ser extremamente agressiva. Não tenho uma simpatia, a priori, por crianças. Acho que crianças são seres cruéis, extremamente cruéis, capazes das maiores maldades. Freud dizer em 1905 que as crianças tinham uma sexualidade era um negócio! Como? As pessoas não viam as criancinhas se masturbando em casa?

A grande maioria não quer enxergar isso... 
Não quer, absolutamente. A infância continua sendo uma idade totalmente idealizada. Aliás,  continuamos, cada vez mais, tentando criar uma idade durante a qual as crianças, esses seres, não vão ter preocupações de nenhum tipo. Bom, claro que isso funciona como pode, mas a nossa idealização da criança é muito grande, muito forte.

E quem resolve não seguir por esse caminho recebe muitas críticas... 
Sim, claro. Imediatamente. Mas a gente não pode se queixar tanto assim, no fundo, porque, sobretudo a partir dos anos 1970, progressivamente, a sociedade ocidental criou uma espécie de ideologia positiva da diferença. Tanto que a diferença parece ser ou é apresentada como um valor em si. Por exemplo: é bom que o ambiente de trabalho seja repleto de diferenças étnicas e o caramba, pessoas de todos os tipos, porque essa inclusão vai – e agora tem toda uma justificação positiva – ter um efeito positivo na decision making. Porque, claro, vão participar pessoas que pensam, sentem e veem o mundo de maneiras tão diferentes. Isso é realmente muito novo. Se falasse isso em qualquer empresa nos anos 1950 ou 1960, iam achar que você estava louco. Então, certamente a margem de convivência das diferenças aumentou muito. Hoje não é, pelo menos nas grandes cidades do Ocidente, impossível ser homossexual, não é impossível conviver com um casal homossexual. Até os anos 1980, era tipo aquela política Clinton: “Don’t ask, don’t tell”. Mas você não imaginava chegar ao seu escritório e colocar a fotografia de um namorado ou namorada do mesmo sexo em cima da mesa em um porta-retratos. Não, você não ia fazer isso não.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

NORMAN BATES INTRODUÇÃO - NORMAN E NORMA: A ENCARNAÇÃO DO ÉDIPO FREUDIANO


Norman Bates com certeza é um dos personagens mais enigmáticos do cinema. Sua relação com
 sua mãe, Norma Bates e sua patologia são um enigma que desafiam até hoje desde curiosos até
 os psiquiatras. Esta é a primeira parte de uma análise da sua personalidade, que passará desde
 sua infância até a vida adulta, concluindo com um bônus sobre Ed Gein, o psicopata que inspirou
 Hitchcock. Nesta primeira etapa será apontado o pontapé das patologias que rondam a família 
Bates à luz do conceito do Édipo Freudiano.


