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sexta-feira, 31 de julho de 2015

TRANSTORNOS ALIMENTARES

anorexia 2









Os distúrbios alimentares figuram entre as patologias psiquiátricas que vêm apresentando maior crescimento em termos de incidência na população. Quem já se aproximou desse universo talvez tenha constatado a sua gravidade, em termos dos prejuízos físicos, psíquicos, afetivos e sociais. Não é apenas o corpo que se torna anoréxico. Todo o psiquismo adoece no sentido da perda de vitalidade, de apetite e do prazer. Sobre esse complexo tema, vale conferir a entrevista com a psicanalista Marina Ramalho Miranda*, que vem se dedicando ao estudo do tema.


Como a psicanálise entende e avalia o recente crescimento na incidência de casos de transtornos alimentares (TA’s)?
Embora os transtornos alimentares, entre eles, as anorexias e as bulimias, sejam novas vestes para antigas patologias, não há quem não perceba esse aumento da sintomatologia em nossos dias.
Tanto na literatura sobre o tema, quanto em minha experiência, existe uma concordância de que uma multiplicidade de fatores combinados é responsável pelo surgimento dos transtornos alimentares e penso que quando pesquisamos sobre o aumento na incidência deles em nossos consultórios, hospitais e serviços de saúde mental, temos que considerá-los em conjunto.
Os fatores que compõem a etiologia dos transtornos alimentares são os constitucionais (genéticos e biológicos), psicológicos (intra-psíquicos), familiares e sócio-culturais.
Pensemos juntos, em que tempos vivemos, atendo-nos nesse início de conversa a essa dimensão.
Como um dos temas prediletos da atualidade, o corpo reina absoluto quando se conjectura sobre o tão falado trinômio juventude-beleza-saúde, pondo em risco a dimensão da mente, ou seja, corpo e mente que deveriam estar juntos e em fluente integração começam a ficar destacados um do outro, e o corpo (e seus correlatos, como a sua nutrição, aspecto, vestimentas, etc.), gradativamente assume uma posição-alvo de exigências de perfeição e controle, sem que as pessoas se dêem muito conta dessa dinâmica de hipervalorização .
Este cenário cria uma espécie de “inter-patrulhamento” da aparência física, e, em particular, no que diz respeito ao volume corporal (será que estão implícitos nessa preocupação questionamentos a respeito do espaço e lugar que ocupa no mundo?) Daí, o próximo passo recai sobre a alimentação. As mulheres, mais do que os homens, são afetadas e fiscalizadas na difícil missão de manter um corpo eternamente jovem, belo, saudável e… magro! Dietas severas de emagrecimento proliferam em todos os cantos e discursos e acabam por ficarem misturadas com a solução para o alcance não só do corpo magro e aceito, mas da felicidade e sucessos almejados.
A psicanálise entra na roda nesse momento, em que a comida e a alimentação perdem seu sentido de combustíveis para a vida, deixam de estar a serviço do viver e como num espiral estonteante entram numa alquimia culinária e se transformam em emoção, medos, horrores, enfim toda sorte de afetos. Ela mergulha na especificidade dos vínculos familiares de cada paciente atendida, especialmente na relação entre as mulheres, nutridoras por natureza, mãe-filha-irmã (muitas vezes a avó também participa, contribuindo para o trabalho), coadjuvantes essenciais do processo psicanalítico, pois temos hipóteses de que esses vínculos já vêm sofrendo dificuldades antigas na troca afetiva, tornando-se mais vulneráveis e porosos às influências do emocional ambiental .
Em termos gerais, na anorexia e na bulimia surge a declaração de uma guerra contra a gordura, que passa a ser a principal vilã de suas vidas. Na obesidade, a comida pode ocupar o lugar da falta, preencher um vazio, amenizar um vácuo que nada tem a ver com a comida em seu sentido concreto, saciar uma fome que vem de outros lugares (ou não-lugares), territórios a serem explorados em companhia.
Mary Del Priore (2000), historiadora, defende a ideia de que hoje a história das mulheres passa pela história de seus corpos e com humor, observa:
“Diferentemente de nossas avós, não nos preocupamos mais em salvar nossas almas, mas em salvar nossos corpos da desgraça da rejeição social. Nosso tormento não é o fogo do inferno, mas a balança e o espelho.”
Há, entre os médicos, uma controvérsia sobre a psicanálise ser um método indicado para tratar pessoas com TA’s. Qual a sua posição? Pela sua experiência clínica, a psicanálise pode ser um método efetivo?
Constato, a partir de meus estudos teórico-clínicos e das inúmeras pesquisas que encontramos na Universidade e na SBPSP, e especialmente, a partir da experiência clínica de atendimento à(o)s pacientes e sua família, que o tratamento psicanalítico dos transtornos alimentares não só é indicado, mas completamente imprescindível. Sustento a ideia de que a presença do psicanalista integrando a equipe multidisciplinar de atendimento abre frestas no mundo hermético dos transtornos alimentares, favorecendo a revisitação e o exercício da linguagem falada, reaproximando essas mentes sofridas e danificadas pela força de defesas destrutivas que as isolam e enclausuram, reconduzindo-as ao mundo da interação fértil. A viva troca nutritiva que a presença e a linguagem instauram conduz ao reino do pensamento simbólico, ao reino do sonhado e do imaginado, tão inibidos no universo dos transtornos alimentares.
