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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Como problemas emocionais se transformam em doenças?


A ideia de que fenômenos emocionais levam a alterações físicas é antiga. Em 1628, o anatomista inglês William Harvey (1578-1657) observou que todo mal-estar sentido na mente era direcionado para o coração. Hoje se sabe que o inconsciente interpreta e responde ao que chega ao cérebro por meio das terminações nervosas do corpo. É o que acontece quando levamos um susto, por exemplo.
Contra uma possível ameaça, o cérebro dispara reações para enfrentá-la ou fugir dela. “O coração acelera os batimentos para redistribuir o sangue para os músculos correrem ou lutarem e para o cérebro processar com rapidez toda essa situação. É por isso também que, para oxigená-los, a respiração fica mais rápida. É o chamado estresse, que envolve o sistema nervoso, hormonal e imunológico”, explica Artur Zular, presidente do Comitê Multidisciplinar de Medicina Psicossomática da Associação Paulista de Medicina.
Sem a fonte estressora, o corpo volta ao normal. Mas em caso de estresse permanente as coisas se complicam: os órgãos podem se esgotar, adoecer e o sistema imunológico tem sua ação inibida, facilitando o aparecimento de asma, alergias, gastrite, infecções e problemas cardíacos.
Fontes: Artur Zular, Presidente do Comitê Multidisciplinar de Medicina Psicossomática da Associação Paulista de Medicina; Ricardo Monezi, pesquisador do Instituto de Medicina Comportamental da Unifesp; e Sérgio Hércules, vice-presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática.
(FOTO: INFORGRÁFICO | ERIKA ONODERA/EDITORA GLOBO)

terça-feira, 5 de julho de 2011

Psicossomática e problemas relacionados a pele.





Texto retirado da revista Mente & Cérebro, ed.176, setembro de 2007.


Delicada superfície
Distúrbios psíquicos mobilizam hormônios, interferem no equilíbrio imunológico e desencadeiam perturbações na pele, como acne, dermatite e psoríase
por Massimo Barberi
O SURGIMENTO DA PSICOSSOMÁTICA
O termo “psicossomático” foi criado em 1818 por Johann Christian Heinroth, professor de psiquiatria da Universidade de Lipsia, Alemanha. Ele defendia a necessidade de uma disciplina que se opusesse à visão de saúde predominante na época, segundo a qual todas as doenças têm origem em processos orgânicos. Ao longo do século XIX a psicossomática se desenvolveu como ramo transversal da psicologia para se integrar, posteriormente, ao núcleo em torno do qual surgiu a psicanálise.
DIÁLOGO QUÍMICO

A estreita ligação entre psiquismo e pele não é novidade. Esse “diálogo” foi comprovado por numerosos estudos realizados desde a segunda metade do século XX. Pesquisas recentes identificaram o processo bioquímico que ocorre nessa comunicação. Com base nas descobertas, especialistas buscam compreender a “linguagem” estabelecida entre pele e mente, para poder intervir no movimento de somatização. O interesse nesses fenômenos se justifica: há estimativas de que 30% dos distúrbios dermatológicos derivam de processos psicossomáticos. Nessa projeção estão incluídos alopecia local – perda de cabelos localizada –, psoríase, vitiligo e pruridos.

Até hoje o foco das pesquisas tem sido o psiquismo, com seus distúrbios em grande parte desconhecidos. Essa tendência é confirmada pela expressão “psicossomático” (do grego psico, relativo a mente, e soma, que significa corpo). O dermatologista Torello Lotti, professor da Universidade de Florença, na Itália, acredita, no entanto, em novos paradigmas: “Em vez de psicossomático, hoje se dá preferência ao termo somatopsíquico, exatamente para centralizar o soma”. Interpretações atualizadas desses fenômenos comparam o comportamento do corpo ao de um “cérebro difuso”.

São inúmeros os eventos, patológicos ou não, que têm origem na mente e se manifestam na superfície da pele. Pessoas acometidas, por exemplo, pela alexitimia (incapacidade de nomear as próprias emoções) sofrem das mais variadas patologias cutâneas (ver “Os segredos das emoções”, Mente&Cérebro no 143, dezembro de 2004). Aquilo que não se consegue elaborar no sistema nervoso central parece exprimir-se sobre a cútis. Para Lotti, a pele seria o palco preferido da mente – uma “escolha” feita, provavelmente, no período neonatal. Muitos psicólogos acreditam que a pele tem papel importante na primeira fase da vida, no desenvolvimento da identidade e na constituição do eu (EGO). O contato físico do bebê com a mãe seria o principal estímulo à percepção de uma fronteira entre ele e os outros. Nessa fase a criança começa a estruturar a própria imagem. Pessoas que, desde o nascimento, apresentam deficiências táteis parecem estar mais sujeitas a distúrbios de personalidade.

A interação entre psiquismo e pele, portanto, é dupla: existem patologias psiquiátricas, como esquizofrenia ou depressão, que se manifestam na forma de manchas, irritações, erupções, pruridos e escamações. Na direção oposta, o aparecimento de doenças da pele costuma interferir nos estados de humor, provoca sintomas depressivos e compromete a auto-estima.