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Como todos sabem, cinema e psicologia possuem uma forte ligação, pois a arte e a vida vivem 
numa confusa relação, de modo que uma não é capaz de existir sem a outra, como já nos
 apontava Nietzsche. Nesta série, pretendo analisar o perfil psicológico dos grandes vilões do 
cinema e da vida real, de forma que seja possível entender como aquele jovem inocente com 
cara de mocinho pode se tornar um monstro sem escrúpulos ao longo da história. O mais 
interessante será mostrar como essa realidade não passa longe da nossa própria psiquê 
(e enchendo vocês de spoilers hahaha). Então, mãos à obra!
O primeiro personagem sobre o qual me debruçarei será Norman Bates, protagonista do lendário
 "Psicose" (Psycho) de Hitchcock. A trama, datada da época de 60 parece ser mais um velho filme 
sem efeitos especiais de qualidade e monótono, afinal não passa de mais um filme em preto e 
branco. Era o que eu pensava. Após assistir o seriado Bates Motel (sobre o qual falarei
 futuramente), que retrata a vida do jovem Norman durante sua adolescência utilizando elementos
 do enredo original, percebi o grande potencial da trama em relação ao conteúdo psicológico que 
carrega. Após comentários sobre a mesma em minhas aulas de psicanálise, resolvi assistir o filme
 original. Não consegui desgrudar os olhos da tela. Para minha surpresa, Hitchcock era realmente
 um gênio do suspense (Parabéns André! Ninguém jamais pensaria nele dessa forma se não
 fosse por você). A trama é extremamente bem construída e te prende do início ao fim num
 suspense composto de personagens bem elaborados com cenas sem delongas, sem mimimi, 
sem cadeiras que balançam do nada ou janelas que se batem. O terror psicológico vem do fato de
 você não saber do que cada personagem é capaz; aliás depois você percebe que não sabe nada
 sobre nenhum deles, o que deixa o espectador totalmente a mercê da trama.
psycho1.jpg
Quanto a personalidade de Norman e de sua mãe Norma, por serem extremamente complexas
 dividirei este artigo em partes:
Introdução: Norma & Norman: A encarnação do Édipo Freudiano
Parte I Infância de Norman: Você é tudo para mim e eu sou tudo para você
Parte II Adolescência de Norman: Você é uma garotinha, Norman! Por isso não pode me desejar!
Parte III Bates Motel
Parte IV Vida adulta: "Yes, mother"
Bônus: Um pouco sobre Ed Gein, o assassino que inspirou o cinema
Vamos então discutir a relação entre Norman e Norma Bates, o que servirá de prelúdio para
 compreender a trama. Apresentarei os fatos segundo os filmes da sério Psycho e, como acabei
 de mostrar, farei uma parte falando sobre a série Bates Motel, uma vez que a mesma não
 pertence a série de filmes original e apresenta algumas alterações no enredo. Norma Bates é 
uma personagem intrigante. Uma jovem mãe solteira que cria seu filho Norman num motel à beira
 de uma rodovia que no decorrer da série deixa de ser rota principal devido à um desvio, o que faz
 seu empreendimento ir de mal à pior num piscar de olhos. Até este ponto tudo parece normal.
 Porém ao analisarmos melhor a vida de Norma Bates durante a trama, veremos na mesma e nas
 suas relações diversas problemáticas que irão influir na personalidade doentia de seu filho, a 
começar pelo próprio nome.
A proximidade do nome é intencional; Norma e Norman são tão próximos que chegam a parecer 
uma única pessoa. Este tipo de relação entre os dois é que dará margem para a psicose de
 Norman. Uma vez que Norman era tudo para sua mãe, que nesta altura estava sozinha no
 mundo, ela também era tudo para ele. A relação de ambos pode ser considerada incestuosa,
 uma vez que podemos considerar o incesto como uma relação parental em que não são definidos
 os limites de cada pessoa da relação. Ou seja, Norma e Norman se confundem, como se um
 fosse extensão do outro; este comportamento tomará forma nítida no comportamento psicótico de
 Norman, que nunca superará sua mãe, levando ela consigo em um quadro patológico onde ele 
não é capaz de discernir sua personalidade de sua própria mãe.
Psycho-still.jpg 
Um ponto forte da trama, que tomará maior ênfase na adolescência de Norman será o édipo que 
existe na relação entre os dois. Reza a lenda grega que o oráculo de Delfos havia previsto que o
 filho do rei mataria seu pai
 e casaria com a mãe. O rei imediatamente manda matar a criança, que acaba vivo graças à 
piedade do carrasco. Anos mais tarde esta criança, agora chamado Édipo se tornará um exímio
 guerreiro que comandará tropas contra o rei grego. Assim Édipo mata seu pai biológico e
 desposa a rainha sua mãe e cumpre a profecia. Ao ser informado que era filho biológico do rei e 
de toda a profecia, Édipo enlouquece e fura seus olhos, decidindo vagar pelo mundo até cumprir
 sua pena. Na psicologia Freud aponta um processo conhecido como Complexo de Édipo, no qual
 as crianças tendem a se identificarem mais com o genitor do sexo oposto e rivalizar com o do
 mesmo sexo. Faz então uma analogia onde existem etapas de processos onde, por exemplo,
 o menino deveria matar simbolicamente o próprio pai para se constituir homem; há um
 simbolismo de matar os pais, por exemplo ao sair de casa e se tornar alguém que viva por sí e 
não mais uma extensão de outra pessoa.
Norman Bates nunca teve êxito neste processo. Embora sua relação com sua mãe fosse 
conturbada em alguns momentos, podemos ver o mesmo agindo de forma servil na cena seguinte
. Norman jamais superou sua mãe em nenhum sentido. Mesmo após a morte da mesma ela 
continuava viva para ele, influenciando seu comportamento com ordens diretas do que ele
 deveria fazer. Sua mãe sempre possuiu um comportamento extremamente agressivo e autoritário
, realizando punições diversas que acabariam por impedir que Norman pudesse superá-la.
 Norma Bates era uma mulher forte, ferida pela vida e que teve de criar seu filho sozinha,
 gerindo um motel falido no meio do nada. Era um mulher tão forte que tornou impossível a 
missão de Norman de se tornar um adulto completo, livre do jugo parental e ciente de sí e de sua 
própria identidade.
Devido ao pouco contato com outras pessoas, Norman acaba por ficar preso num círculo familiar
 que é patológico; a falta de relação com outras pessoas contribui muito para que sua 
personalidade seja moldada apenas pela sua mãe, sua única família. O comportamento ciumento
 da mãe em relação a Norman também agravará o processo, impedindo que o mesmo canalize
 seus desejos sexuais para qualquer pessoa se não sua própria mãe. Norma, por outro lado, 
parece ter uma vida mais ativa ao ponto de encontrar um novo amante. E é neste momento que
 toda a atividade psicótica de Norman tomará forma... Esta é apenas a primeira parte que servirá 
como introdução para a série. No próximo artigo, falarei mais sobre a infância de Norman e
 porquê ela foi fundamental para a construção da sua personalidade.