Será o psicanalista que irá oferecer uma escuta que se concentra na investigação do que não pôde ser dito ou do que não pôde ser ingerido (ou absorvido em excesso), do que não aparece (ou do que desnuda), do que está interditado (ou do que transborda) permanecendo desconhecido e estranho à compreensão do paciente, que por sua vez se alivia ao descobrir que seus sintomas não serão vistos como doença e sim como sinais indicativos de que algo muito sério aconteceu em algum momento de sua vida, alterando o rumo de desenvolvimento a ser seguido. A(o) paciente fala pelo corpo e com o corpo. O comer o nada ou o tudo devorar, o vomitar e expurgar são tomados como pistas a serem seguidas ou como rastros de conteúdos emocionais brutos, contraditórios, que entraram intrusivamente em seu interior e pedem para serem remastigados. A abordagem psicanalítica, com seu approach que caminha na interioridade, num movimento de olhar de dentro para fora, lê o corpo da paciente com transtorno alimentar como uma tela onde está estampada sua história pessoal. Está atenta às variações da linguagem não-verbal, não se contentando com as expressões atuadas comportamentais, mas tentando acompanhar cada paciente na individualidade e singularidade de suas expressões que, muitas vezes, se apresentam pelo avesso.
Esta tarefa pertence à psicanálise… as pessoas que sofrem desses distúrbios sentem fome desse tipo de compreensão, que se dirige para além do corpo e das comidas e se aliviam ao finalmente experenciá-la.
Um dos sintomas mais difíceis nos TA’s são as distorções da auto-imagem corporal. Sendo um método verbal, o tratamento analítico tem como chegar nesse tipo de sintoma?
Quanto mais intensas forem as distorções da imagem corporal, maior a gravidade desses quadros, pois ficam mais evidentes a força e a intensidade das fantasias que, alterando a percepção de si retiram o indivíduo do acesso ao seu próprio conhecimento e da sua interação com o mundo, deformando a experiência e a impregnando de sensações de desprazer o tempo todo. Continuamos no terreno de contribuições da escuta e da fala psicanalíticas.
Para a psicanálise, e na sua opinião, faz sentido pensar que a nossa cultura de valorização extrema da magreza seja de fato um fator desencadeante da doença? Ou são os conflitos internos e inconscientes os maiores determinantes?
Na resposta à primeira pergunta, aponto a inter-relação de múltiplos fatores agindo conjuntamente para a eclosão de um transtorno alimentar. Não dá para dizer que um deles é mais desencadeante do que o outro. Daí a importância do atendimento em equipe, que tenta mergulhar e dar um espaço especial a cada dimensão e consequências dos transtornos: a medicina, com ênfase na psiquiatria, muitas vezes a endocrinologia, a ginecologia e a cardiologia , a nutrição com sua nuclear contribuição, a orientação familiar, o educador físico auxilia bastante quanto à regulação dos exercícios físicos, que, unidos junto ao profissional psi vão formar uma espécie de família-prótese e comporão um modelo de união de esforços em contraposição a atitudes de patrimônio do atendimento.
Os sintomas dos TA´s são característicos de alguma estrutura psíquica em particular (neurose, psicose, perversão, etc) ou eles transcendem esse tipo de classificação?
Essa pergunta colocada em último é muito acertada, pois é ilustradora do que foi discutido nas anteriores. Na sequência da 4ª reposta, o leitor já pode responder por si essa questão, percebendo a multiplicidade de dimensões encontradas nos transtornos alimentares.
A partir de toda essa complexidade discutida e da especificidade e singularidade de cada situação, como enquadrar esses fenômenos alimentares numa mesma classificação? Como apertar um indivíduo tão singular em seus sinais de perturbação dentro de uma categoria nosológica isolada?
Até os manuais médicos de diagnóstico tem para as anorexias e bulimias um lugar especial e onde elas existem por si dentro do índice geral dos transtornos da alimentação.
Os transtornos alimentares, e em especial, as anorexias e as bulimias, fazem um passeio por entre as variadas psicopatologias referidas pela psiquiatria e não se encaixam em nenhuma delas, ao mesmo tempo em que as contemplam, nos mais diferentes graus.
Sintomas de alto sofrimento para quem deles se aproxima, mas que se forem acolhidos por companhias com um bom apetite para o trabalho, culminarão em nutrição saudável para todos.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Obesidade e Psicanálise. Parte 2

Cultura do espelho
O sujeito do sobrepeso já ocupou lugares históricos de status. Freud, ao dizer do mal estar na civilização, perpassa a noção do belo aplicado à constituição civilizatória. Hoje, vê-se veemente isto, e o corpo atual cultivado é o dito sarado, magro e sem gorduras. Basta ativar qualquer órgão sensorial para percebê-los no ar dos atos humanos. Segundo Freud, a felicidade da vida é buscada predominantemente pela fruição da beleza. Freud postula, ainda, que "a atitude estética em relação ao objetivo da vida oferece muito pouca proteção contra a ameaça do sofrimento, embora possa compensá-la bastante" (Freud, 1930). Eis uma saída ofertada diante do cultural para o mal estar que hoje tornou-se ilusão.
O belo encanta o olhar e convida ao encontro com o outro. Aqui, consideraremos o olhar como forte registro na constituição do sujeito, não apenas o olhar do vísivel com os olhos e, sim, o perceptível sensorialmente ao mundo e a si próprio. Na constituição do sujeito, é no perpassar a fase do espelho que o olhar se depara com o princípio de realidade e com a tênue separação da realidade psíquica com a realidade externa, assim como, também, com a noção do eu e o Outro. O olhar do obeso encontra dificuldade neste avanço e faz como Édipo na trama final de sua tragédia, onde fronte a frustração tenazmente fixado ao sentimento de culpa, perfura os próprios olhos e retorna a si próprio, regredindo-se por repressão.
Ainda utilizando as metáforas mitológicas, chamaremos a presença da "Cabeça da Medusa", que também representa o obeso mórbido de nossa contemporaneidade. O obeso, ao encarar frontalmente a ameaça de castração, transforma-se em pedra, cristalizando-se como o próprio Desejo, afastando-se dele nas desesperadas tentativas de saciar a falta, alimentando ainda mais o sintoma e mantendo a causa isolada sobre os gozos do corpo. Os obesos também se isolam, até mesmo simbolicamente, fazem do seu corpo sua "calota acústica".
O obeso caminha rumo ao alimento por questões singulares de sua história de vida. Utiliza o princípio de prazer e a tendência à repetição de uma fi xação que o leva à compulsão alimentícia
Os "estranhos" que escapam ao culto do belo tendem a encontrar convites à exclusão. Assim foi com os loucos na história da loucura, assim está sendo com os usuários de tóxicos e com os obesos, já que a cultura em que vivemos no Brasil, e em boa parte do mundo, consiste em uma cultura escultural sobre o corpo. Literalmente, uma cultura do espelho. Temos espelhos de variadas formas e tamanhos, espalhados por todos os lados.
O obeso apresenta-nos esses significantes. Por não brilhar aos olhos do outro, ele sofre no silêncio do encontro consigo mesmo. Engole o mundo em uma passividade que recorda a fase oral, fase fixada do obeso cuja repetição firma-se no erotismo oral. O obeso, assim como o sobrepeso, ultrapassa as margens visíveis julgadas pela cultura do espelho; O obeso caminha rumo ao alimento por questões singulares de sua história de vida. Utiliza o princípio de prazer e a tendência à repetição de uma fixação que o leva a compulsão alimentícia e envereda-o para questões biológicas mórbidas.
Academias, medicamentos, pílulas, promessas, aparelhos, segredos, dietas, dentre outras, são as formas que o social se lembra como sendo dos obesos, na sociedade. Nas formas de lucrar. Quando eles não aderem a essas práticas ofertadas e caem no outro lado do consumismo geram sobre si mesmo um cordão de isolamento, no qual o social tende a afastar aquilo que reflete suas próprias questões, deslocando ao outro as agruras de si próprio. Neste sentido, a cultura do belo é, na verdade, a cultura do afastamento de si próprio sob máscaras de ilusões da tão sonhada completude, felicidade e modelo narcísico. Paga-se um preço pelo sustento desse Desejo infindável e também pelo seu não sustento. Ficando-nos sempre a pergunta: quais são as faíscas do fogo desse Desejo no social e o que ele queima no sujeito? É como se o obeso chegasse à clínica com o grito igual ao do filho ao pai no sonho do capítulo VII da "A Interpretação dos Sonhos". "Pai, não vês que estou queimando?"
Distorção psíquica
O espelho, desde a sua criação, é utilizado para refletir imagens. A imagem do espelho não reflete por si só. A imagem refletida perpassa os estilhaços da vidraça do olhar, onde recebe distorções advindas do psíquico. O ser humano, ao olhar para o espelho, não vê o refletido e, sim, um reflexo que faz par com seus pulsares psíquicos de momento, podendo distorcer aquela imagem perceptível e torná-la monstruosa a si ou sedutora.
O obeso levado ao sobrepeso perpassa todas as classes sociais e idades. Questões psíquicas afetam o biológico que reflete no social que se volta ao corpo e com maior intensidade ao psíquico. Temos um sujeito biopsicossocial que sofre constantemente ataques pelas três vias - e aqui ele começa a diferenciar-se do sobrepeso. Daqui adiante estaremos a falar exclusivamente do obeso, entendido como um além do sobrepeso devido ao que se segue. O obeso, na verdade, é o reflexo de uma cultura que está abandonando o Desejo.
Obesidade e sujeito
O Desejo permanece o mesmo, sendo a mola mestre de cada um, que possibilita o sonhar. Para existir um sonho, deve necessariamente existir um Desejo. Porém, este Desejo carece de manutenções psíquicas, sendo um dos responsáveis e causadores destas deformações, o supereu - instância psíquica de forte cunho repressor. O supereu é a lei do aparelho, nossa moral psíquica, digamos assim. Dissemos moral, não ética; a ética permanece sendo a do Desejo. O supereu advém da cultura e é o herdeiro do complexo de Édipo. Desta forma, o sujeito obeso perdeu parte de sua ética em prol da avassaladora moral superegoica que lhe é imposta em sua forte repressão.