© obvious: http://obviousmag.org/a_psicologia_do_cinema/2015/norman-bates-i---norman-e-norma-a-encarnacao-do-edipo-freudiano.html#ixzz3jMjjnqDw 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Entrevistas preliminares e função diagnóstica nas neuroses e nas psicoses

Fonte: Jorge Forbes

Jorge Forbes e Maria Cecília Ferretti

Com:
Carlos Genaro Gauto Fernandez
Luiz Carlos Nogueira
Helena Maria Sampaio Bicalho

“Primeiramente há a questão do diagnóstico. Quando se submete à análise um paciente que sofre do que se descreve como perturbações nervosas, deseja-se de antemão estar certo – até agora, naturalmente, conforme a certeza possa ser alcançada – de que ele se presta a essa espécie de tratamento, de que se pode ajudá-lo por esse método. Isto, contudo, é o caso apenas se ele realmente tiver uma neurose”.
Freud “A questão da análise leiga” Edição Standard Brasileira, vol. XX, p. 272 (1926).

As entrevistas preliminares recebiam em Freud o nome de “análises de prova”. Trata-se de provar o quê?
É tarefa do analista provar que o dispositivo analítico pode ser posto em funcionamento com a pessoa que ali está. Para isto – e também para que o analista saiba de sua posição e estratégia, as quais intervêm na passagem que se dá de uma pessoa que o procura ao sujeito que entra em análise, por razões que demonstraremos – é que é preciso o diagnóstico. Assim o objetivo deste trabalho é o de marcar e desenvolver alguns pontos fundamentais quanto às entrevistas preliminares em uma de suas funções, ou seja, naquela referente ao diagnóstico que permite diferenciar as neuroses e as psicoses.

Alerta de Freud

Lacan recupera e precisa a “análise de prova” freudiana; recupera e precisa o ensino freudiano naquilo que diz respeito ao diagnóstico estrutural e à necessidade de reformulação do dispositivo analítico para o atendimento de psicóticos. Isto, na medida em que é do cotejamento entre neurose e psicose que se faz a elucidação da arquitetura de uma estrutura aceitável para a psicose.
No artigo “sobre o início do tratamento”, Freud declara que adquiriu o hábito de aceitar um paciente provisoriamente por um período de uma ou duas semanas (1). É nesse mesmo artigo que Freud faz a já bem conhecida comparação entre a análise e o jogo de xadrez, mostrando que em ambos os casos as aberturas e os finais são passíveis de apresentação sistemática exaustiva. No entender de Freud, a abertura do jogo da análise pode ser sistematizada. Lacan, no retorno a Freud, fundamenta e avança essa sistematização.
Freud faz também saber que: “há razões diagnósticas para começar o tratamento por um período de experiência...” (2). O psicanalista tem motivos suficientemente fortes para evitar cometer equívocos no diagnóstico diferencial, entre a demência precoce e a neurose. Se o psicanalista errar aí, diz Freud, “não pode cumprir sua promessa de cura” (3).
As questões de indicação e de contra-indicação da psicanálise são ainda tratadas por Freud no artigo “Sobre a Psicoterapia” quando afirma “deve-se limitar a escolha dos pacientes àqueles dotados de um estilo mental normal, visto que no método psicanalítico isto é empregado como o ponto de apoio do qual obter o controle das manifestações mórbidas. Psicoses, estados de confusão e depressão profundamente arraigados (poderia dizer tóxicos) não se prestam, portanto, à psicanálise, pelo menos não para o método como vem sendo praticado até o presente. Não considero de modo algum impossível que mediante modificações adequadas do metido possamos ser bem sucedidos em superar essa contra-indicação – e assim podermos iniciar uma psicoterapia das psicoses”.
Lacan também mostra que na psicose o analista não pode cumprir sua promessa de tratamento analítico. O que Lacan ensina “é precisamente que não se há de tomar psicóticos em análise, porque toda a doutrina que se tem sobre esse tema vai mostrar um impasse” (5). “Se tomarmos um psicótico em análise, isto o torna louco” (6). No entanto, Lacan também aconselha ao analista não recuar diante da psicose. É o dispositivo analítico, tal como utilizado para o neurótico, aquilo que não deve ser aplicado ao psicótico. “Mediante modificações adequadas do método”, como diz Freud, é possível não recuar diante da psicose.
Posto que a análise pode desencadear a psicose, é preciso que o analista saiba reconhecer o pré-psicótico, ou seja, aquele que, por ter a estrutura psicótica, pode, ao se deparar com o dispositivo analítico – um dispositivo que propicia o encontro faltoso – desencadear o quadro psicótico. Esta tarefa é feita nas entrevistas preliminares. Cabe perguntar: como reconhecer o pré-psicótico?

Diagnóstico diferencial pela via das estruturas

O diagnóstico em Lacan é estrutural. Assim as questões da psicose e da diferenciação entre neurose e psicose devem ser abordadas pela via das estruturas.
No seminário III, As psicoses Lacan deixa claro que “temos abordado o problema das psicoses pela questão das estruturas freudianas”. Esta afirmação, por ser fundante, pede de nossa parte desenvolvimento.
Para Lacan “a situação analítica é ela própria uma estrutura; como tal, artificial, isto é, elaborada a partir de uma teoria de conjunto” (8). Lacan deixa claro que “o ensino freudiano, nisto inteiramente conforme ao que se produz no resto do domínio científico – por mais diferente que devessem concebê-lo do mito que é o nosso – faz intervir móveis que estão para além da experiência imediata, e não podem ser compreendidos de maneira sensível. Aí, como em física, não é a cor o que retemos, em seu caráter sentido e diferenciado pela experiência direta; é alguma coisa que está por detrás e que a condiciona. A experiência freudiana não é de forma alguma pré-conceitual. Não é uma experiência pura. É uma experiência realmente estruturada por algo de artificial que é a relação analítica, tal como é constituída pela confissão que o sujeito vem fazer ao médico, e pelo que o médico dela faz. É a partir desse modo operatório primeiro que tudo se elabora”(9).