O obeso, assim como o sobrepeso, ultrapassa as margens visíveis julgadas pela cultura do espelho, e se mune de pulsações psíquicas
O sujeito obeso tem fome pulsional como uma saída de um desamparo. O desamparo, o alimentar-se e a passividade são os três representantes magistr ais que ditam a influência da fixação na erotização oral

Epidemia infantil
Um dos problemas mais sérios do mundo moderno é a obesidade infantil. O cinema não ficou fora desse debate. O documentário Muito além do peso discute por que 33% das crianças brasileiras pesam mais do que deveriam. As respostas envolvem a indústria, o governo, os pais, as escolas e a publicidade. Com histórias reais, o filme tem direção de Estela Renner e conta no elenco com Jamie Oliver e Frei Betto, entre outros.
A nova configuração social influencia, nesta lógica, as manifestações do Desejo. (re)edita suas faces. Os sintomas histéricos, fonte da nascente pesquisa freudiana vestem outras roupagens. Os obesos mórbidos ganham espaços na cadeia sintomática atual, e isso, como qualquer outra coisa, não acontece por acaso. Na cadeia sintomática, o ser obeso afeta o corpo orgânico e psíquico, tentando sobreviver à pressão, hipertensões e demais doenças até mesmo cardíacas. Se estamos inclinados ao agora e temperados a abandonarmos buscas longas, esquecemos um pouco o Desejo, causador de sonhos, não só os noturnos, mas também os diurnos, que chamaremos aqui de "sonhos sociais" aqueles que mune os projetos para o futuro. Os planejamentos que nos levariam à realização destes sonhos, buscas, 'ganham corpo' ao se atualizar para satisfação imediata, no agora.
O sujeito nasce do corte edipiano sobre a dominância do princípio de prazer que torna-se a posteriormente tendência. Quem, por ventura, seria o sujeito obeso? O obeso é aquele que, quando chega à clínica psicanalítica, chega recordando-nos da enigmática esfinge. Ele chega no ritmo do: "Decifra-me ou eu te devoro!". Seus sintomas consistem, em geral, em compulsões atuantes sobre o alimento. Enquanto houver alimento ele come, ingere. Elegendo preferencialmente alimentos que carregam em si significantes que o remetem aos processos psíquicos.
Quando está amargurado, alimenta-se de doce, para adoçar-se. Os alimentos gordurentos o elevam a uma sujeira que incorpora em si a falta de manifestação pulsional. Satisfaz momentaneamente o afeto, mantendo intacta a ideia, cujo objetivo de comer tende a isolar. Sua baixa resistência à frustração o faz tentar recompensar pela comida. No obeso, o ato de comer atravessa o instintual, sobrecarregando o pulsional e o corpo, levando o sujeito ao gozo do além de princípio de prazer sobre forma da repetição, que é o protótipo da pulsão de morte deslizante na plataforma de um prazer barato.

O sujeito obeso está cada vez mais próximo ao encontro com o real, afastando-se do Desejo como busca, mantendo-o apenas como pedra angular de sua estrutura. O corpo do obeso é o sustento da sexualidade. A obesidade não é considerada uma patologia quando se restringe ao sobrepeso, ela é uma patologia na medida em que traz prejuízos ligados à questão biopsicossocial. O sujeito obeso tem fome pulsional como uma saída de um desamparo. O obeso escolhe o que comer, mas não quando parar de comer. É um sujeito fortemente reprimido. A pulsão nos permite a escolha, e a repetição estreita essa flexibilidade elegível. O desamparo, o alimentar-se e a passividade são os três representantes magistrais que ditam a influência da fixação na erotização oral, a mais arcaica do desenvolvimento humano segundo Freud. O aparelho psíquico produz suas próprias saídas e, quando este não mais se arranja satisfatoriamente, a clínica é acionada.
O obeso, assim como aquele que tem uma questão mal resolvida, sente- se sensível em relação aos discursos sobre seus representantes, neste caso a comida. O 'estranho' trabalhado por Freud ataca e desencadeia a angústia que tende levá-lo para a sua única saída conhecida e experimentada pelo seu aparelho psíquico. O sujeito obeso é um sujeito que representa a atual civilização. Mostra-se influenciado pelo discurso da busca da felicidade e do culto à beleza, além do principal, que é o abandono do Desejo para realizações repetitivas do aqui e agora.