Fenômeno e Estrutura

Nunca é demais lembrar que são os três registros: o real, o imaginário e o simbólico que permitem compreender a experiência analítica. Para Lacan, estas são as três ordens necessárias à orientação do procedimento analítico. Será que ao dizermos que a diferenciação entre as neuroses e as psicoses se faz através de uma abordagem estrutural, estaremos eliminando o fenômeno?
Lembremo-nos da importância dos fenômenos ditos elementares para o diagnóstico da psicose: automatismo mental, fenômenos que concernem ao corpo, transmissão do pensamento etc.
A estrutura afasta o fenômeno ou o engloba?
No texto anteriormente citado, Lacan refere-se à situação analítica como uma experiência e afirma que em física não é a cor o que retemos, Mas não é a cor tal como é dada pela experiência direta. Trata-se, sem dúvida, de uma experiência, só que esta experiência não é pré-conceitual. Desse modo, embora o analista não retenha, por exemplo, o automatismo mental, ele o leva em conta, inserindo-o em uma teoria de conjunto. Se o analista se deixa reter simplesmente pelo automatismo mental, pode cometer graves erros de diagnóstico. Poderá entender uma histeria como psicose.
“A estrutura, diz Lacan, aparece no que se pode chamar, no sentido próprio, de fenômeno. Seria surpreendente que alguma coisa de estrutura não aparecesse na maneira como, por exemplo, o delírio se apresenta” (10).
Não há em psicanálise uma dicotomia entre observável e não observável. Tentar estabelecer esta separação é não levar em conta os três registros lacanianos. Desta forma os chamados fenômenos elementares mostram a estrutura.
Em “Nota sobre o informe de Daniel Lagache” (11), Lacan afirma que “quando Daniel Lagache parte de uma escolha que nos propõe, entre uma estrutura de algum modo aparente (...) e uma estrutura que ele pode dizer à distância da experiência (...) essa antinomia negligencia um modo de estrutura que, em sendo terceiro, nem por isso poderia ser excluído, ou seja, os efeitos que a combinatória pura e simples do significante determina na realidade onde ela se produz. Neste artigo, Lacan mostra que é na medida que formulamos nossa experiência como o campo onde o “isso” fala que a distância em relação à realidade se dilui, porque opera como uma máquina que põe o sujeito em cena daí que, “a estrutura, em Lacan, não é uma potência invisível que atua imperceptivelmente (...), não é uma mão oculta. A estrutura de Lacan é uma estrutura que captura um visitante particular, o vivente que fala” (12). É a estrutura que escraviza o sujeito, que o fragmenta em efeitos do significante.
É em razão disto que no seminário sobre as Psicoses, Lacan pode afirmar que não tem esta confiança à priori no fenômeno, pela simples razão de que nosso encaminhamento é científico, e de que o ponto de partida da ciência moderna está em não confiar nos fenômenos e em procurar atrás deles algo mais subsistente que os expliquem” (13).
A confiança nos fenômenos elementares somente pode ser suportada por uma análise de estrutura. Esta confiança segundo Lacan é totalmente distinta daquela que lhe dedica a abordagem fenomenológica. O trabalho de Lacan visa a um mais além do que aparece, sem, contudo excluir o fenômeno.
Para Lacan não foi em razão de a psiquiatria levar em conta o fenômeno que houve marcha para trás. A psiquiatria regrediu devido aos impasses na via explicativa. A psiquiatria desconfiou da explicação e fez apelo à compreensão. 
É retomando a via explicativa que se chegará, portanto a uma análise proveitosa do fenômeno, na medida que este seja considerado como um elemento da estrutura.
Neste sentido poderíamos perguntar-nos se teria existido realmente uma “clínica do olhar” na psiquiatria. Se concordássemos com isto, estaríamos tomando uma posição empirista frente à teoria do conhecimento, isto é, estaríamos acreditando que é possível ao teórico abordar o fato diretamente pela observação. Não é possível uma “clínica do olhar” pelas mesmas razões que demonstram ser o empirismo uma teoria malograda. Quando Lacan fala em “impasses na via explicativa” indica que o erro está na má teoria e não em uma suposta ausência de teoria. Desta forma, no emprego da expressão “clínica do olhar” fica presente a idéia de um olhar que só retém a cor. A psiquiatria não é assim tão ingênua.
O ensino de Lacan busca reencontrar o bom caminho, aquele que possa superar impasses existentes na via explicativa elaborada pela psiquiatria.
O bom caminho proposto por Lacan aponta para a existência de um mecanismo fundamental na psicose: a Verwerfung. “De que se trata, quando falo de Verwerfung? “Trata-se da rejeição de um significante primordial em trevas exteriores, significante que faltará desde então nesse nível. Eis o mecanismo fundamental que suponho na base da paranóia. Trata-se de um processo primordial de exclusão de um dentro primitivo, que não é o dentro do corpo, mas aquele de um primeiro corpo significante. É no interior desse corpo primordial que Freud supõe se constituir o mundo da realidade, como já pontuado, como já estruturado em termos significantes” (14) . Lacan esclarece que este significante primordial é um mito: não se trata de um momento em que o significante primitivo foi adquirido, introduzindo-se em seguida o jogo das significações.
Marquemos esse ponto: na psicose não há jogo de significações; um significante não remete a outro significante. Dito de outro modo há na psicose uma inércia não dialetizável, uma inércia do simbólico “que introduz, como se percebe, a concepção a se formar do manejo, nesse tratamento, da transferência” (15).

Conseqüências na Clínica

O que ocorre nas entrevistas preliminares? Aí o analista se põe à escuta, intervém esperando que algo se dialetize, que um significante remeta a outro significante. A experiência analítica desta forma é feita para o neurótico; o psicótico, aí não funciona. Nas palavras de Lacan: “Nosso ponto de partida é o seguinte – o inconsciente está aí, presente na psicose (...). O inconsciente está ali, mas isto não funciona. Contrariamente ao que tenha sido possível acreditar, que ele esteja ali não comporta, por si mesmo, nenhuma resolução, muito pelo contrário, isto comporta uma inércia muito especial” (16).
Não é dada ao psicótico a produção analítica do discurso analítico, tal como é concebida para o neurótico. A entrada em análise, primeiro ato analítico, não se sustenta no caso do psicótico, pois “para que o ato analítico se constitua, é preciso que o sujeito possa surgir como efeito da articulação significante S1 — S2” (17).
Estamos aqui aproximando a neurose da psicose para tirar disto conseqüências. Não é, como esclarece Lacan “para simples satisfação de nosógrafos”, mas em razão de que somente na aproximação entre neurose e psicose “nos aparecerão relações, simetrias, oposições que nos permitirão arquitetar uma estrutura aceitável para a psicose” (18).
Na neurose as entrevistas preliminares terminam no momento em que houver a instalação da transferência. Já no artigo “Intervenção sobre a Transferência” (19) Lacan afirmava que não se trata na transferência de nenhuma propriedade misteriosa da afetividade. Mostrou em seguida, que a transferência é epistêmica, já que o saber está em jogo, colocando o sujeito suposto saber como o pivô da transferência.
Em 1967, na “Proposição”, Lacan escreve o matema da transferência:

S ——→S٩
_____________ 
s (S¹, S², ...S ⁿ)