Eduardo Lucas Andrade é escritor, palestrante e aluno de psicologia na Faculdade Presidente Antonio Carlos; aluno de Psicanálise no Estúdio Ato de Psicanálise (Bom Despacho - MG).
João António Fernandes é psicanalista freudiano e professor na Analizzare (Divinópolis - MG)

http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/89/artigo290551-3.asp

quinta-feira, 14 de março de 2013

Cada criança deve superar o édipo para acessar a sexualidade adulta



Ideia fundamenta outras teorias essenciais da psicanálise

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da Livraria da Folha
Divulgação
Ideia fundamenta outras teorias essenciais da psicanálise
A ideia de "Édipo" empregada por Freud praticamente conquistou o status de gíria popular, sempre que alguém arranja um namorado(a) com algumas semelhanças inegáveis com os pais.
A brincadeira não está errada conceitualmente dizendo, mas quem se interessar em descobrir um pouco mais sobre a história desse importante fundamento da psicanálise, pode obter informações de maneira simples no livro "Édipo", escrito pela psicanalista Teresinha Costa para a coleção Passo-a-Passo, da Zahar.
"Freud afirmava a universalidade dos desejos edipianos, dizendo que cada criança deve realizar um caminho para superar o complexo de Édipo e ter acesso à sexualidade adulta", provoca a autora.
Em um texto bem equilibrado e conciso, a estudiosa mostra a influência do mito de Sófocles ("Édipo Rei") no pensamento de Freud, e apresentar as primeiras noções a respeito do desejo sexual infantil e seu desdobramento com outros pensadores, como Melanie Klein e Jacques Lacan.
"A Virgem Amamentando o Menino e São João Batista Criança em Adoração" (1500-1520)
"A Virgem Amamentando o Menino e São João Batista Criança em Adoração" (1500-1520)
"O que Freud demonstra é que o desenvolvimento da criança está marcado por uma sucessão de momentos em que ela erogeneiza diferentes áreas do corpo, denominados fases ou estádios do desenvolvimento sexual. Cada estádio implica um modo de relação com o objeto", explica a autora, se referindo às fases oral, anal, fálica e o período de latência, e que detalha uma a uma posteriormente.
O complexo de Édipo surge entre essas fases, e diz respeito ao amor egoísta da criança à mãe, mas que em meninos e meninas toma caminhos diferentes. A partir dessa pontuação, a psicanalista escreve sobre a formação da neurose e o medo simbólico e imaginário da castração dos meninos. O desenrolar desta última instância provoca a angústia da criança, que se vê pressionada a escolher entre o amor da mãe e o amor próprio.
No livro "Édipo", o leitor pode entender como ocorre e quais as consequências dessas escolhas para o desenvolvimento da sexualidade adulta.
*
"Édipo"
Autora:
Teresinha Costa
Editora:
Zahar
Páginas:
88
Quanto:
R$ 19,90 na Livraria Cultura e na Livraria Saraiva

Reportagem da folha de são paulo: http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/904674-cada-crianca-deve-superar-o-edipo-para-acessar-a-sexualidade-adulta.shtml 


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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Obesidade, cirurgia e emagrecimento

Texto retirado da revista Psique edição 67 de 2011.

O que acontece com as pessoas durante esses processos? E a mudança de ser gordo para ser magro pela cirurgia bariátrica, pode gerar transtornos psicológicos?

Por Agência Notisa de jornalismo científico

A obesidade é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a epidemia do século. Dados recentes revelam que 48,1% da população adulta no Brasil está acima do peso e 15% são obesos.
Com o número de obesos, aumenta também a quantidade de cirurgias bariátricas realizadas. Pesquisas revelam que, em dez anos, de 1999 a 2009, o número de cirurgias para obesidade mórbida cresceu mais de 500% no País.

A doença, que aumenta de forma alarmante no Brasil e no mundo, é multifatorial e o componente psicológico exerce papel importante nesse cenário. Psicólogos e psiquiatras discutem fatores psicológicos que estão por trás da obesidade e como os recursos da Psicologia e da Psiquiatria podem ser importantes para pessoas que se submetem às cirurgias bariátricas. Será que nessa transição é preciso aprender a "pensar" como magro?

Preguiçoso, acomodado, glutão. Estes e outros adjetivos depreciativos são, com frequência, referenciados a pessoas obesas que, ao senso comum, parecem simplesmente não se esforçarem para perder peso. O problema desta avaliação é que ela ignora que a obesidade muitas vezes não é mera consequência da baixa atividade física ou de um estilo de vida sedentário. Ou seja, nem sempre a obesidade e a permanência do indivíduo nesse estado podem ser explicadas por razões puramente fisiológicas.