Acima da barra há uma seta que vincula o significante inicial do analisando a um significante qualquer do analista. É importante notar que este significante qualquer refere-se a um determinado analista. Trata-se de um momento em que a transferência a priori se particulariza. Este enganche transferencial pertence à chamada vertente imaginária da transferência, na medida em que é esta vinculação que vai produzir o amor da transferência. Abaixo da barra, trata-se da vertente simbólica da transferência, a vertente produtora do saber sobre a verdade.
No neurótico as entrevistas preliminares à análise propriamente dita terminam quando se instalar o gancho com o transferencial significante do analista qualquer que seja; a análise far-se-á através do manejo da transferência. Desse modo o analista fará produzir um meio-saber, uma meia-verdade. O saber inconsciente é o que está abaixo da barra.
Vimos que na psicose o inconsciente aí está, mas não funciona. Não há saber a ser produzido; o saber do psicótico vem pronto, e o que pede é uma testemunha e não um sujeito suposto saber. Não há gancho transferencial posto que um primeiro corpo de significantes foi excluído. Nas palavras de J. Attié “o próprio quadro da transferência se encontra assim colocado. O analisando, como se percebe, não vem interrogar um sujeito suposto saber sobre aquilo de que é portador em seu inconsciente. Vem, já, com um saber constituído, mas apresenta o paradoxo de necessitar uma testemunha de sua certeza” (20).
Há no início da relação analítica uma presença: a da verdade. Não nos assustemos com esse termo de tradição tão forte. É impossível negar a vocação do analista para a verdade, Presunção, sem dúvida, mas destino do ser falante. “Quanto à análise se ela se coloca por uma presunção, é justamente a partir desta que é possível constituir, a partir de sua experiência, um saber sobre a verdade” afirma em “Encore” (21).
Na medida em que no psicótico há exclusão de um primeiro corpo de significantes, há também e por via de conseqüência a exclusão di tratamento da verdade. “O verdadeiro visa o real” (22) e deve haver um simbólico capaz de tratá-lo. No psicótico a inércia da simbolização não dá tratamento ao real. O simbólico não se dialetiza, excluindo o tratamento da verdade.
Em “Intervenção sobre a transferência” Lacan mostra como a cada “desenvolvimento dialético” corresponde um “desenvolvimento da verdade”. O termo dialético aí utilizado por Lacan é de origem hegeliana. As críticas posteriores que faz Lacan à filosofia de Hegel, no que esta se fundamenta em uma filosofia da consciência, não nos afastam do entendimento da análise enquanto experiência dialetizável, tal como aparece nesse texto de 1958. Esta experiência dialetizável mostra-nos o que ocorre com o neurótico e o que não pode ocorrer com o psicótico.
O analista nas entrevistas preliminares conduz o sujeito à produção de uma meia-verdade. Como mostra Lacan, as imprecisões biográficas fornecidas por Dora a Freud, primeira afirmação da verdade, fazem com que Freud a implique, fazendo nascer um primeiro desenvolvimento da verdade: cumplicidade e proteção de Dora em relação aos dois amantes.
Os movimentos das entrevistas preliminares são aproximadamente calculados em direção à verdade e desde aí a posição do analista questiona as queixas e as identificações imaginárias do sujeito. A posição do analista por não ser uma posição de cumplicidade com as significações já construídas, favorece o desenvolvimento da transferência, na medida em que se liga a um compromisso com a verdade.
Desse modo o dispositivo analítico não é apropriado ao psicótico. Na psicose há inconsciente, mas isto não funciona. Como também não funcionam o gancho transferencial, as intervenções que buscam dialetizar a experiência, a interpretação. “A interpretação analítica pe uma aposta, e não sem riscos. Relevo o caráter de aposta e risco, para lembrarmos que não é a mesma coisa a interpretação feita a um neurótico e a interpretação feita a um psicótico. A confusão traz riscos. A fala de um neurótico é uma resposta; para ele vale receber a própria mensagem, em sentido invertido, desde o Outro. Não é assim no psicótico. Se no neurótico o que se perde no simbólico, no simbólico se recupera; sabemos que no psicótico, é no real a recuperação e o desencadeamento do delírio é sempre um risco. Portanto, a questão do diagnóstico nos é importante, mesmo porque a psicanálise não é inócua” (23).

Conclusões

Desta forma as entrevistas preliminares permitem e solicitam ao analista a diferenciação entre as neuroses e as psicoses. Se o diagnóstico nem sempre é de fácil estabelecimento, a psicanálise fornece, no entanto, uma formalização teórica capaz de superar impasses e encontrar o bom caminho para a arquitetura de uma estrutura aceitável para a psicose.
O analista, através de uma estrutura explicativa que lhe permite integrar os fenômenos que constata – estrutura apontada desde Freud e que estabelece uma comparação entre neurose e psicose – coloca ou não em marcha o dispositivo analítico. É a partir do poder do analista e do seu dever que esta tarefa se cumpre. Não é por mera satisfação de nosógrafo e sim pela razão precípua da direção do tratamento que o analista aí se embrenha.