À obesidade podem estar atrelados transtornos psicológicos graves. As necessidades emocionais específicas de pessoas obesas tornam o processo de emagrecimento uma luta frustrante e de resultados geralmente temporários, conseguidos por meio de dietas e "pílulas milagrosas" que ignoram possíveis fatores emocionais ligados ao ato de comer. "O objetivo [no tratamento da obesidade] deve ser estabelecer uma relação saudável entre o indivíduo e a comida, de forma que esta perca a função de nutrir os afetos", orienta a psicóloga clínica e psicoterapeuta corporal Mary Scabora.

Segundo a profissional - que coordena no Rio de Janeiro o projeto Integração, de tratamento multidisciplinar de emagrecimento para o obeso - o ato de comer tem uma significação única, que vai além da mera obtenção de energia, relacionando-se na verdade com suas funções mais primitivas. "Na literatura psicanalítica, a boca é o primeiro acesso de comunicação com o mundo externo. É na fase oral que estabelecemos esta relação e que temos contato com sentimentos como prazer, satisfação, amor, agressividade, raiva, privação e medo", explica. Pessoas obesas comumente usam a comida como um substituto emocional, recorrendo a ingestões elevadas e compulsivas de alimentos para fugir do enfrentamento de decepções, frustrações ou acontecimentos que os deixem ansiosos. Nestas condições, diz Mary Scabora, "o excesso de comida cumpre o papel de preencher o vazio existencial".

Ainda que não seja possível estabelecer um "perfil" da pessoa obesa, já que a forma como esta lida com sua condição depende de fatores sociais e ambientais - por exemplo, o desconforto com a aparência depende muitas vezes de o obeso ter vivido ou não situações em que foi ridicularizado devido a seu peso -, a doença não raro é acompanhada de déficits psicológicos, como baixa autoestima, ansiedade, sentimento de culpa, depressão e insegurança. Este quadro pode resultar em transtornos alimentares. Amanhã no blog postarei sobre esses transtornos relacionados a obesidade.

Mudança drástica
Estudos têm mostrado que a cirurgia bariátrica traz mudanças psicológicas, sociais e emocionais rápidas.

Uma pesquisa publicada ano passado no periódico internacional Surgery for Obesity and Related Diseases corrobora essa ideia. Ao avaliar a qualidade de vida e a autopercepção de imagem corporal de 200 pacientes antes da cirurgia e 20, 40 e 92 semanas após a intervenção, David Sarwer, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e colegas observaram que de forma geral os pacientes apresentam significativa melhora na qualidade de vida e na imagem corporal nos primeiros meses após a operação. Esses benefícios, segundo eles, se mantêm geralmente até o segundo ano do pós-operatório.

Por outro lado, outras investigações têm apontado que problemas psicológicos podem se desenvolver após a cirurgia. Por exemplo, segundo um estudo de Ronis Magdaleno e equipe, do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, embora o reencontro com o corpo após o procedimento cirúrgico seja vivenciado pelos pacientes como um meio de reintegração social, um sentimento de desamparo também é frequente nesse período. Tal desamparo, segundo os autores, pode levar a sintomas fóbicos. Desequilíbrios nas relações familiares e conjugais também podem ocorrer e contribuem para desencorajar a continuidade do tratamento. Além disso, alguns pacientes podem buscar constantemente cirurgias plásticas para corrigir o excesso de flacidez e as cicatrizes. Os pesquisadores chegaram a essas evidências após entrevistar qualitativamente sete mulheres que haviam sido operadas entre um ano e meio e três anos. A pesquisa em questão foi publicada em março deste ano na Obesity surgery.

Dados diversos, como os apresentados, são fonte para questionamentos. Qual a importância do acompanhamento psicológico no pós-operatório de cirurgias bariátricas? Será que todos os pacientes necessitam desse suporte? Afinal, é preciso aprender a "pensar" como magro?

Para o médico Adriano Segal, coordenador do departamento de Psiquiatria da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), o "acompanhamento no pós-operatório não é mandatório para todos os pacientes, apenas para aqueles que apresentavam um transtorno psiquiátrico [aí, o acompanhamento seria psiquiátrico] ou psicológico no pré-operatório ou para aqueles que venham a apresentar um problema depois da operação, causado por ela ou não". Ele destaca, entretanto, que uma minoria dos pacientes se enquadra nessa segunda categoria, ou seja, desenvolvem problemas em função da cirurgia.

Além disso, o psiquiatra explica que a "ideia de pensar como magro ou como gordo não procede, já que nem todos os magros comem pouco nem muito menos de um modo saudável e nem todo gordo come em grande excesso e de modo não saudável. Esta generalização é uma das fontes do grande preconceito contra o gordo e deve ser prontamente abandonada".

Por isso, Adriano considera que os médicos devem esclarecer todos os aspectos relativos à obesidade, à técnica cirúrgica, ao emagrecimento e aos cuidados pós-operatórios ainda no pré-operatório. "No pós-operatório, precisamos ficar atentos à adesão ao tratamento e a problemas psiquiátricos que porventura venham a ocorrer. Neste caso, deve-se instituir o tratamento mais adequado para o caso", afirma.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Canibalismo.




O texto é comprido mas vale a pena, devo dizer que o melhor esta ao final, quando começa pervesão sádica.

Texto retirado da revista Mente & Cérebro, ed. 177, outubro de 2007. E considerações minhas (Andréia Miglioranza Marin) sobre o tema ao final.

Canibalismo: da cultura à perversão
O ato de comer carne humana, praticado por culturas ancestrais e durante alguns períodos de extrema escassez, representa a concretização de fantasias sexuais sádicas que indicam problemas na constituição da identidade
por Nahlah Saimeh

técnico de informática alemão Armin Weives era um homem comum, parecia pacífico e solitário. Sua vida mudou da água para o vinho depois de um bizarro jantar, que lhe rendeu prisão perpétua cinco anos depois. O prato principal foi o pênis do engenheiro Bernd Juergen Brandes, que, aliás, também degustou a macabra iguaria, antes de ser assassinado, esquartejado, comido paulatinamente nos dias seguintes. A história começara meses antes, quando Weives colocou um anúncio na internet procurando alguém que quisesse ser morto e devorado. Brandes mostrou-se disposto e concordou em ter o membro sexual amputado, flambado e servido antes do suspiro final. Todo o ritual foi filmado. O crime cometido em 2001 só veio à tona no ano seguinte. Durante o inquérito, Weives, que ficou conhecido como o canibal de Rotemburgo, confessou tê-lo cometido com motivações sexuais. Em agosto deste ano outro caso de canibalismo chocou os europeus. Após terem sido avisados por vizinhos, policiais de Viena prenderam Robert A. por ter assassinado e comido partes do corpo (entre elas o cérebro) de Joseph S. Ambos sem-teto, eles viviam juntos num apartamento cedido pelo serviço social do governo austríaco.

Casos de canibalismo aparecem no noticiário de tempos em tempos, indicando que o fenômeno é mais freqüente do que ousamos pensar. Quem tiver estômago para pesquisar na internet vai encontrar instruções detalhadas de desmembramento do corpo humano, sempre associadas a conteúdos de temática sexual, que mais parecem guias para o abate de animais. Afinal, como explicar esse fenômeno que à maioria de nós é tão repugnante?

A disseminação do cristianismo no Ocidente e do islamismo no Oriente foram duas importantes forças repressoras dos rituais canibais, de modo que, quando o fenômeno volta a ocorrer, ainda que esporadicamente, nos dias de hoje, está sempre associado a indivíduos de alguma forma deslocados na sociedade, quase sempre portadores de transtornos psíquicos. Trata-se do canibalismo patológico.

O risco de um esquizofrênico sem tratamento adequado cometer um crime de morte é bem maior que o de uma pessoa saudável. Durante a fase aguda de surto, muitos pacientes são tomados pela sensação de “dissolver-se”. Nesse caso, o ato canibal pode ser a última tentativa desesperada de ter de volta o próprio corpo. Assolado por alucinações paranóides, o indivíduo se sente perseguido, ameaçado por forças que o fazem se sentir predestinado ou alçado a uma condição superior. As vozes imaginárias podem sugerir, por exemplo, que a ingestão de carne humana o tornará imortal ou libertará o mundo das forças do mal. Esse foi precisamente o caso de Paul Reisinger, que assassinou seis mulheres entre 1779 e 1786 na Áustria. Ele estava convencido de que comendo o coração ainda palpitante das jovens obtinha sorte no jogo e podia se tornar invisível.

É preciso deixar claro, no entanto, que os atos de canibalismo são exceções entre os delitos violentos praticados por esquizofrênicos durante episódios de psicose aguda. Sempre que esses crimes estiveram associados a transtornos psíquicos, e foram devidamente julgados, os réus foram considerados criminalmente inimputáveis e encaminhados para clínicas psiquiátricas, onde ficaram sob a custódia da Justiça. Embora raros, os casos de canibalismo patológico costumam estar associados a transtornos graves de personalidade e perversão de natureza sádica.

PERVERSÃO SÁDICA

A antropofagia é um componente habitual das relações afetivas e sexuais. Os atos de beijar, morder e chupar fazem parte do repertório das carícias trocadas entre pais e filhos e entre casais; expressam proximidade emocional e desejo de ter o outro, simbolicamente, “dentro de si”. Esse desejo erótico de incorporar a pessoa amada transparece quando se diz que alguém é “gostoso” ou quer “comer” o outro. A fantasia de devorar ou ser devorado também está presente em diversas fábulas e brincadeiras de crianças e adultos.

Quando o canibalismo se converte em crime sexual, no entanto, raiva e agressividade são dois componentes quase sempre presentes. Depois de deglutir o amante, Armin Weives disse que seu ato tinha sido “como um casamento, algo que o alçou a uma condição sobrenatural... Eu tinha a esperança de que ele se tornasse parte de mim”. Enquanto o matava e o esquartejava, desfrutou um estado eufórico que combinava ódio e alegria.

Outro canibal famoso, o japonês Issei Sagawa, que comeu sua professora de alemão em 1981, deixou um registro escrito da cena: “Corto seu corpo e levo a carne à boca inúmeras vezes. Então fotografo seu cadáver branco com ferimentos profundos. Faço sexo com seu corpo. Quando a abraço, ela emite um sopro, me assusto, ela parece viva. Eu a beijo e digo que a amo. Então, arrasto seu corpo para o banheiro. A essa altura estou exausto, mas corto sua anca e coloco a carne em uma assadeira. Depois de cozida, sento-me à mesa usando suas roupas de baixo como guardanapo. Elas ainda têm o cheiro de seu corpo”.

Crimes como os de Sagawa e de Weives representam o ponto final de uma evolução perversa sexualmente sádica. Para compreender o fenômeno, é interessante analisar como surge a perversão sexual, que não contém necessariamente o elemento sádico. O psiquiatra e psicanalista Robert J. Stoller (1924-1991), da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia em Los Angeles, reconheceu nessa modalidade de canibalismo uma forma de ódio erótico cujas raízes estão no desenvolvimento, na infância, da identidade masculina: o bebê se sente fundido à mãe, seu corpo e seu psiquismo não existem separados da pessoa que lhe serve de referência no mundo. Com base na teoria da psicanalista Melanie Klein é possível pensar que, no decorrer do processo de individuação, o garoto se reconhece como possuidor de um corpo próprio, de homem, não de mulher. Então lutará constantemente contra uma nova fusão com a mãe que, no desenvolvimento de sua identidade masculina, pode se converter temporariamente em uma “mãe má”.

No ritual canibal perverso esse elemento do “mal” se projeta no objeto a ser destruído. Por outro lado, a assimilação da carne serve para restabelecer a ligação simbiótica original. Segundo Stoller, o cerne da perversão é a raiva e o ódio, provavelmente resultantes de frustrações vividas na infância no tocante à sexualidade. Doenças e humilhações, e o sofrimento a elas inerente, são renegados ou convertidos no próprio triunfo.

O psiquiatra e psicanalista alemão Eberhard Schorsch (1935-1991) analisou outros aspectos da perversão sexual. Segundo ele, as fases da perversão se dividem em quatro. Na primeira, fantasias sexuais desviantes já se mostram intensas, mas só emergem esporadicamente. Na segunda, aparecem com regularidade, como penosos conflitos. Na terceira etapa a sexualidade quase não pode ser vivenciada sem essas fantasias e os desencadeadores da crise não são mais debelados. Neste ponto, o processo se torna irreversível. Finalmente, na última fase, as fantasias sexuais desviantes transformam-se em novos rituais e passam a ocupar espaço cada vez maior.

A encenação perversa serve-se principalmente da exploração do medo e da tensão. Com isso o indivíduo se vê aliviado das agressões e consegue levar uma vida discreta, sem levantar suspeitas. Seus pensamentos e sentimentos, porém, denunciam uma identidade masculina fragilizada e se ocupam basicamente com delírios de potência e poder, busca de proximidade e calor, defesa contra diversos medos, entre eles o de ser abandonado ou “engolido” por uma mulher. A obsessão sexual também é uma forma de repelir essas aflições. Em geral, as pessoas com sintomas perversos não chegam a ter uma sexualidade saudável, já que toda sua intimidade está impregnada pelo medo.
Já o sádico experimenta satisfação na total dominação do objeto sexual. Por meio do aviltamento e do suplício ele consegue a submissão absoluta da vítima, o que o desloca para uma posição equivalente à divina. Há também demonstrações de raiva e ódio, por meio das quais o outro é “despersonalizado”. Quase sempre essa encenação assume contornos violentos e obedece a regras estritas.


Andréia Miglioranza Marin: Gostaria de enfatizar o fato que o canibalismo está intimamente ligado a introjeção, que é a introdução do fora para dentro, beira a incorporação e esta relacionado a indentificação (identificação com algo). Retomemos a fase oral, onde a criança tem o prazer na área bucal, quando bebê põem-se tudo na boca, incorpora-se as coisas. Podemos então pensar no canibal, como um ser que têm uma fixação na fase oral, por isso o canibalismo está ligado ao fator sexual, na fase oral teve-se prazer e então ficou fixada, quando comete-se o ato canibal remete-se a fase oral repetindo uma forma de prazer.